
Carta encíclica
Mediator Dei
Contexto histórico
Momento histórico
Quando Pio XII assinou a encíclica Mediator Dei, em 20 de novembro de 1947, a Europa saía havia pouco da Segunda Guerra Mundial. O próprio texto fala de uma “longa e cruel guerra que dividiu os povos”, e muitas das igrejas destruídas pelos combates ainda estavam por reconstruir. No pós-guerra, boa parte da Igreja no Leste europeu passou a sofrer dura perseguição do comunismo soviético, e na Itália o Papa mobilizou os grupos da Ação Católica, que tiveram grande papel na vitória da Democracia Cristã em 1948. Na Alemanha, o regime nazista havia perseguido com método a Ação Católica, dissolvido suas organizações, reduzido as manifestações públicas do cristianismo e calado a maior parte da imprensa religiosa. Segundo o jesuíta André Thiry, aos cristãos alemães restara apenas o altar, o que explica a profundidade que o movimento litúrgico alcançou ali durante a guerra.
A Igreja naquele momento
Desde o século XIX crescia um movimento de renovação litúrgica. Dom Prosper Guéranger restaurara a abadia de Solesmes, e na Bélgica as abadias de Maredsous e de Mont-César, esta com Dom Lambert Beauduin, tornaram-se centros do movimento. Entre as duas guerras, o centro mais ativo do movimento passou a ser a Alemanha e a Áustria: a abadia de Maria Laach, com o abade Herwegen e Dom Odo Casel, a “liturgia popular” de Pius Parsch em Klosterneuburg e a obra de Romano Guardini.
Durante a guerra, o movimento alemão entrou em crise. Em 1941, o próprio Guardini reconheceu em carta ao bispo de Mainz que havia nele tendências exclusivistas e estranhas, mas temia que a autoridade fizesse abortar todo o trabalho. Conrad Gröber, bispo de Friburgo, enviou aos bispos alemães um memorando em tom duro, em que denunciava uma divisão entre o clero jovem e o antigo, uma interpretação exagerada do corpo místico e do sacerdócio comum dos fiéis e a tentativa de introduzir o alemão na celebração da missa. Em 24 de dezembro de 1943, o cardeal Maglione, secretário de Estado, transmitiu ao cardeal Bertram, decano dos bispos alemães, instruções em que o Papa lamentava reformas feitas por conta própria e pedia que as controvérsias cessassem. O episcopado respondeu a Roma e a Gröber: o cardeal Innitzer disse ver uma “tensão fecunda” onde Gröber via uma oposição mortal, e a conferência episcopal de Fulda criou uma comissão litúrgica. Naquele mesmo ano, Pio XII publicara a encíclica Mystici Corporis, sobre a Igreja como corpo místico de Cristo.
O documento
A encíclica começa reconhecendo o “singular fervor de estudos litúrgicos” surgido no fim do século XIX, sobretudo nos mosteiros beneditinos. O Papa diz ter de evitar dois desvios: o descaso pela liturgia em algumas regiões e o gosto excessivo pela novidade em outras. Define a liturgia como culto público, externo e interno, e afirma que só a Sé Apostólica pode regulá-la. O latim é chamado sinal de unidade, e o uso da língua vulgar, embora útil em muitos ritos, depende de concessão da Santa Sé. O Papa rejeita o “arqueologismo” de quem quer voltar a tudo o que é antigo, lembrando que “o uso antigo não é, por motivo somente de sua antiguidade, o melhor”. Ensina que os fiéis oferecem o sacrifício com o sacerdote e se oferecem a si mesmos, mas sem poderes sacerdotais, defende a legitimidade das missas privadas e das devoções não litúrgicas, e recomenda o canto gregoriano e as Vésperas cantadas nas paróquias.
Recepção
Em 1948, a Nouvelle Revue Théologique apresentou a encíclica como um dos documentos maiores do pontificado. Segundo o historiador Daniele Premoli, o movimento litúrgico recebeu-a com surpresa e satisfação, mas algumas de suas formulações deram lugar a mal-entendidos, sobretudo quanto à doutrina da presença dos mistérios de Dom Odo Casel. A New Catholic Encyclopedia a descreve como o coroamento do movimento litúrgico moderno e a primeira exposição oficial detalhada da teologia da liturgia. Em 1988, João Paulo II escreveu que Pio XII retomou o grande projeto de reforma litúrgica ao publicar a encíclica e criar uma nova comissão, e que também mudou o jejum eucarístico e reformou a Vigília Pascal e a Semana Santa. Segundo a Encyclopedia of World Biography, muitas de suas medidas, como a missa vespertina e a língua vulgar em certas cerimônias, prepararam as reformas mais radicais do Concílio Vaticano II.
Fontes
- André Thiry, S.J., L’encyclique « Mediator Dei » sur la liturgie, Nouvelle Revue Théologique, 1948. https://www.nrt.be/fr/articles/l-encyclique-mediator-dei-sur-la-liturgie-2777
- W. J. O’Shea, Mediator Dei, New Catholic Encyclopedia, Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/mediator-dei
- Daniele Premoli, Mediator Dei, Odo Casel e Pius Parsch, Römische Quartalschrift, Herder, 2023. https://www.herder.de/rq/hefte/archiv/118-2023/3-4-2023/mediator-dei-odo-casel-e-pius-parsch/
- Pius XII, Encyclopedia of World Biography, Encyclopedia.com. https://www.encyclopedia.com/history/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/pius-xii
- João Paulo II, Vicesimus quintus annus, vatican.va, 1988. https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/en/apost_letters/1988/documents/hf_jp-ii_apl_19881204_vicesimus-quintus-annus.html
CARTA ENCÍCLICA
MEDIATOR DEI
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A SAGRADA LITURGIA
INTRODUÇÃO
1. “O mediador entre Deus e os homens”, 1 o grande pontífice que penetrou os céus, Jesus filho de Deus,2 assumindo a obra de misericórdia com a qual enriqueceu o gênero humano de benefícios sobrenaturais, visou sem dúvida a restabelecer entre os homens e o Criador aquela ordem que o pecado tinha perturbado e a reconduzir ao Pai celeste, primeiro princípio e último fim, a mísera estirpe de Adão, infeccionada pelo pecado original. E por isso, durante a sua permanência na terra, não só anunciou o início da redenção e declarou inaugurado o reino de Deus, mas ainda cuidou de promover a salvação das almas pelo contínuo exercício da pregação e do sacrifício, até que, na cruz, se ofereceu a Deus qual vítima imaculada para “purificar a nossa consciência das obras mortas, para servir a Deus vivo”.3 Assim, todos os homens, felizmente chamados do caminho que os arrastava à ruína e à perdição, foram ordenados de novo a Deus, a fim de que, com sua pessoal colaboração na obra da própria santificação, fruto do sangue imaculado do Cordeiro, dessem a Deus a glória que lhe é devida.
Cf. Hb 4,14.
Hebreus 4, 14
Matos Soares: 14 Tendo nós, pois, um grande pontífice, que penetrou os céus, Jesus, Filho de Deus, sejamos firmes na profissão da nossa fé.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Tendo, pois, um grande sumo sacerdote que passou pelos céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos firmemente à nossa confissão.
Vulgata Clementina: 14 Habentes ergo pontificem magnum qui penetravit cælos, Jesum Filium Dei, teneamus confessionem.
Cf. Hb 9,14.
Hebreus 9, 14
Matos Soares: 14 quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras de morte para servir a Deus vivo!
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno ofereceu a si mesmo sem defeito a Deus, purificará a consciência de vocês das obras mortas para servir ao Deus vivo?
Vulgata Clementina: 14 quanto magis sanguis Christi, qui per Spiritum Sanctum semetipsum obtulit immaculatum Deo, emundabit conscientiam nostram ab operibus mortuis, ad serviendum Deo viventi?
2. O Divino Redentor quis, ainda, que a vida sacerdotal por ele iniciada em seu corpo mortal com as suas preces e o seu sacrifício, não cessasse no correr dos séculos no seu corpo místico, que é a Igreja; e por isso instituiu um sacerdócio visível para oferecer em toda parte a oblação pura, 4 a fim de que todos os homens, do oriente ao ocidente, libertos do pecado, por dever de consciência servissem espontânea e voluntariamente a Deus.
Cf. Ml 1,11.
