Mortalium Animos

Carta encíclica

Mortalium Animos

Pio XI · 6 de janeiro de 1928

Contexto histórico

Momento histórico

Quase dez anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial, a Europa ainda não havia reencontrado uma paz verdadeira. A New Catholic Encyclopedia lembra que Pio XI, eleito em 6 de fevereiro de 1922, dedicou o pontificado à paz e à reorganização da Igreja depois do colapso dos antigos sistemas políticos, buscando a “paz de Cristo” num mundo que não restabelecera uma paz genuína. Na Itália, Benito Mussolini governava como ditador desde 1922, e a Santa Sé negociava com o seu governo a solução da Questão Romana, aberta desde 1870, que viria com os Pactos de Latrão em 11 de fevereiro de 1929. O próprio Papa abre a encíclica observando que talvez nunca os homens tenham desejado tanto a amizade fraterna e a união entre os povos, embora em alguns lugares antigas e novas discórdias ainda explodissem “em sedições e em conflitos civis”.

A Igreja naquele momento

Esse desejo de unidade também alcançava os cristãos separados de Roma. Entre os cristãos não católicos ganhava força o movimento ecumênico, que se expressava nas conferências de Vida e Ação (Life and Work) e de Fé e Constituição (Faith and Order); a Conferência Mundial de Fé e Constituição reuniu-se em Lausanne em 1927, sem a presença de católicos, embora o Papa tivesse sido convidado. Do lado católico, o cardeal belga Désiré Mercier promoveu a partir de 1921 as Conversas de Malines, encontros não oficiais entre católicos e anglicanos sobre a união das duas Igrejas, de início com o conhecimento e a tolerância da Santa Sé e depois com a sua aprovação expressa. Na Bélgica, o beneditino Lambert Beauduin fundara em 1925, em Amay-sur-Meuse, um “mosteiro da união” que reunia monges de rito latino e de rito oriental. A New Catholic Encyclopedia registra, porém, que a Santa Sé adotava uma atitude negativa diante do movimento ecumênico da cristandade não católica.

O documento

Datada de 6 de janeiro de 1928, festa da Epifania, a Mortalium Animos foi lida, segundo a New Catholic Encyclopedia, como a explicação de por que os católicos não tomaram parte da Conferência de Lausanne, embora não a cite pelo nome. Pio XI descreve as assembleias para as quais se convocam “promiscuamente” pagãos, cristãos e adversários de Cristo, e afirma que tais esforços se apoiam na opinião de que todas as religiões são mais ou menos boas e louváveis, o que leva ao naturalismo e ao ateísmo. Mais sedutor, a seu ver, é o apelo dos chamados “pancristãos”, que invocam a oração de Cristo pela unidade, mas supõem que a unidade de fé e de governo quase nunca existiu e que a Igreja visível seria uma federação de comunidades com doutrinas opostas. Contra isso, a encíclica sustenta que Cristo fundou uma única Igreja visível, que permanece a mesma desde os Apóstolos e é depositária infalível da verdade revelada. Essa verdade não admite transações, nem a distinção entre artigos de fé fundamentais e não fundamentais, e a própria caridade se apoia na fé íntegra. Daí a conclusão: a Santa Sé não pode participar dessas assembleias, e a união dos cristãos só pode ser promovida pelo retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, com o reconhecimento da autoridade de Pedro e de seus sucessores. O texto termina com um apelo fraterno aos separados.

Recepção

Segundo a New Catholic Encyclopedia, a encíclica foi mal recebida pelos não católicos. A Conferência de Lambeth de 1930, da Comunhão Anglicana, louvou a coragem e a caridade cristã do cardeal Mercier ao promover as Conversas de Malines e manifestou seu pesar porque a Mortalium Animos proibia os católicos de participar da Conferência Mundial de Fé e Constituição e de outras conferências semelhantes. Dentro da Igreja, a carta pesou sobre quem trabalhava pela aproximação: segundo o semanário católico sul-africano The Southern Cross, ela foi devastadora para o mosteiro de Amay, e Beauduin, que se sentiu pessoalmente visado, deixou o cargo de prior, foi submetido a processo canônico e, por fim, passou longos anos afastado da Bélgica. A instrução do Santo Ofício sobre o movimento ecumênico, de 20 de dezembro de 1949, voltou a referir-se à encíclica. A New Catholic Encyclopedia observa que, pela clareza com que expôs os princípios, ela ajudou a preparar o caminho para a atividade ecumênica católica de uma geração posterior.