Malaquias 1, 11
Matos Soares: 11 Desde o nascente ao poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome um sacrifício fumegante e uma oblação pura, porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Pois desde o nascer do sol até o seu poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todo lugar incenso será oferecido ao meu nome, e uma oferta pura; pois o meu nome é grande entre as nações”, diz o SENHOR dos Exércitos.
Vulgata Clementina: 11 Ab ortu enim solis usque ad occasum, magnum est nomen meum in gentibus, et in omni loco sacrificatur: et offertur nomini meo oblatio munda, quia magnum est nomen meum in gentibus, dicit Dominus exercituum.
3. A Igreja, pois, fiel ao mandato recebido do seu Fundador, continua o ofício sacerdotal de Jesus Cristo, sobretudo com a sagrada liturgia. E o faz em primeiro lugar no altar, onde o sacrifício da cruz é perpetuamente representado5 e renovado, com a só diferença no modo de oferecer; em seguida, com os sacramentos, que são instrumentos particulares por meio dos quais os homens participam da vida sobrenatural; enfim, com o tributo cotidiano de louvores oferecido a Deus ótimo e máximo6. “Que jubiloso espetáculo – diz o nosso predecessor de feliz memória Pio XI – oferece ao céu e à terra a Igreja que reza, enquanto continuamente dia e noite, se cantam na terra os salmos escritos por inspiração divina: nenhuma hora do dia transcorre sem a consagração de uma liturgia própria; cada etapa da vida tem seu lugar na ação de graças, nos louvores, preces e aspirações desta comum oração do corpo místico de Cristo, que é a Igreja.”7
4. Certamente conheceis, veneráveis irmãos, que, no fim do século passado e nos princípios do presente, houve singular fervor de estudos litúrgicos; já por louvável iniciativa de alguns particulares, já sobretudo pela zelosa e assídua diligência de vários mosteiros da ínclita ordem beneditina; assim que não somente em muitas regiões da Europa, mas ainda nas terras de além-mar, se desenvolveu a esse respeito uma louvável e útil emulação, cujas benéficas conseqüências foram visíveis, quer no campo das disciplinas sagradas, onde os ritos litúrgicos da Igreja oriental e ocidental foram mais ampla e profundamente estudados e conhecidos, quer na vida espiritual e íntima de muitos cristãos. As augustas cerimônias do sacrifício do altar foram mais conhecidas, compreendidas e estimadas; a participação aos sacramentos maior e mais freqüente; as orações litúrgicas mais suavemente saboreadas e o culto eucarístico tido, como verdadeiramente o é, por centro e fonte da verdadeira piedade cristã. Além disso, pôs-se em mais clara evidência o fato de que todos os fiéis constituem um só e compacto corpo de que é Cristo a cabeça, com o conseqüente dever para o povo cristão de participar, segundo a própria condição, dos ritos litúrgicos.
5. Sem dúvida, sabeis muito bem que esta Sé Apostólica sempre zelou para que o povo a ela confiado fosse educado num verdadeiro e ativo sentido litúrgico e que, com zelo não menor se tem preocupado em que os sagrados ritos brilhem até externamente por uma adequada dignidade. Nessa mesma ordem de idéias, falando, segundo o costume, aos pregadores quaresmais desta nossa excelsa cidade, em 1943, nós os havíamos calorosamente exortado a advertir os seus ouvintes que participassem, com maior empenho, do sacrifício eucarístico; e recentemente fizemos traduzir de novo em latim, do texto original, o livro dos Salmos para que as preces litúrgicas, de que são eles a parte maior na Igreja católica, fossem mais exatamente entendidas e a sua verdade e suavidade mais facilmente percebidas.8
6. Todavia, enquanto pelos salutares frutos que dele derivam, o apostolado litúrgico nos é de não pequeno conforto, o nosso dever nos impõe seguir com atenção esta “renovação” na maneira pela qual é concebida por alguns, e cuidar diligentemente para que as iniciativas não se tornem excessivas nem insuficientes.
7. Ora, se de uma parte verificamos com pesar que em algumas regiões o sentido, o conhecimento e o estudo da liturgia são às vezes escassos ou quase nulos; de outra, notamos, com muita apreensão, que há algumas pessoas muito ávidas de novidades e que se afastam do caminho da sã doutrina e da prudência. Na intenção e desejo de um renovamento litúrgico, esses inserem muitas vezes princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta santíssima causa, e freqüentemente até a contaminam de erros que atingem a fé católica e a doutrina ascética.
8. A pureza da fé e da moral deve ser a norma característica desta sagrada disciplina, que deve necessariamente conformar-se ao sapientíssimo ensinamento da Igreja. É, portanto, nosso dever louvar e aprovar tudo o que é bem feito, conter ou reprovar tudo o que se desvia do verdadeiro e justo caminho.
9. Não acreditem, pois, os inertes e os tíbios ter a nossa aprovação porque repreendemos os que erram e contemos os audazes; nem os imprudentes se tenham por louvados quando corrigimos os negligentes e os preguiçosos. Ainda que nesta nossa encíclica tratemos sobretudo da liturgia latina, não é que tenhamos em menor estima as venerandas liturgias da Igreja oriental, cujos ritos, transmitidos por nobres e antigos documentos, nos são igualmente caríssimos; mas visamos antes às condições particulares da Igreja ocidental, que são tais que reclamam a intervenção da nossa autoridade.
10. Ouçam, pois, os cristãos todos, com docilidade, a voz do Pai comum, o qual deseja ardentemente que todos, unidos a ele intimamente, se aproximem do altar de Deus, professando a mesma fé, obedecendo à mesma lei, participando do mesmo sacrifício com uma só inteligência e uma só vontade. O respeito devido a Deus o reclama; as necessidades dos tempos presentes o exigem. Após uma longa e cruel guerra que dividiu os povos com rivalidades e morticínios, os homens de boa vontade se esforçam do melhor modo possível, em reconduzir todos à concórdia. Acreditamos, todavia, que nenhum projeto e nenhuma iniciativa seja, neste caso, tão eficaz quanto um fervoroso espírito religioso e zelo ardente, do qual é necessário estejam animados e guiados todos os cristãos, a fim de que, aceitando de coração aberto as mesmas verdades e obedecendo docilmente aos legítimos pastores, no exercício do culto devido a Deus, constituam uma comunidade fraterna, porquanto, “ainda que muitos, somos um só corpo, participando todos do único pão.9
1 Cor 10,17
1 Coríntios 10, 17
Matos Soares: 17 Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos do mesmo pão.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Porque há um só pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo; pois todos participamos do mesmo pão.
Vulgata Clementina: 17 Quoniam unus panis, unum corpus multi sumus, omnes qui de uno pane participamus.
PRIMEIRA PARTE
NATUREZA, ORIGEM, PROGRESSO DA LITURGIA
I. A liturgia é culto público
11. O dever fundamental do homem é certamente este de orientar a si mesmo e a própria vida para Deus. “A ele, com efeito, devemos principalmente unir-nos como indefectível princípio, ao qual deve ainda constantemente aplicar-se a nossa escolha como ao último fim, que perdemos pecando, mesmo por negligência, e que devemos reconquistar pela fé, crendo nele”.10 Ora, o homem se volta ordinariamente para Deus quando lhe reconhece a suprema majestade e o supremo magistério, quando aceita com submissão as verdades divinamente reveladas, quando lhe observa religiosamente as leis, quando faz convergir para ele toda a sua atividade, quando – para dizer resumidamente – presta, mediante a virtude da religião, o devido culto ao único e verdadeiro Deus.
12. Esse é um dever que obriga antes de tudo os homens individualmente, mas é ainda um dever coletivo de toda a comunidade humana ordenada com recíprocos vínculos sociais, porque também ela depende da suma autoridade de Deus.
13. Note-se ainda que esse é um dever particular dos homens, porquanto Deus os elevou à ordem sobrenatural. Assim, se consideramos Deus como autor da antiga Lei, vemo-lo proclamar preceitos rituais e determinar acuradamente as normas que o povo deve observar ao render-lhe o legítimo culto. Estabeleceu, para isso, vários sacrifícios e designou várias cerimônias com que deviam realizar-se e determinou claramente o que se referia à arca da aliança, ao templo e aos dias festivos; designou a tribo sacerdotal e o sumo sacerdote, indicou e descreveu as vestes para uso dos sagrados ministros e tudo o mais que tinha relação com o culto divino.11
14. Esse culto, aliás, não era mais do que a sombra12 daquele que o sumo sacerdote do Novo Testamento havia de render ao Pai celeste.
Cf. Hb 10,1.
Hebreus 10, 1
Matos Soares: 1 Efetivamente a lei, tendo apenas a sombra dos bens futuros, não a própria realidade, nunca pode, com aquelas mesmas vítimas que se oferecem incessantemente, cada ano, tornar perfeitos os que se aproximam de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Pois a lei, tendo uma sombra dos bens vindouros, não a própria imagem das coisas, nunca pode, com os mesmos sacrifícios oferecidos continuamente ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam.
Vulgata Clementina: 1 Umbram enim habens lex futurorum bonorum, non ipsam imaginem rerum: per singulos annos, eisdem ipsis hostiis quas offerunt indesinenter, numquam potest accedentes perfectos facere:
15. De fato, apenas “o Verbo se fez carne”,13 manifesta-se ao mundo no seu ofício sacerdotal, fazendo ao Pai Eterno um ato de submissão que durará por todo o tempo de sua vida: “entrando no mundo, diz… eis que venho… para fazer, ó Deus, a tua vontade…”,14 um ato que será consumado de modo admirável no sacrifício cruento da cruz: “Pelo poder desta vontade fomos santificados por meio da oblação do corpo de Jesus Cristo feita uma só vez para sempre”.15 Toda a sua atividade entre os homens não tem outro escopo. Menino, é apresentando no templo ao Senhor; adolescente, ali volta ainda; em seguida ali vai freqüentemente para instruir o povo e para rezar. Antes de iniciar o ministério público jejua durante quarenta dias, e com seu conselho e o seu exemplo exorta todos a rezarem de dia e de noite. Como mestre de verdade, “ilumina todo homem”16 para que os mortais reconheçam convenientemente o Deus imortal, e não “se afastem para sua perdição, mas guardem a fé para salvar a sua alma”.17 Como Pastor, depois, ele governa o seu rebanho, conduzindo-o às pastagens da vida, e dá uma lei a observar, para que ninguém se afaste dele e da reta via que traçou, mas todos vivam santamente sob o seu influxo e a sua ação. Na última ceia, com rito e aparato solene, celebra a nova páscoa e provê a sua continuação mediante a divina instituição da eucaristia; no dia seguinte, elevado entre o céu e a terra, oferece o sacrifício salutar de sua vida; de seu peito rasgado faz, de certo modo, jorrar os sacramentos que distribuem às almas os tesouros da redenção. Fazendo isso, tem por único fim a glória do Pai e a crescente santificação do homem.
Jo 1,14.
João 1, 14
Matos Soares: 14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória como de Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 O Verbo se fez carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Vulgata Clementina: 14 Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis: et vidimus gloriam ejus, gloriam quasi unigeniti a Patre plenum gratiæ et veritatis.
Hb 10,5-7.
Hebreus 10, 5-7
Matos Soares: 5 Por isso (Jesus Cristo), entrando no mundo, diz: Não quiseste sacrifício nem oblação, mas formaste-me um corpo; 6 os holocaustos e os sacrifícios pelo pecado não te agradaram. 7 Então eu disse: Eis-me que venho, segundo está escrito de mim no rolo do livro, para fazer, ó Deus, a tua vontade (Ps. 39, 7-9).
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Portanto, ao entrar no mundo, ele diz: “Sacrifício e oferta não desejaste, mas preparaste um corpo para mim. 6 Não te agradaste de holocaustos e sacrifícios pelo pecado. 7 Então eu disse: ‘Eis que vim (no rolo do livro está escrito a meu respeito) para fazer a tua vontade, ó Deus.’”
Vulgata Clementina: 5 Ideo ingrediens mundum dicit: Hostiam et oblationem noluisti: corpus autem aptasti mihi: 6 holocautomata pro peccato non tibi placuerunt. 7 Tunc dixi: Ecce venio: in capite libri scriptum est de me: Ut faciam, Deus, voluntatem tuam.
Hb 10,10.
Hebreus 10, 10
Matos Soares: 10 Por esta vontade somos santificados mediante a oblação do corpo de Jesus Cristo feita uma vez.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 É por essa vontade que temos sido santificados por meio da oferta do corpo de Jesus Cristo, de uma vez por todas.
Vulgata Clementina: 10 In qua voluntate sanctificati sumus per oblationem corporis Jesu Christi semel.
Jo 1,9.
João 1, 9
Matos Soares: 9 O Verbo era a luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 A verdadeira luz, que ilumina a todos, vinha ao mundo.
Vulgata Clementina: 9 Erat lux vera, quæ illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum.
Hb 10,39.
Hebreus 10, 39
Matos Soares: 39 Nós, porém, não somos daqueles que se afastam (da fé) para sua perdição, mas daqueles que guardam a fé para salvar a sua alma.
Bíblia Portuguesa Mundial: 39 Nós, porém, não somos dos que recuam para a perdição, mas dos que têm fé para a salvação da alma.
Vulgata Clementina: 39 Nos autem non sumus subtractionis filii in perditionem, sed fidei in acquisitionem animæ.
16. Entrando, depois, na sede da beatitude celeste, quer que o culto por ele instituído e prestado durante a sua vida terrena continue ininterrupto. Já que não deixou órfão o gênero humano, mas o assiste sempre com o seu contínuo e valioso patrocínio, fazendo-se nosso advogado no céu junto do Pai,18 assim o ajuda mediante a sua Igreja, na qual está indefectivelmente presente no correr dos séculos, Igreja que constituiu coluna da verdade19 e dispensadora de graça, e que, com o sacrifício da cruz, fundou, consagrou e conformou eternamente.20
Cf. 1 Jo 2, 1.
1 João 2, 1
Matos Soares: 1 Filhinhos meus, eu vos escrevo estas coisas, para que não pequeis; mas, se algum pecar, (não desespere, pois) temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se alguém pecar, temos um Conselheiro junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo.
Vulgata Clementina: 1 Filioli mei, hæc scribo vobis, ut non peccetis. Sed et si quis peccaverit, advocatum habemus apud Patrem, Jesum Christum justum:
Cf. 1 Tm 3,15.
1 Timóteo 3, 15
Matos Soares: 15 porém, se tardar, para que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e firmamento da verdade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 mas, se eu demorar, para que você saiba como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e o fundamento da verdade.
Vulgata Clementina: 15 si autem tardavero, ut scias quomodo oporteat te in domo Dei conversari, quæ est ecclesia Dei vivi, columna et firmamentum veritatis.
17. A Igreja, portanto, tem em comum com o Verbo encarnado o escopo, o empenho e a função de ensinar a todos a verdade, reger e governar os homens, oferecer a Deus o sacrifício, aceitável e grato, e assim restabelecer entre o Criador e as criaturas aquela união e harmonia que o apóstolo das gentes claramente indica por estas palavras: “Não sois mais hóspedes ou adventícios, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, educados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, com o próprio Jesus Cristo por pedra angular, sobre a qual todo o edifício bem ordenado se levanta para ser um templo santo no Senhor, e sobre ele vós sois também juntamente edificados em morada de Deus, pelo Espírito”.21 Por isso a sociedade fundada pelo divino Redentor não tem outro fim, seja com a sua doutrina e o seu governo, seja com o sacrifício e os sacramentos por ele instituídos, seja enfim com o ministério que lhe contou, com as suas orações e o seu sangue, senão crescer e dilatar-se sempre mais – o que se dá quando Cristo é edificado e dilatado nas almas dos mortais, e quando, vice-versa, as almas dos mortais são educadas e dilatadas em Cristo; de maneira que, neste exílio terreno prospere o templo no qual a divina majestade recebe o culto grato e legítimo. Em toda ação litúrgica, junto com a Igreja está presente o seu divino Fundador: Cristo está presente no augusto sacrifício do altar, quer na pessoa do seu ministro, quer por excelência, sob as espécies eucarísticas; está presente nos sacramentos com a virtude que neles transfunde, para que sejam instrumentos eficazes de santidade; está presente, enfim, nos louvores e súplicas dirigidas a Deus, como vem escrito: “Onde estão duas ou três pessoas reunidas em meu nome aí estou no meio delas”.22 A sagrada liturgia é, portanto, o culto público que o nosso Redentor rende ao Pai como cabeça da Igreja, e é o culto que a sociedade dos fiéis rende à sua cabeça, e, por meio dela, ao Eterno Pai. É, em uma palavra, o culto integral do corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, da cabeça e de seus membros.