Fontes

  • T. F. Cranny, “Mortalium Animos”, New Catholic Encyclopedia, Encyclopedia.com, 2003. https://www.encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/mortalium-animos
  • G. Schwaiger, T. Brechenmacher e J. Hughes, “Pius XI, Pope”, New Catholic Encyclopedia, Encyclopedia.com, 2003. https://www.encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/pius-xi-pope
  • Conferência de Lambeth, Resolution 32 (1930): The Unity of the Church – The Malines Conversations, IARCCUM, 1930. https://iarccum.org/doc/469
  • Evans Chama, “Dom Lambert’s Long Exile”, The Southern Cross, 2015. https://www.scross.co.za/2015/01/dom-lamberts-long-exile/
  • Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6ª ed., revista por David S. Schaff, vol. II, apêndice VII, “Pius XI.’s Encyclical on Church Union”, Christian Classics Ethereal Library, 1931. https://ccel.org/ccel/schaff/creeds2.vii.ix.html

CARTA ENCÍCLICA
MORTALIUM ANIMOS
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA PIO XI
AOS REVMOS. SENHORES PADRES PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DOS LUGARES
EM PAZ E UNIÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A PROMOÇÃO DA VERDADEIRA
UNIDADE DE RELIGIÃO

 

Veneráveis irmãos
Saúde e Bênção Apostólica 

1. Ânsia Universal de Paz e Fraternidade

Talvez jamais em uma outra época os espíritos dos mortais foram tomados por um tão grande desejo daquela fraterna amizade, pela qual em razão da unidade e identidade de natureza – somos estreitados e unidos entre nós, amizade esta que deve ser robustecida e orientada para o bem comum da sociedade humana, quanto vemos ter acontecido nestes nossos tempos.

Pois, embora as nações ainda não usufruam plenamente dos benefícios da paz, antes, pelo contrário, em alguns lugares, antigas e novas discórdias vão explodindo em sedições e em conflitos civis; como não é possível, entretanto, que as muitas controvérsias sobre a tranquilidade e a prosperidade dos povos sejam resolvidas sem que exista a concórdia quanto à ação e às obras dos que governam as Cidades e administram os seus negócios; compreende-se facilmente (tanto mais que já ninguém discorda da unidade do gênero humano) porque, estimulados por esta irmandade universal, também muitos desejam que os vários povos cada dia se unam mais estreitamente.

2. A Fraternidade na Religião. Congressos Ecumênicos

Entretanto, alguns lutam por realizar coisa não dissemelhante quanto à ordenação da Lei Nova trazida por Cristo, Nosso Senhor.

Pois, tendo como certo que rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a Ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual.

Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre frequência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão.

3. Os Católicos não podem aprová-lo

Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo. Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada.

4. Outro erro. A união de todos os Cristãos. Argumentos falazes

Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja reto.

Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade?

Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem “UM” (Jo 17, 21)?

a

João 17, 21

Matos Soares: 21 para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que me enviaste.

Bíblia Portuguesa Mundial: 21 para que todos sejam um; assim como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti, que eles também sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.

Vulgata Clementina: 21 ut omnes unum sint, sicut tu Pater in me, et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint: ut credat mundus, quia tu me misisti.

Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem: “Todos conhecerão que sois meus discípulos nisto: se tiverdes amor um pelo outro?” ( Jo 13, 35).

b

João 13, 35

Matos Soares: 35 Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.”

Bíblia Portuguesa Mundial: 35 Nisto todos saberão que vocês são meus discípulos, se tiverem amor uns pelos outros.”

Vulgata Clementina: 35 In hoc cognoscent omnes quia discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem.

Oxalá todos os cristão fossem “UM”, acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho.

5. Debaixo desses argumentos se oculta um erro gravíssimo

Os chamados “pancristãos” espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos.

Esta iniciativa é promovida de modo tão ativo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadão e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grêmio.

Na verdade, sob os atrativos e os afagos destas palavras oculta-se um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da fé.

6. A verdadeira norma nesta matéria

Advertidos, pois, pela consciência do dever apostólico, para que não permitamos que o rebanho do Senhor seja envolvido pela nocividade destas falácias, apelamos, veneráveis irmãos, para o vosso empenho na precaução contra este mal. Confiamos que, pelas palavras e escritos de cada um de vós, poderemos atingir mais facilmente o povo, e que os princípios e argumentos, que a seguir proporemos, sejam entendidos por ele pois, por meio deles, os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeitos a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos.

7. Só uma religião pode ser verdadeira: A revelada por Deus

Fomos criados por Deus, Criador de todas as coisas, para este fim: conhecê-l’O e serví-l’O. O nosso Criador possui, portanto, pleno direito de ser servido.