Ef 2,19-22.
Efésios 2, 19-22
Matos Soares: 19 Vós, pois, já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, 20 edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular, 21 sobre o qual todo o edifício (espiritual) bem ordenado se levanta para ser um templo santo no Senhor, 22 sobre o qual vós sois também juntamente edificados para morada de Deus, mediante o Espírito (Santo).
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Assim, então, vocês não são mais estrangeiros e forasteiros, mas são concidadãos dos santos e membros da família de Deus, 20 sendo edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular; 21 Nele, todo o edifício, bem ajustado, cresce para ser um templo santo no Senhor; 22 nele, vocês também estão sendo edificados juntos para habitação de Deus no Espírito.
Vulgata Clementina: 19 Ergo jam non estis hospites, et advenæ: sed estis cives sanctorum, et domestici Dei, 20 superædificati super fundamentum apostolorum, et prophetarum, ipso summo angulari lapide Christo Jesu: 21 in quo omnis ædificatio constructa crescit in templum sanctum in Domino, 22 in quo et vos coædificamini in habitaculum Dei in Spiritu.
Mt 18,20.
Mateus 18, 20
Matos Soares: 20 Porque onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no nome deles.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles.”
Vulgata Clementina: 20 Ubi enim sunt duo vel tres congregati in nomine meo, ibi sum in medio eorum.
18. A ação litúrgica inicia-se com a fundação da própria Igreja. Os primeiros cristãos, com efeito, “eram assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, e à comum fração do pão e à oração”.23 Em toda a parte onde os pastores possam reunir um núcleo de fiéis, erigem um altar sobre o qual oferecem o sacrifício, e em torno dele vêm dispostos outros ritos adaptados à santificação dos homens e à glorificação de Deus. Entre esse ritos estão, em primeiro lugar, os sacramentos, isto é, as sete principais fontes de salvação; depois, está a celebração do louvor divino, com o qual os féis reunidos obedecem à exortação do Apóstolo: “Instruindo-vos e exortando-vos uns aos outros com toda a sabedoria, cantando a Deus em vosso coração, inspirados pela graça, salmos, hinos e cânticos espirituais”;24 depois, ainda, a leitura da Lei, dos Profetas, do Evangelho e das epístolas apostólicas; e, enfim, a prática com a qual o presidente da assembléia recorda e comenta utilmente os preceitos do divino Mestre, os acontecimentos principais de sua vida, e admoesta todos os presentes com exortações oportunas e exemplos.
At 2,42.
Atos dos Apóstolos 2, 42
Matos Soares: 42 Perseveravam na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões comuns, na fracção do pão e nas orações. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
Vulgata Clementina: 42 Erant autem perseverantes in doctrina Apostolorum, et communicatione fractionis panis, et orationibus.
Cl 3,16.
Colossenses 3, 16
Matos Soares: 16 A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza. Ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com toda a sabedoria, cantai a Deus, em vossos corações, salmos, hinos e cânticos espirituais, sob a ação da graça.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês; em toda a sabedoria, ensinando e admoestando uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando com graça em seus corações ao Senhor.
Vulgata Clementina: 16 Verbum Christi habitet in vobis abundanter, in omni sapientia, docentes, et commonentes vosmetipsos, psalmis, hymnis, et canticis spiritualibus, in gratia cantantes in cordibus vestris Deo.
19. O culto se organiza e se desenvolve segundo as circunstâncias e as necessidades dos cristãos, se enriquece de novos ritos, cerimônias e fórmulas, sempre com o mesmo intento: “a fim de que sejamos estimulados por aqueles sinais… conheçamos o progresso realizado e nos sintamos solicitados a desenvolvê-lo com maior vigor; o efeito, de fato, é mais digno, se mais ardente é o afeto que o precede”.25 Assim a alma se eleva a Deus mais e melhor; assim o sacerdócio de Jesus Cristo está sempre em ato na sucessão dos tempos, não sendo a liturgia outra coisa que o exercício desse sacerdócio. Como a sua cabeça divina, assim a Igreja assiste continuamente os seus filhos, ajuda-os e exorta-os à santidade, para que, ornados com essa dignidade sobrenatural, possam um dia voltar ao Pai que está nos céus. Ela restaura para a vida celeste os nascidos à vida terrena, dá-lhes a ajuda do Espírito Santo na luta contra o inimigo implacável; chama os cristãos em torno dos altares e, com insistentes convites, exorta-os a celebrar e tomar parte no sacrifício eucarístico, e nutre-os com o pão dos anjos, para que sejam sempre mais firmes; purifica e consola aqueles que o pecado feriu e maculou; consagra com legítimo rito aqueles que, por vocação divina, são chamados ao ministério sacerdotal; revigora com graças e dons divinos o casto conúbio daqueles que são destinados a fundar e constituir a família cristã; depois de ter confortado e restaurado com o viático eucarístico e a sagrada unção as últimas horas da vida terrena, acompanha ao túmulo com suma piedade os despojos dos seus filhos, dispondo-os religiosamente, protegendo-os ao abrigo da cruz, para que possam um dia ressurgir triunfando da morte; abençoa com particular solenidade quantos dedicam a sua vida ao serviço divino na consecução da perfeição religiosa; estende a sua mão caridosa às almas que, nas chamas da purificação, imploram preces e sufrágios, para conduzi-las finalmente à eterna beatitude.
II. A liturgia é culto externo e interno
20. Todo o conjunto do culto que a Igreja rende a Deus deve ser interno e externo. É externo porque o exige a natureza do homem composto de corpo e alma; porque Deus dispõe que “pelo conhecimento das coisas visíveis sejamos atraídos ao amor das invisíveis”; 26 porque tudo o que vem da alma é naturalmente expresso pelos sentidos; e ainda porque o culto divino pertence não somente ao particular mas também à coletividade humana e conseqüentemente é necessário que seja social, o que é impossível, no âmbito religioso, sem vínculos e manifestações exteriores; e, enfim, porque é um meio que põe particularmente em evidência a unidade do corpo místico, acrescenta-lhe santos entusiasmos, consolida-lhe as forças, intensifica-lhe a ação: “se bem que, com efeito, as cerimônias, em si mesmas, não contenham nenhuma perfeição e santidade, são todavia atos externos de religião que, como sinais, estimulam a alma à veneração das coisas sagradas, elevam a mente à realidade sobrenatural, nutrem a piedade, fomentam a caridade, aumentam a fé, robustecem a devoção, instruem os simples, ornam o culto de Deus, conservam a religião e distinguem os verdadeiros dos falsos cristãos e dos heterodoxos.27
21. Mas o elemento essencial do culto deve ser o interno. É necessário, com efeito, viver sempre em Cristo, dedicar-se todo a ele, a fim de que nele, com ele e por ele, se dê glória ao Pai. A sagrada liturgia requer que estes dois elementos estejam intimamente ligados; o que ela não se cansa jamais de repetir toda vez que prescreve um ato externo de culto. Assim, por exemplo, a propósito do jejum, nos exorta: “a fim de que se opere de fato em nosso íntimo o que a nossa observância professa externamente”.28 De outro modo, a religião se torna um formalismo sem fundamento e sem conteúdo. Sabeis, veneráveis irmãos, que o divino Mestre considera indignos do templo sagrado e expulsa dele os que crêem honrar a Deus somente com o som de bem construídas palavras e com atitudes teatrais e estão persuadidos de poder prover de modo adequado à sua salvação sem arrancar da alma os vícios inveterados”.29 A Igreja, portanto, quer que todos os fiéis se prostrem aos pés do Redentor para professar-lhe o seu amor e a sua veneração; quer que as multidões, como as crianças que andaram ao encontro de Cristo quando entrava em Jerusalém com alegres aclamações, acompanhem o Rei dos reis e o sumo autor de todos os benefícios, aclamando-o com o canto de glória e de agradecimento; quer que haja orações em seus lábios, ora súplices, ora alegres e agradecidas, com as quais, como os apóstolos junto ao lago de Tiberíades, possam experimentar o auxílio de sua misericórdia e de seu poder; ou como Pedro, no monte Tabor, a Deus se abandonem e a todas as suas coisas nos místicos transportes da contemplação.
Cf. Mc 7,6 e Is 29,13.
Marcos 7, 6
Matos Soares: 6 Ele respondeu-lhes: “Com razão Isaías profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu (Is. 29, 13): Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 Ele lhes respondeu: “Isaías profetizou muito bem a respeito de vocês, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
Vulgata Clementina: 6 At ille respondens, dixit eis: Bene prophetavit Isaias de vobis hypocritis, sicut scriptum est: Populus hic labiis me honorat, cor autem eorum longe est a me:
Isaías 29, 13
Matos Soares: 13 O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim (só) com a sua boca, (só) com os seus lábios me glorifica, enquanto que o seu coração está longe de mim, visto que me presta culto segundo ritos e ensinamentos humanos, (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 O Senhor disse: “Visto que este povo se aproxima com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas afastou o seu coração para longe de mim, e o seu temor para comigo é um mandamento de homens que lhes foi ensinado;
Vulgata Clementina: 13 Et dixit Dominus: Eo quod appropinquat populus iste ore suo, et labiis suis glorificat me, cor autem ejus longe est a me, et timuerunt me mandato hominum et doctrinis,
22. Não têm, pois, noção exata da sagrada liturgia aqueles que a consideram como parte somente externa e sensível do culto divino ou como cerimonial decorativo; nem se enganam menos aqueles que a consideram como mero conjunto de leis e preceitos com que a hierarquia eclesiástica ordena a realização dos ritos.
23. Deve, portanto, ser bem conhecido de todos que não se pode honrar dignamente a Deus, se a alma não cuida de conseguir a perfeição da vida, e que o culto rendido a Deus pela Igreja em união com a sua Cabeça divina tem a eficácia suprema de santificação.
24. Essa eficácia, se se trata do sacrifício eucarístico e dos sacramentos, provém antes de tudo do valor da ação em si mesma (ex opere operato); se se considera ainda a atividade própria da imaculada esposa de Jesus Cristo com a qual orna de orações e de sacras cerimônias o sacrifício eucarístico e os sacramentos, ou, se se trata dos sacramentais e de outros ritos instituídos pela hierarquia eclesiástica, então a eficácia deriva principalmente da ação da Igreja (ex opere operantis Ecclesiae), enquanto esta é santa e opera sempre em íntima união com a sua Cabeça.
25. A esse propósito, veneráveis irmãos, desejamos que volvais a vossa atenção às novas teorias sobre “piedade objetiva” segundo as quais, esforçando-se para pôr em evidência o mistério do corpo místico, a realidade efetiva da graça santificante e a ação divina dos sacramentos e do sacrifício eucarístico, se pretenderia descuidar ou diminuir a “piedade subjetiva” ou pessoal.
26. Nas celebrações litúrgicas e, em particular, no augusto sacrifício do altar, continua-se, sem dúvida, a obra da nossa redenção, cujos frutos nos são aplicados. Cristo realiza a nossa salvação cada dia nos sacramentos e no seu sacrifício e, por meio deles, purifica continuamente e consagra a Deus o gênero humano. Têm, portanto, uma virtude objetiva, com a qual, de fato, fazem nossas almas participantes da vida divina de Jesus Cristo. Eles, pois, têm não por nossa, mas por divina virtude, a eficácia de reunir a piedade dos membros com a piedade da Cabeça e torná-la, de certo modo, uma ação de toda a comunidade. Desses profundos argumentos alguns concluem que toda a piedade cristã deve concentrar-se no mistério do corpo místico de Cristo, sem nenhuma consideração pessoal e subjetiva, e por isso acreditam que se deva descuidar das outras práticas religiosas não estritamente litúrgicas e realizadas fora do culto público.
27. Todos, no entanto, podem verificar que essas conclusões acerca das duas espécies de piedade, ainda que os princípios acima expostos sejam ótimos, são completamente falsas, insidiosas e perniciosíssimas.
28. É verdade que os sacramentos e o sacrifício do altar têm uma intrínseca virtude enquanto são ações do próprio Cristo que comunica e difunde a graça da Cabeça divina nos membros do corpo místico; mas, para terem a devida eficácia, exigem as boas disposições da nossa alma; como, a propósito da eucaristia, são Paulo admoesta: “cada um examine a si mesmo e coma deste pão e beba do cálice”.30 Por isso mesmo, a Igreja define com brevidade e clareza todos os exercícios com os quais a nossa alma se purifica, especialmente durante a quaresma: “fortalezas da milícia cristã”; 31 são, com efeito, as ações dos membros que, com o auxílio da graça, desejam aderir à sua Cabeça a fim de que “nos seja manifesta – para repetir as palavras de santo Agostinho – na nossa Cabeça a própria fonte da graça”.32 Mas deve-se notar que estes membros são vivos, providos de razão e de vontade própria; por isso é necessário que eles, encostando os lábios à fonte, retirem e assimilem o alimento vital e removam tudo o que lhe pode impedir a eficácia. Devemos, pois, afirmar que a obra da redenção, independente em si mesma da nossa vontade, requer o esforço íntimo da nossa alma para que possamos conseguir a eterna salvação.
1 Cor 11, 28.
1 Coríntios 11, 28
Matos Soares: 28 Examine-se, pois, a si mesmo cada um, e assim coma deste pão e beba deste cálice,
Bíblia Portuguesa Mundial: 28 Mas cada um examine a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.
Vulgata Clementina: 28 Probet autem seipsum homo: et sic de pane illo edat, et de calice bibat.
29. Se a piedade privada e interna dos particulares se descuidasse do augusto sacrifício do altar e dos sacramentos, e se subtraísse ao influxo salvador que emana da Cabeça nos membros, seria, sem dúvida, reprovável e estéril; mas quando todas as providências e os exercícios de piedade não estritamente litúrgicos fixam o olhar da alma sobre atos humanos unicamente para endereçá-los ao Pai que está nos céus; para estimular salutarmente os homens à penitência e ao temor de Deus e arrancá-los da atração do mundo e dos vícios, para conduzi-los felizmente por árduo caminho ao vértice da santidade, então, não apenas são sumamente louváveis, mas necessários, porque descobrem os perigos da vida espiritual, estimulam-nos à aquisição da virtude e aumentam o fervor com o qual nos devemos dedicar todos ao serviço de Jesus Cristo. A genuína piedade que o Angélico chama “devoção” e que é o ato principal da virtude da religião com o qual os homens se ordenam retamente, se orientam oportunamente para Deus e livremente se consagram ao culto,33 têm necessidade da meditação das realidades sobrenaturais e das práticas espirituais para que se alimente, estimule e fortifique e nos anime à perfeição. É que a religião cristã devidamente praticada requer, sobretudo, que a vontade se consagre a Deus e influa sobre as outras faculdades da alma. Mas todo ato da vontade pressupõe o exercício da inteligência e, antes que se conceba o desejo e o propósito de dar-se a Deus por meio do sacrifício, é absolutamente necessário o conhecimento dos argumentos e dos motivos que levam à religião, como, por exemplo, o fim último do homem e a grandeza da divina Majestade, o dever de obediência ao Criador, os tesouros inexauríveis do amor com o qual ele nos quis enriquecer, a necessidade da graça para alcançar a meta assinalada, e o caminho particular que a divina Providência nos preparou unindo-nos todos, como membros de um corpo, a Jesus Cristo Cabeça. E já que nem sempre os motivos do amor dominam a alma agitada pelas paixões, é muito oportuno que nos impressione ainda a consideração salutar da divina justiça para levar-nos à humildade cristã, à penitência e à emenda.