Por certo, poderia Deus ter estabelecido apenas uma lei da natureza para o governo do homem. Ele, ao criá-lo, gravou-a em seu espírito e poderia portanto, a partir daí, governar os seus novos atos pela providência ordinária dessa mesma lei. Mas, preferiu dar preceitos aos quais nós obedecêssemos e, no decurso dos tempos, desde os começos do gênero humano até a vinda e a pregação de Jesus Cristo, Ele próprio ensinou ao homem, naturalmente dotado de razão, os deveres que dele seriam exigidos para com o Criador: “Em muitos lugares e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente, nestes dias, falou-nos por seu Filho” ( Heb 1,1 Seg).

c

Hebreus 1, 1

Matos Soares: 1 Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Deus, tendo falado no passado aos pais por meio dos profetas, muitas vezes e de várias maneiras,

Vulgata Clementina: 1 Multifariam, multisque modis olim Deus loquens patribus in prophetis:

Está, portanto, claro que a religião verdadeira não pode ser outra senão a que se funda na palavra revelada de Deus; começando a ser feita desde o princípio, essa revelação prosseguiu sob a Lei Antiga e o próprio Cristo completou-a sob a Nova Lei.

Portanto, se Deus falou – e comprova-se pela fé histórica Ter ele realmente falado – não há quem não veja ser dever do homem acreditas, de modo absoluto, em deus que se revela e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra, o Filho Unigênito de Deus instituiu na terra a sua Igreja.

8. A única religião revelada é a Igreja Católica

Acreditamos, pois, que os que afirma serem cristão, não possam fazê-lo sem crer que uma Igreja, e uma só, foi fundada por Cristo. Mas, se se indaga, além disso, qual deva ser ela pela vontade do seu Autor, já não estão todos em consenso.

Assim, por exemplo, muitíssimos destes negam a necessidade da Igreja de Cristo ser visível e perceptível, pelo menos na medida em que deva aparecer como um corpo único de fiéis, concordes em uma só e mesma doutrina, sob um só magistério e um só regime. Mas, pelo contrário, julgam que a Igreja perceptível e visível é uma Federação de várias comunidades cristãs, embora aderentes, cada uma delas, a doutrinas opostas entre si.

Entretanto, cristo Senhor instituiu a sua Igreja como uma sociedade perfeita de natureza externa e perceptível pelos sentidos, a qual, nos tempos futuros, prosseguiria a obra da reparação do gênero humano pela regência de uma só cabeça ( Mt 16, 18 seg.; Lc 22, 32; Jo 21, 15-17), pelo magistério de uma voz viva ( Mc 16,15) e pela dispensação dos sacramentos, fontes da graça celeste ( Jo 3, 5; 6,48-50; 20,22 seg.; cf. Mt 18, 18; etc.). Por esse motivo, por comparações afirmou-a semelhante a um reino ( Mt, 13), a uma casa ( Mt 16, 18), a um redil de ovelhas ( Jo 10, 16) e a um rebanho ( Jo 21, 15-17).

d

Mateus 16, 18

Matos Soares: 18 E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Eu também lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.

Vulgata Clementina: 18 Et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus eam.

Lucas 22, 32

Matos Soares: 32 mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, conforta os teus irmãos.”

Bíblia Portuguesa Mundial: 32 mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado, fortaleça os seus irmãos.”

Vulgata Clementina: 32 ego autem rogavi pro te ut non deficiat fides tua: et tu aliquando conversus, confirma fratres tuos.

João 21, 15-17

Matos Soares: 15 Tendo eles jantado, disse Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta os meus cordeiros.” (ver nota) 16 Disse-lhe outra vez; “Simão, filho de João, amas-me?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.” 17 Disse-lhe pela terceira vez: “Simão, filho de João, amas-me?” Ficou Pedro triste, porque, pela terceira vez, lhe disse: “Amas-me?” E disse-lhe: “Senhor, tu conheces tudo; sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.”

Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Então, quando terminaram de tomar o café da manhã, Jesus disse a Simão Pedro: “Simão, filho de Jonas, você me ama mais do que estes?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Alimente os meus cordeiros.” 16 Ele lhe disse novamente, pela segunda vez: “Simão, filho de Jonas, você me ama?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Pastoreie as minhas ovelhas.” 17 Ele lhe disse pela terceira vez: “Simão, filho de Jonas, você tem carinho por mim?” Pedro entristeceu-se porque ele lhe perguntou pela terceira vez: “Você tem carinho por mim?” Ele lhe disse: “Senhor, tu sabes todas as coisas. Tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Jesus lhe disse: “Alimente as minhas ovelhas.

Vulgata Clementina: 15 Cum ergo prandissent, dicit Simoni Petro Jesus: Simon Joannis, diligis me plus his? Dicit ei: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 16 Dicit ei iterum: Simon Joannis, diligis me? Ait illi: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 17 Dicit ei tertio: Simon Joannis, amas me? Contristatus est Petrus, quia dixit ei tertio: Amas me? et dixit ei: Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te. Dixit ei: Pasce oves meas.

e

Marcos 16, 15

Matos Soares: 15 Disse-lhes: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura.

Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Ele lhes disse: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda a criação.

Vulgata Clementina: 15 Et dixit eis: Euntes in mundum universum prædicate Evangelium omni creaturæ.

f

João 3, 5

Matos Soares: 5 Jesus respondeu-lhe: “Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer da água e do Espirito Santo, não pode entrar no reino de Deus.

Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus.

Vulgata Clementina: 5 Respondit Jesus: Amen, amen dico tibi, nisi quis renatus fuerit ex aqua, et Spiritu Sancto, non potest introire in regnum Dei.

João 6, 48-50

Matos Soares: 48 Eu sou o pão da vida. 49 Vossos pais comeram o maná, no deserto, e morreram. 50 Este é o pão que desceu do céu, para que aquele que dele comer não morra,

Bíblia Portuguesa Mundial: 48 Eu sou o pão da vida. 49 Seus pais comeram o maná no deserto e morreram. 50 Este é o pão que desce do céu, para que quem dele comer não morra.

Vulgata Clementina: 48 Ego sum panis vitæ. 49 Patres vestri manducaverunt manna in deserto, et mortui sunt. 50 Hic est panis de cælo descendens: ut si quis ex ipso manducaverit, non moriatur.

João 20, 22

Matos Soares: 22 Tendo proferido estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Depois de dizer isso, soprou sobre eles e lhes disse: “Recebam o Espírito Santo!

Vulgata Clementina: 22 Hæc cum dixisset, insufflavit, et dixit eis: Accipite Spiritum Sanctum:

Mateus 18, 18

Matos Soares: 18 Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no céu; e tudo o que desatardes sobre a terra, será desatado no céu. (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Em verdade lhes digo: tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu.

Vulgata Clementina: 18 Amen dico vobis, quæcumque alligaveritis super terram, erunt ligata et in cælo: et quæcumque solveritis super terram, erunt soluta et in cælo.

g

Mateus 16, 18

Matos Soares: 18 E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Eu também lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.

Vulgata Clementina: 18 Et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus eam.

h

João 10, 16

Matos Soares: 16 Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; importa que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.

Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. A essas também devo trazer, e elas ouvirão a minha voz. Elas se tornarão um só rebanho com um só pastor.

Vulgata Clementina: 16 Et alias oves habeo, quæ non sunt ex hoc ovili: et illas oportet me adducere, et vocem meam audient, et fiet unum ovile et unus pastor.

i

João 21, 15-17

Matos Soares: 15 Tendo eles jantado, disse Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta os meus cordeiros.” (ver nota) 16 Disse-lhe outra vez; “Simão, filho de João, amas-me?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.” 17 Disse-lhe pela terceira vez: “Simão, filho de João, amas-me?” Ficou Pedro triste, porque, pela terceira vez, lhe disse: “Amas-me?” E disse-lhe: “Senhor, tu conheces tudo; sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.”

Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Então, quando terminaram de tomar o café da manhã, Jesus disse a Simão Pedro: “Simão, filho de Jonas, você me ama mais do que estes?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Alimente os meus cordeiros.” 16 Ele lhe disse novamente, pela segunda vez: “Simão, filho de Jonas, você me ama?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Pastoreie as minhas ovelhas.” 17 Ele lhe disse pela terceira vez: “Simão, filho de Jonas, você tem carinho por mim?” Pedro entristeceu-se porque ele lhe perguntou pela terceira vez: “Você tem carinho por mim?” Ele lhe disse: “Senhor, tu sabes todas as coisas. Tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Jesus lhe disse: “Alimente as minhas ovelhas.

Vulgata Clementina: 15 Cum ergo prandissent, dicit Simoni Petro Jesus: Simon Joannis, diligis me plus his? Dicit ei: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 16 Dicit ei iterum: Simon Joannis, diligis me? Ait illi: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 17 Dicit ei tertio: Simon Joannis, amas me? Contristatus est Petrus, quia dixit ei tertio: Amas me? et dixit ei: Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te. Dixit ei: Pasce oves meas.

Esta Igreja, fundada de modo tão admirável, ao Lhe serem retirados o seu Fundador e os Apóstolos que por primeiro a propagaram, em razão da morte deles, não poderia cessar de existir e ser extinta, uma vez que Ela era aquela a quem, sem nenhuma discriminação quanto a lugares e a tempos, fora dado o preceito de conduzir todos os homens à salvação eterna: “Ide, pois, ensinai a todos os povos” (Mt 28, 19).

j

Mateus 28, 19

Matos Soares: 19 Ide, pois, ensinai todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo,

Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,

Vulgata Clementina: 19 euntes ergo docete omnes gentes: baptizantes eos in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti:

Acaso faltaria à Igreja algo quanto à virtude e eficácia no cumprimento perene desse múnus, quando o próprio Cristo solenemente prometeu estar sempre presente a ela: “Eis que Eu estou convosco, todos os dias, até a consumação dos séculos?” ( Mt 28, 20).

k

Mateus 28, 20

Matos Soares: 20 ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo.