30. Todas estas considerações não devem ser uma vazia e abstrata lembrança, mas devem visar efetivamente a submeter os nossos sentidos e as suas faculdades à razão iluminada pela fé, a purificar a alma que se une cada dia mais intimamente a Cristo e sempre mais a ele se conforma e dele recebe a inspiração e a força divina de que tem necessidade; e para que sejam aos homens estímulo sempre mais eficaz ao bem, à fidelidade ao próprio dever, à prática da religião, ao fervoroso exercício da virtude, é necessário ter presente este ensinamento: “Sois de Cristo e Cristo é de Deus”.34 Tudo, pois, seja orgânico e teocêntrico se queremos que tudo seja em verdade endereçado à glória de Deus pela vida e pela virtude que nos vêm da nossa Cabeça divina: “tendo, pois, confiança de entrar no santo dos santos pelo sangue de Cristo, pelo novo e vivo caminho que ele inaugurou para nós através da sua carne, e tendo um grande sacerdote que preside à casa de Deus, aproximemo-nos com um coração sincero, com plenitude de fé, alma purificada da consciência de culpa, lavado o corpo com água limpa, apeguemo-nos firmes à profissão da nossa esperança… e sejamos solícitos uns para com os outros, para nos estimularmos à caridade e às boas obras”. 35
Cf. 1 Cor 3,23.
1 Coríntios 3, 23
Matos Soares: 23 mas vós (sois) de Cristo, e Cristo de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 23 e vocês são de Cristo, e Cristo é de Deus.
Vulgata Clementina: 23 vos autem Christi: Christus autem Dei.
Hb 10,19-24.
Hebreus 10, 19-24
Matos Soares: 19 Portanto, irmãos, tendo nós confiança de entrar no santuário (no céu) pelo sangue de Cristo, 20 pelo caminho novo e vivo que nos abriu através do véu, isto é através da sua carne, (ver nota) 21 e tendo um pontífice que preside à casa de Deus, 22 aproximemo-nos (de Deus) com um coração sincero, com plenitude de fé, purificados os corações de todo o mal de que tivermos consciência, e lavado o corpo com uma água limpa (do batismo). (ver nota) 23 Conservemos firme a profissão da nossa esperança, porque é fiel o que fez a promessa, 24 e sejamos solícitos uns para com os outros, para nos estimularmos à caridade e às boas obras,
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Tendo, portanto, irmãos, ousadia para entrar no Santuário pelo sangue de Jesus, 20 pelo caminho que ele inaugurou para nós, um caminho novo e vivo, pelo véu, isto é, a sua carne, 21 e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, 22 aproximemo-nos com coração sincero, em plena certeza de fé, tendo o coração aspergido, livre de uma consciência má, e o corpo lavado com água pura, 23 retenhamos firme a confissão da nossa esperança sem vacilar; pois aquele que prometeu é fiel. 24 Pensemos em como incentivar uns aos outros ao amor e às boas obras,
Vulgata Clementina: 19 Habentes itaque, fratres, fiduciam in introitu sanctorum in sanguine Christi, 20 quam initiavit nobis viam novam, et viventem per velamen, id est, carnem suam, 21 et sacerdotem magnum super domum Dei: 22 accedamus cum vero corde in plenitudine fidei, aspersi corda a conscientia mala, et abluti corpus aqua munda, 23 teneamus spei nostræ confessionem indeclinabilem (fidelis enim est qui repromisit), 24 et consideremus invicem in provocationem caritatis, et bonorum operum:
31. Disso deriva o harmonioso equilíbrio dos membros do corpo místico de Jesus Cristo. Com o ensino da fé católica, com a exortação à observância dos preceitos cristãos, a Igreja prepara o caminho à sua ação propriamente sacerdotal e santificadora; dispõe-nos a uma contemplação mais íntima da vida do divino Redentor e nos conduz a uma consciência mais profunda dos mistérios da fé para que recebamos o alimento sobrenatural e a força para seguro progresso na vida perfeita por meio de Jesus Cristo. Não somente pelas obras de seus ministros mas ainda pelas obras dos fiéis particulares imbuídos do espírito de Jesus Cristo, a Igreja se esforça em fazer penetrar esse mesmo espírito na vida e na atividade privada, familiar, social, e até econômica e política dos homens, para que todos os que são chamados filhos de Deus possam mais facilmente conseguir o seu próprio fim.
32. Dessa maneira a ação particular e o esforço ascético dirigido à purificação da alma estimulam as energias dos fiéis e os preparam a participar com melhores disposições do augusto sacrifício do altar e a receber os sacramentos com maior fruto, e a celebrar os sagrados ritos, de modo a torná-los mais animados e formados para a oração e para a abnegação cristã para cooperar ativamente nas inspirações e nos convites da graça, para imitar cada dia mais a virtude do Redentor, não somente para vantagem própria mas ainda para a vantagem de todo o corpo da Igreja, no qual todo o bem que se cumpre provém da virtude da Cabeça e redunda em benefício dos membros.
33. Por isso na vida espiritual nenhuma oposição ou repugnância pode haver entre a ação divina que infunde a graça nas almas para continuar a nossa redenção e a operosa colaboração do homem que não deve tornar vão o dom de Deus; 36 entre a eficácia do rito externo dos sacramentos que provém do seu intrínseco valor (ex opere operato), e o mérito de quem os administra ou recebe (opus operantis); entre as orações privadas e as preces públicas; entre a ética e a contemplação; entre a vida ascética e a piedade litúrgica; entre o poder de jurisdição e de legítimo magistério e o poder eminentemente sacerdotal que se exercita no próprio sagrado ministério.
Cf. 2 Cor 6,1.
2 Coríntios 6, 1
Matos Soares: 1 Ora, sendo nós cooperadores (de Cristo), vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Trabalhando juntos, também suplicamos que vocês não recebam a graça de Deus em vão.
Vulgata Clementina: 1 Adjuvantes autem exhortamur ne in vacuum gratiam Dei recipiatis.
34. Por graves motivos a Igreja prescreve aos ministros do altar e aos religiosos, precisamente porque são destinados de modo particular a realizar as funções litúrgicas do sacrifício e do louvor divino, que, nos tempos estabelecidos, atendam à meditação piedosa, ao exame diligente e à emenda da consciência e aos outros exercícios espirituais.37 Sem dúvida, a prece litúrgica, sendo pública oração da ínclita esposa de Jesus Cristo, tem maior dignidade do que a das orações privadas; mas esta superioridade não quer dizer que entre estes dois gêneros de oração haja contraste ou oposição. Ambas as duas se fundem e se harmonizam porque animadas de um único espírito: “tudo e em todos, Cristo” 38 e tendem ao mesmo fim: até que Cristo seja formado em nós.39
Col 3,11.
Colossenses 3, 11
Matos Soares: 11 onde não há (diferença de) Grego e Judeu, circuncidado e incircuncidado, bárbaro e Scita, servo e livre, não há senão Cristo que é tudo em todos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 onde não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos.
Vulgata Clementina: 11 ubi non est gentilis et Judæus, circumcisio et præputium, Barbarus et Scytha, servus et liber: sed omnia, et in omnibus Christus.
Cf. Gl 4,19.
Gálatas 4, 19
Matos Soares: 19 Filhinhos meus — por quem eu sinto de novo as dores do parto, até que Jesus Cristo se forme em vós — (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Meus filhinhos, por quem sofro novamente as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês—
Vulgata Clementina: 19 Filioli mei, quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis:
III. A liturgia é regulada pela hierarquia eclesiástica
35. Para melhor compreender, ainda, a sagrada liturgia é necessário considerar outro seu caráter importante.
A Igreja é uma sociedade; exige, por isso, uma autoridade e hierarquia próprias. Se todos os membros do corpo místico participam dos mesmos bens e tendem aos mesmos uns, nem todos gozam do mesmo poder e são habilitados a cumprir as mesmas ações. O divino Redentor estabeleceu, com efeito, o seu reino sob fundamentos da ordem sagrada, que é reflexo da hierarquia celeste. Somente aos apóstolos e àqueles que, depois deles, receberam dos seus sucessores a imposição das mãos, é conferido o poder sacerdotal em virtude do qual, como representam diante do povo que lhes foi confiado a pessoa de Jesus Cristo, assim representam o povo diante de Deus. Esse sacerdócio não vem transmitido nem por herança, nem por descendência carnal, nem resulta da emanação da comunidade cristã ou de delegação popular. Antes de representar o povo, perante Deus, o sacerdote representa o divino Redentor, e porque Jesus Cristo é a cabeça daquele corpo do qual os cristãos são membros, ele representa Deus junto do povo. O poder que lhe foi conferido não tem, pois, nada de humano em sua natureza; é sobrenatural e vem de Deus: “assim como o Pai me enviou, assim eu vos envio:..’ ;40”quem vos ouve, a mim ouve…“; 41”percorrendo todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura; quem crer e for batizado, será salvo”.42
Jo 20,21.
João 20, 21
Matos Soares: 21 Ele disse-lhes novamente: “A paz seja convosco. Assim como o Pai me enviou, também vos envio a vós.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 21 Jesus, pois, lhes disse novamente: “Paz seja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também os envio.”
Vulgata Clementina: 21 Dixit ergo eis iterum: Pax vobis. Sicut misit me Pater, et ego mitto vos.
Lc 10, 16
Lucas 10, 16
Matos Soares: 16 O que vos ouve, a mim ouve, o que vos rejeita, a mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Quem ouve vocês ouve a mim; quem rejeita vocês rejeita a mim. Quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.”
Vulgata Clementina: 16 Qui vos audit, me audit: et qui vos spernit, me spernit. Qui autem me spernit, spernit eum qui misit me.
Mc 16,15-16.
Marcos 16, 15-16
Matos Soares: 15 Disse-lhes: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 O que crer e for batizado, será salvo; o que, porém, não crer, será condenado. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Ele lhes disse: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda a criação. 16 Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.
Vulgata Clementina: 15 Et dixit eis: Euntes in mundum universum prædicate Evangelium omni creaturæ. 16 Qui crediderit, et baptizatus fuerit, salvus erit: qui vero non crediderit, condemnabitur.
37. Por isso o sacerdócio externo e visível de Jesus Cristo se transmite na Igreja não de modo universal, genérico e indeterminado, mas é conferido a indivíduos eleitos, com a geração espiritual da ordem, um dos sete sacramentos, o qual não somente confere uma graça particular, própria deste estado e deste ofício, mas ainda um caráter indelével que configura os ministros sagrados a Jesus Cristo sacerdote, demonstrando-os capazes de cumprir aqueles atos legítimos de religião com os quais os homens são santificados e Deus é glorificado, segundo as exigências da economia sobrenatural.
38. Com efeito, como o lavacro do batismo distingue os cristãos e os separa dos outros que não foram lavados na água purificadora e não são membros de Cristo, assim o sacramento da ordem distingue os sacerdotes de todos os outros cristãos não consagrados, porque somente eles, por vocação sobrenatural, foram introduzidos no augusto ministério que os destina aos sagrados altares e os constituem instrumentos divinos por meio dos quais se participa da vida sobrenatural com o corpo místico de Jesus Cristo. Além disso, como já dissemos, somente estes são marcados com caráter indelével que os configura ao sacerdócio de Cristo e somente as suas mãos são consagradas “para que seja abençoado tudo o que abençoam e tudo o que consagram seja consagrado e santificado em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.43 Aos sacerdotes, pois, deve recorrer quem quer que deseje viver em Cristo, a fim de receber deles o conforto, o alimento da vida espiritual, o remédio salutar que o curará e o fortificará para que possa felizmente ressurgir da perdição e do abismo dos vícios; deles, enfim, receberá a bênção que consagra a família e por eles o último suspiro da vida mortal será dirigido ao ingresso na beatitude eterna.
39. Já que a sagrada liturgia é exercida sobretudo pelos sacerdotes em nome da Igreja, a sua organização, o seu regulamento e a sua forma não podem depender senão da autoridade da Igreja. Esta é não somente uma conseqüência da natureza mesma do culto cristão, mas é ainda confirmada pelo testemunho da história.
40. Esse direito inconcusso da hierarquia eclesiástica é provado ainda pelo fato de ter a sagrada liturgia estreita ligação com aqueles princípios doutrinários que a Igreja propõe como fazendo parte de verdades certíssimas, e por isso deve conformar-se aos ditames da fé católica proclamados pela autoridade do supremo magistério para proteger a integridade da religião revelada por Deus.
41. A esse propósito, veneráveis irmãos, fazemos questão de pôr em sua justa luz uma coisa que pensamos não ignorais, isto é, o erro daqueles que pretenderam que a sagrada liturgia fosse como uma experimentação do dogma, de modo que, se uma destas verdades tivesse, através dos ritos da sagrada liturgia, trazido frutos de piedade e de santidade, a Igreja deveria aprová-la, e repudiá-la em caso contrário. Donde o princípio: “a lei da oração é lei da fé”.
42. Não é, porém, assim que ensina e manda a Igreja. O culto que ela rende a Deus é, como de modo breve e claro diz santo Agostinho, uma contínua profissão de fé católica, e um exercício da esperança e da caridade: “a Deus se deve honrar com a fé, a esperança e a caridade”.44 Na sagrada liturgia fazemos explícita profissão de fé não somente com a celebração dos divinos mistérios, com o cumprimento do sacrifício e a administração dos sacramentos, mas ainda recitando e cantando o Símbolo da fé, que é como o distintivo e a téssera dos cristãos, com a leitura de outros documentos e das sagradas letras escritas por inspiração do Espírito Santo. Toda a liturgia tem, pois, um conteúdo de fé católica enquanto atesta publicamente a fé da Igreja.
43. Por esse motivo, sempre que se tratou de definir um dogma, os sumos pontífices e os concílios, abeberando-se das chamadas “fontes teológicas”, não raramente tiraram argumentos também dessa sagrada disciplina, como fez, por exemplo, o nosso predecessor de imortal memória Pio IX quando definiu a imaculada conceição de Maria virgem. Do mesmo modo, a Igreja e os santos padres, quando se discutia uma verdade controversa ou posta em dúvida, não deixaram de pedir luz também aos ritos veneráveis transmitidos pela antiguidade. Assim se tornou conhecida e venerada a sentença: “A lei da oração estabeleça a lei da fé”.45 A liturgia, portanto, não determina nem constitui em sentido absoluto e por virtude própria a fé católica, mas antes, sendo ainda uma profissão da verdade celeste, profissão dependente do supremo magistério da Igreja, pode fornecer argumentos e testemunhos de não pouco valor para esclarecer um ponto particular da doutrina cristã. Se queremos distinguir e determinar, de modo geral e absoluto, as relações que intercorrem entre fé e liturgia, podemos afirmar com razão que “a lei da fé deve estabelecer a lei da oração”. O mesmo deve dizer-se ainda quando se trata das outras virtudes teológicas: “na… fé, na esperança e na caridade oramos sempre com desejo contínuo”46.
IV. Progresso e desenvolvimento da liturgia
44. A hierarquia eclesiástica tem usado sempre desse seu direito em matéria litúrgica, preparando e ordenando o culto divino e enriquecendo-o sempre de novo esplendor e decoro para glória de Deus e vantagem dos féis. Não duvidou, além disto – salva a substância do sacrifício eucarístico e dos sacramentos – em mudar aquilo que não julgava adaptado, em acrescentar o que parecia contribuir melhor para a glória de Jesus Cristo e da augusta Trindade, para instrução e estímulo salutar do povo cristão.47
45. A sagrada liturgia, com efeito, consta de elementos humanos e de elementos divinos. Esses, tendo sido instituídos pelo divino Redentor, não podem, evidentemente, ser mudados pelos homens; aqueles, ao contrário, podem sofrer várias modificações, aprovadas pela hierarquia sagrada, assistida do Espírito Santo, segundo as exigências dos tempos, das coisas e das almas. Disso se origina a estupenda variedade dos ritos orientais e ocidentais; o desenvolvimento progressivo de hábitos particulares religiosos e práticas de piedade inicialmente apenas acenadas; disso advém que muitas vezes são repristinadas e renovadas pias instituições obliteradas pelo tempo. Tudo isso testemunha a vida da intemerata esposa de Jesus Cristo durante tantos séculos; exprime a linguagem usada por ela para manifestar ao Esposo divino a fé e o amor inexauríveis dela e das gentes que lhe foram confiadas; demonstra a sua sábia pedagogia para estimular e incrementar nos crentes “o sentido de Cristo”.
46. Em verdade, não poucas são as causas pelas quais se explica e desenvolve o progresso da sagrada liturgia durante a longa e gloriosa história da Igreja.