Bíblia Portuguesa Mundial: 20 ensinando-os a guardar todas as coisas que eu lhes ordenei. Eis que estou com vocês sempre, até o fim dos tempos.” Amém.

Vulgata Clementina: 20 docentes eos servare omnia quæcumque mandavi vobis: et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus, usque ad consummationem sæculi.

Deste modo, não pode ocorrer que a Igreja de Cristo não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista como inteiramente a mesma que existiu à época dos Apóstolos. A não ser que desejemos afirmar que: Cristo Senhor ou não cumpriu o que propôs ou que errou ao afirmar que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra Ela (Mt 16,18).

l

Mateus 16, 18

Matos Soares: 18 E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Eu também lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.

Vulgata Clementina: 18 Et ego dico tibi, quia tu es Petrus, et super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus eam.

9. Um erro capital do movimento ecumêmico na pretendida união das Igrejas cristãs

Ocorre-nos dever esclarecer e afastar aqui certa opinião falsa, da qual parece depender toda esta questão e proceder essa múltipla ação e conspiração dos acatólicos que, como dissemos, trabalham pela união das igrejas cristãs.

Os autores desta opinião acostumaram-se a citar, quase que indefinidamente, a Cristo dizendo: “Para que todos sejam um”… “Haverá um só rebanho e um só Pastos”( Jo 27,21; 10,16). Fazem-no todavia de modo que, por essas palavras, queriam significar um desejo e uma prece de Cristo ainda carente de seu efeito.

m

João 17, 21

Matos Soares: 21 para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que me enviaste.

Bíblia Portuguesa Mundial: 21 para que todos sejam um; assim como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti, que eles também sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.

Vulgata Clementina: 21 ut omnes unum sint, sicut tu Pater in me, et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint: ut credat mundus, quia tu me misisti.

João 10, 16

Matos Soares: 16 Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; importa que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.

Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. A essas também devo trazer, e elas ouvirão a minha voz. Elas se tornarão um só rebanho com um só pastor.

Vulgata Clementina: 16 Et alias oves habeo, quæ non sunt ex hoc ovili: et illas oportet me adducere, et vocem meam audient, et fiet unum ovile et unus pastor.

Pois opinam: a unidade de fé e de regime, distintivo da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu até hoje e nem hoje existe; que ela pode, sem dúvida, ser desejada e talvez realizar-se alguma vez, por uma inclinação comum das vontades; mas que, entrementes, deve existir apenas uma fictícia unidade.

Acrescentam que a Igreja é, por si mesma, por natureza, dividida em partes, isto é, que ela consta de muitas igreja ou comunidades particulares, as quais, ainda separadas, embora possuam alguns capítulos comuns de doutrina, discordam todavia nos demais. Que cada uma delas possui os mesmos direitos, que, no máximo, a Igreja foi única e una, da época apostólica até os primeiros concílios ecumênicos.

Assim, dizem, é necessários colocar de lado e afastar as controvérsias e as antiquíssimas variedade de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão e, quanto às outras doutrinas, elaborar e propor uma certa lei comum de crer, em cuja profissão de fé todos se conheçam e se sintam como irmãos, pois, se as múltiplas igrejas e comunidades forem unidas por um certo pacto, existiria já a condição para que os progressos da impiedade fossem futuramente impedidos de modo sólido e frutuoso.

Estas são, Veneráveis Irmãos, as afirmações comuns.

Existem, contudo, os que estabelecem e concedem que o chamado Protestantismo, de modo bastante inconsiderado, deixou de lado certos capítulos da fé e alguns ritos do culto exterior, sem dúvida gratos e úteis, que, pelo contrário, a Igreja Romana ainda conserva.

Mas, de imediato, acrescentam que esta mesma Igreja também agiu mal, corrompendo a religião primitiva por algumas doutrinas alheias e repugnantes ao Evangelho, propondo acréscimos para serem cridos: enumeram como o principal entre estes o que versa sobre o Primado de Jurisdição atribuído a Pedro e a seus Sucessores na Sé Romana.

Entre os que assim pensam, embora não sejam muitos, estão os que indulgentemente atribuem ao Pontífice Romano um primado de honra ou uma certa jurisdição e poder que, entretanto, julgam procedente não do direito divino, mas de certo consenso dos fiéis. Chegam outros ao ponto de, por seus conselhos, que diríeis serem furta-cores, quererem presidir o próprio Pontífice.

E se é possível encontrar muitos acatólicos pregando à boca cheia a união fraterna em Jesus Cristo, entretanto não encontrareis a nenhum deles em cujos pensamentos esteja a submissão e a obediência ao Vigário de Jesus Cristo enquanto docente ou enquanto governante.

Afirmam eles que tratariam de bom grado com a Igreja Romana, mas com igualdade de direitos, isto é, iguais com um igual. Mas, se pudessem fazê-lo, não parece existir dúvida de que agiriam com a intenção de que, por um pacto que talvez se ajustasse, não fossem coagidos a afastarem-se daquelas opiniões que são a causa pela qual ainda vagueiem e errem fora do único aprisco de Cristo.

10. A Igreja Católica não pode participar de semelhantes reuniões 

Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo. 

11. A verdade revelada não admite transações

Acaso poderemos tolerar – o que seria bastante iníquo-, que a verdade e, em especial a revelada, seja diminuída através de pactuações?

No caso presente, trata-se da verdade revelada que deve ser defendida. 

Se Jesus Cristo enviou os Apóstolos a todo o mundo, a todos os povos que deviam ser instruídos na fé evangélica e, para que não errassem em nada, quis que, anteriormente, lhes fosse ensinada toda a verdade pelo Espírito Santo, acaso esta doutrina dos Apóstolos faltou inteiramente ou foi alguma vez perturbada na Igreja em que o próprio Deus está presente como regente e guardião?

Se o nosso Redentor promulgou claramente o seu Evangelho não apenas para os tempos apostólicos, mas também para pertencer às futuras épocas, o objeto da fé pode tornar-se de tal modo obscuro e incerto que hoje seja necessários tolerar opiniões pelo menos contrárias entre si?

Se isto fosse verdade, dever-se-ia igualmente dizer que o Espírito Santo que desceu sobre os Apóstolos, que a perpétua permanência dele na Igreja e também que a própria pregação de Cristo já perderam, desde muitos séculos, toda a eficácia e utilidade: afirmar isto é, sem dúvida, blasfemo.

12. A Igreja Católica: depositária infalível da verdade

Quando o Filho unigênito de Deus ordenou a seus enviados que ensinassem a todos os povos, vinculou então todos os homens pelo dever de crer nas coisas que lhes fossem anunciadas pela “testemunha pré-ordenadas por Deus” (At 10, 41). Entretanto, um e outro preceito de Cristo, o de ensinar e o de crer na consecução da salvação eterna, que não podem deixar de ser cumpridos, não poderiam ser entendidos a não ser que a Igreja proponha de modo íntegro e claro a doutrina evangélica e que, ao propô-la, seja imune a qualquer perigo de errar.

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Atos dos Apóstolos 10, 41

Matos Soares: 41 não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus tinha escolhido antes, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou dos mortos.

Bíblia Portuguesa Mundial: 41 não a todo o povo, mas a testemunhas que foram escolhidas de antemão por Deus, a nós, que comemos e bebemos com ele depois que ele ressuscitou dos mortos.

Vulgata Clementina: 41 non omni populo, sed testibus præordinatis a Deo: nobis, qui manducavimus et bibimus cum illo postquam resurrexit a mortuis.

Afastam-se igualmente do caminho os que julgam que o depósito da verdade existe realmente na terra, mas que é necessário um trabalho difícil, com tão longos estudos e disputas para encontrá-lo e possuí-lo que a vida dos homens seja apenas suficiente para isso, com se Deus benigníssimo tivesse falado pelos profetas e pelo seu Unigênito para que apenas uns poucos, e estes mesmos já avançados em idade, aprendessem perfeitamente as coisas que por eles revelou, e não para que preceituasse uma doutrina de fé e de costumes pela qual, em todo o decurso de sua vida mortal, o homem fosse regido.

13. Sem fé, não há verdadeira caridade

Estes pancristãos, que empenham o seu espírito na união das igrejas, pareceriam seguir, por certo, o nobilíssimo conselho da caridade que deve ser promovida entre os cristãos. Mas, dado que a caridade se desvia em detrimento da fé, o que pode ser feito?

Ninguém ignora por certo que o próprio João, o Apóstolo da Caridade, que em seu Evangelho parece ter manifestado os segredos do Coração Sacratíssimo de Jesus e que permanentemente costumavas inculcar à memória dos seus o mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros”, vetou inteiramente até mesmo manter relações com os que professavam de forma não íntegra e incorrupta a doutrina de Cristo: “Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem digais a ele uma saudação” (2 Jo 10).

Pelo que, como a caridade se apóia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal.

14. União Irracional 

Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objeto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros?

E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina?

Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo?

Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor?

Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo - Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar - e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo, “único mediador de Deus e dos homens”? ( 1 Tim 2, 5). 

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1 Timóteo 2, 5

Matos Soares: 5 Com efeito, há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus,

Vulgata Clementina: 5 Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum homo Christus Jesus:

15. Princípio até o indiferentismo e o modernismo

Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo. os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada, isto é, de acordo com as múltiplas necessidades dos tempos e dos lugares e com as várias inclinações dos espíritos, uma vez que ela não estaria limitada por uma revelação imutável, mas seria tal que se adaptaria à vida dos homens.

Além disso, com relação às coisas que devem ser cridas, não é lícito utilizar-se, de modo algum, daquela discriminação que houveram por bem introduzir entre o que denominam capítulos fundamentais e capítulos não fundamentais da fé, como se uns devessem ser recebidos por todos, e, com relação aos outros, pudesse ser permitido o assentimento livre dos fiéis: a Virtude sobrenatural da fé possui como causa formal a autoridade de Deus revelante e não pode sofrer nenhuma distinção como esta.

Por isto, todos os que são verdadeiramente de Cristo consagram, por exemplo, ao mistério da Augusta Trindade a mesma fé que possuem em relação dogma da Mãe de Deus concebida sem a mancha original e não possuem igualmente uma fé diferente com relação à Encarnação do Senhor e ao magistério infalível do Pontífice romano, no sentido definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano.

Nem se pode admitir que as verdade que a Igreja, através de solenes decretos, sancionou e definiu em outras épocas, pelo menos as proximamente superiores, não sejam, por este motivo, igualmente certas e nem devam ser igualmente acreditadas: acaso não foram todas elas reveladas por Deus?

Pois, o Magistério da Igreja, por decisão divina, foi constituído na terra para que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro. E, embora seja ele diariamente exercido pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em união com ele, todavia ele se completa pela tarefa de agir, no momento oportuno, definindo algo por meio de solenes ritos e decretos, se alguma vez for necessário opor-se aos erros ou impugnações dos hereges de um modo mais eficiente ou imprimir nas mentes dos fiéis capítulos da doutrina sagrada expostos de modo mais claro e pormenorizado.

Por este uso extraordinário do Magistério nenhuma invenção é introduzida e nenhuma coisa nova é acrescentada à soma de verdades que estando contidas, pelo menos implicitamente, no depósito da revelação, foram divinamente entregues à Igreja, mas são declaradas coisas que, para muitos talvez, ainda poderiam parecer obscuras, ou são estabelecidas coisas que devem ser mantidas sobre a fé e que antes eram por alguns colocados sob controvérsia.

16. A única maneira de unir todos os cristãos

Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.

Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos. Pois, a mística Esposa de Cristo jamais se contaminou com o decurso dos séculos nem, em época alguma, poderá ser contaminada, como Cipriano o atesta: “A Esposa de Cristo não pode ser adulterada: ela é incorrupta e pudica. Ela conhece uma só casa e guarda com casto pudor a santidade de um só cubículo” ( De Cath. Ecclessiae unitate, 6).

E o mesmo santo Mártir, com direito e com razão, grandemente se admirava de que pudesse alguém acreditar que “esta unidade que procede da firmeza de Deus pudesse cindir-se e ser quebrada na Igreja pelo divórcio de vontades em conflito” (ibidem).

Portanto, dado que o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja, é um só ( 1 Cor 12, 12), compacto e conexo ( Ef. 4, 15), à semelhança do seu corpo físico, seria inépcia e estultície afirmar alguém que ele pode constar de membros desunidos e separados: quem pois não estiver unido com ele, não é membro seu, nem está unido à cabeça, Cristo (Cfr. Ef. 5, 30; 1, 22). 

p

1 Coríntios 12, 12

Matos Soares: 12 Do mesmo modo que o corpo é um e tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, embora sejam muitos, são contudo um só corpo, assim é também Cristo. (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 12 Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, são um só corpo, assim também é Cristo.

Vulgata Clementina: 12 Sicut enim corpus unum est, et membra habet multa, omnia autem membra corporis cum sint multa, unum tamen corpus sunt: ita et Christus.

q

Efésios 4, 15

Matos Soares: 15 Porém, praticando a verdade na caridade, cresçamos de todas as formas naquele que é cabeça, o Cristo. (ver nota)

Bíblia Portuguesa Mundial: 15 mas, falando a verdade em amor, cresçamos em todas as coisas naquele que é a cabeça, Cristo,

Vulgata Clementina: 15 Veritatem autem facientes in caritate, crescamus in illo per omnia, qui est caput Christus:

r

Efésios 5, 30

Matos Soares: 30 porque somos membros do seu corpo (místico).

Bíblia Portuguesa Mundial: 30 porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos.

Vulgata Clementina: 30 quia membra sumus corporis ejus, de carne ejus et de ossibus ejus.

Efésios 1, 22

Matos Soares: 22 Pôs debaixo dos seus pés todas as coisas e constituiu-o cabeça de toda a Igreja,

Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Ele sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés e o deu à igreja como cabeça sobre todas as coisas,

Vulgata Clementina: 22 Et omnia subjecit sub pedibus ejus: et ipsum dedit caput supra omnem ecclesiam,

17. A obediência ao Romano Pontífice 

Mas, ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos.

Por acaso os antepassados dos enredados pelos erros de Fócio e dos reformadores não estiveram unidos ao Bispo de Roma, ao Pastor supremo das almas?

Ai! Os filhos afastaram-se da casa paterna; todavia ela não foi feita em pedaços e nem foi destruída por isso, uma vez que estava arrimada na perene proteção de Deus. Retornem, pois, eles ao Pai comum que, esquecido das injúrias antes gravadas a fogo contra a Sé Apostólica, recebê-los-á com máximo amor.

Pois se, como repetem freqüentemente, desejam unir-se Conosco e com os nossos, por que não se apressam em entrar na Igreja, “Mãe e Mestra de todos os fiéis de Cristo” (Conc. Later 4, c.5)?

Escutem a Lactâncio chamado amiúde: “Só… a Igreja Católica é a que retém o verdadeiro culto. Aqui está a fonte da verdade, este é o domicílio da Fé, este é o templo de Deus: se alguém não entrar por ele ou se alguém dele sair, está fora da esperança da vida e salvação. é necessário que ninguém se afague a si mesmo com a pertinácia nas disputas, pois trata-se da vida e da salvação que, a não ser que seja provida de um modo cauteloso e diligente, estará perdida e extinta” ( Divin. Inst. 4, 30, 11-12).

18. Apelo às seitas dissidentes

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sede, dizemos, que é “raiz e matriz da Igreja Católica” ( S. Cypr., ep. 48 a d Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que “a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” ( 1 Tim 3, 15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu magistério e regime.

s

1 Timóteo 3, 15

Matos Soares: 15 porém, se tardar, para que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e firmamento da verdade.

Bíblia Portuguesa Mundial: 15 mas, se eu demorar, para que você saiba como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e o fundamento da verdade.

Vulgata Clementina: 15 si autem tardavero, ut scias quomodo oporteat te in domo Dei conversari, quæ est ecclesia Dei vivi, columna et firmamentum veritatis.

Oxalá auspiciosamente ocorra para Nós isto que não ocorreu ainda para tantos dos nossos muitos Predecessores, a fim de que possamos abraçar com espírito fraterno os filhos que nos é doloroso estejam de Nós separados por uma perniciosa dissensão.

Prece a Nosso Senhor e a Nossa Senhora. Oxalá Deus, Senhor nosso, que “quer salvar todos os homens e que eles venham ao conhecimento da verdade”( 1 Tim. 2, 4) nos ouça suplicando fortemente para que Ele se digne chamar à unidade da Igreja a todos os errantes.

t

1 Timóteo 2, 4

Matos Soares: 4 o qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

Bíblia Portuguesa Mundial: 4 que deseja que todas as pessoas sejam salvas e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.

Vulgata Clementina: 4 qui omnes homines vult salvos fieri, et ad agnitionem veritatis venire.

Nesta questão que é, sem dúvida, gravíssima, utilizamos e queremos que seja utilizada como intercessora a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da graça divina, vencedora de todas as heresias e auxílio dos cristãos, para que Ela peça, para o quanto antes, a chegada daquele dia tão desejado por nós, em que todos os homens escutem a voz do seu Filho divino, “conservando a unidade de espírito em um vínculo de paz” (Ef. 4, 3).

u

Efésios 4, 3

Matos Soares: 3 solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz.

Bíblia Portuguesa Mundial: 3 empenhando-se em preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.

Vulgata Clementina: 3 solliciti servare unitatem Spiritus in vinculo pacis.

19. Conclusão e Bênção Apostólica

Compreendeis, Veneráveis Irmãos, o quanto desejamos isto e queremos que o saibam os nossos filhos, não só todos os do mundo católico, mas também os que de Nós dissentem. Estes, se implorarem em prece humilde as luzes do céu, por certo reconhecerão a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo e, por fim, nEla tendo entrado, estarão unidos conosco em perfeita caridade.

No aguardo deste fato, como auspício dos dons de Deus e como testemunho de nossa paterna benevolência, concedemos muito cordialmente a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e povo, a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia seis de janeiro, no ano de 1928, festa da Epifania de Jesus Cristo, Nosso Senhor, sexto de nosso Pontificado.

 

PIO PP. XI.