Assim, por exemplo, uma formação mais certa e ampla da doutrina católica sobre a encarnação do Verbo de Deus, sobre os sacramentos, sobre o sacrifício eucarístico, e sobre a virgem Maria Mãe de Deus, contribuiu para a adoção de novos ritos, por meio dos quais a luz, mais esplendidamente brilhante na declaração do magistério eclesiástico, veio a refletir melhor e mais claramente nas ações litúrgicas para unir-se com maior facilidade à mente e ao coração do povo cristão
47. O ulterior desenvolvimento da disciplina eclesiástica na administração dos sacramentos, por exemplo, do sacramento da penitência, a instituição e depois o desaparecimento do catecumenato, a comunhão eucarística sob uma só espécie na Igreja latina, contribuíram não pouco para a modificação dos antigos ritos e a gradual adoção de novos e mais condizentes com as disposições disciplinares mudadas.
48. Para essa evolução e para essas mudanças contribuíram notavelmente as iniciativas e as práticas piedosas não estritamente ligadas à sagrada liturgia, nascidas em épocas sucessivas por admirável disposição de Deus e assim difundidas no povo, como, por exemplo, o culto mais amplo e mais fervoroso da divina eucaristia, da acerbíssima paixão do nosso Redentor, do sacratíssimo coração de Jesus, da virgem Mãe de Deus e do seu puríssimo esposo.
48. Entre as circunstâncias exteriores, tiveram a sua parte as peregrinações públicas de devoção aos sepulcros dos mártires, a observância de jejuns particulares instituídos para o mesmo fim, as procissões estacionais de penitência que se celebravam nesta excelsa cidade e às quais, não raro, comparecia o próprio sumo pontífice.
50. Também facilmente se compreende como o progresso das belas artes, especialmente da arquitetura, da pintura e da música tenham influído não pouco sobre a determinação e a diversa conformação dos elementos exteriores da sagrada liturgia.
51. Do mesmo direito seu em matéria litúrgica serviu-se a Igreja para tutelar a santidade do culto contra os abusos temerariamente introduzidos por indivíduos e por Igrejas particulares. Assim aconteceu que nosso predecessor de imortal memória, Sixto V, vendo multiplicar-se os usos e costumes deste gênero durante o século XVI e as iniciativas privadas porem em perigo a integridade da fé e da piedade, com grande vantagem dos hereges e da propaganda do seu erro, instituiu em 1588, para defender os legítimos ritos da Igreja e impedir as infiltrações espúrias, a Congregação dos ritos,48 órgão a que compete ainda hoje ordenar e prescrever, com cuidado vigilante, tudo o que diz respeito à sagrada liturgia.49
V. Tal progresso não pode ser deixado ao arbítrio dos particulares
52. Por isso, somente o sumo pontífice tem o direito de reconhecer e estabelecer quaisquer praxes do culto, de introduzir e aprovar novos ritos, e mudar aqueles que julgar devem ser mudados;50 os bispos têm o direito e o dever de vigiar diligentemente para que as prescrições dos sagrados cânones relativamente ao culto divino sejam pontualmente observadas.51 Não é possível deixar ao arbítrio dos particulares, ainda que sejam membros do clero, as coisas santas e venerandas relativas à vida religiosa da comunidade cristã, ao exercício do sacerdócio de Jesus Cristo e ao culto divino, à honra que se deve à santíssima Trindade, ao Verbo encarnado, à sua augusta Mãe e aos outros santo, e à salvação dos homens; pelo mesmo motivo a ninguém é permitido regular neste campo ações externas que têm nexo íntimo com a disciplina eclesiástica, com a ordem, a unidade, a concórdia do corpo místico e, não raro, com a própria integridade da fé católica. Certamente, a Igreja é um organismo vivo e, por isso, ainda no que diz respeito à sagrada liturgia, firme a integridade de seu ensinamento, cresce e se desenvolve, adaptando-se e conformando-se às circunstâncias e às exigências que se verificam no correr dos tempos; deve-se, todavia, reprovar severamente a temerária audácia daqueles que introduzem de propósito novos costumes litúrgicos ou fazem reviver ritos já caídos em desuso e que não concordam com as leis e as rubricas vigentes. Assim, não sem grande pesar, sabemos que isso acontece não somente em coisas de pouca monta, mas ainda de gravíssima importância; não falta, com efeito, quem use a língua vulgar na celebração do sacrifício eucarístico, quem transfira para outros tempos festas fixadas já por razões ponderáveis; quem exclua dos legítimos livros da oração pública os escritos sagrados do Antigo Testamento, reputando-os pouco adaptados e pouco oportunos para os nossos tempos.
53. O uso da língua latina vigente em grande parte da Igreja, é um caro e nobre sinal de unidade e um eficaz remédio contra toda corruptela da pura doutrina. Em muitos ritos o uso da língua vulgar pode ser assaz útil para o povo, mas somente a Sé Apostólica tem o poder de concedê-lo, e por isso, neste campo, nada é lícito fazer sem o seu juízo e a sua aprovação, porque, como havíamos dito, a regulamentação da sagrada liturgia é de sua exclusiva competência.
54. Do mesmo modo se devem julgar os esforços de alguns para revigorar certos antigos ritos e cerimônias. A liturgia da época antiga é, sem dúvida, digna de veneração, mas o uso antigo não é, por motivo somente de sua antiguidade, o melhor, seja em si mesmo, seja em relação aos tempos posteriores e às novas condições verificadas. Os ritos litúrgicos mais recentes também são respeitáveis, pois que foram estabelecidos por influxo do Espírito Santo que está com a Igreja até à consumação dos séculos, 52 e são meios dos quais se serve a ínclita esposa de Jesus Cristo para estimular e conseguir a santidade dos homens.
Cf. Mt 28,20.
Mateus 28, 20
Matos Soares: 20 ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 ensinando-os a guardar todas as coisas que eu lhes ordenei. Eis que estou com vocês sempre, até o fim dos tempos.” Amém.
Vulgata Clementina: 20 docentes eos servare omnia quæcumque mandavi vobis: et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus, usque ad consummationem sæculi.
55. É certamente coisa sábia e muito louvável retornar com a inteligência e com a alma às fontes da sagrada liturgia, porque o seu estudo, reportando-se às origens, auxilia não pouco a compreender o significado das festas e a penetrar com maior profundidade e agudeza o sentido das cerimônias, mas não é certamente coisa tão sábia e louvável reduzir tudo e de qualquer modo ao antigo. Assim, para dar um exemplo, está fora do caminho quem quer restituir ao altar a antiga forma de mesa; quem quer eliminar dos paramentos litúrgicos a cor negra; quem quer excluir dos templos as imagens e as estátuas sagradas; quem quer suprimir na representação do Redentor crucificado as dores acérrimas por ele sofridas; quem repudia e reprova o canto polifônico, ainda quando conforme às normas emanadas da santa sé.
56. Como, em verdade, nenhum católico fiel pode rejeitar as fórmulas da doutrina cristã compostas e decretadas com grande vantagem em época mais recente da Igreja, inspirada e dirigida pelo Espírito Santo, para voltar às antigas fórmulas dos primeiros concílios, ou repudiar as leis vigentes para voltar às prescrições das antigas fontes do direito canônico; assim, quando se trata da sagrada liturgia, não estaria animado de zelo reto e inteligente aquele que quisesse voltar aos antigos ritos e usos, recusando as recentes normas introduzidas por disposição da divina Providência e por mudança de circunstâncias.
57. Este modo de pensar e de proceder, com efeito, faz reviver o excessivo e insano arqueologismo suscitado pelo ilegítimo concílio de Pistóia, e se esforça em revigorar os múltiplos erros que foram as bases daquele conciliábulo e os que se lhe seguiram com grande dano das almas, e que a Igreja – guarda vigilante do “depósito da fé” confïado pelo seu divino Fundador – condenou com todo o direito.53 De fato, deploráveis propósitos e iniciativas tendem a paralisar a ação santificadora com a qual a sagrada liturgia orienta salutarmente ao Pai celeste os filhos de adoção.
58. Tudo, pois, seja feito em indispensável união com a hierarquia eclesiástica. Ninguém se arrogue o direito de ser lei para si mesmo e de impô-la aos outros por sua vontade. Somente o sumo pontífice, na qualidade de sucessor de Pedro, ao qual o divino Redentor confiou o rebanho universal, 54 e juntamente os bispos, que sob a dependência da Sé Apostólica “o Espírito Santo colocou para reger a Igreja de Deus”,55 têm o direito e o dever de governar o povo cristão. Por isso, veneráveis irmãos, toda vez que defendeis a vossa autoridade – oportunamente, ainda que com severidade salutar não somente cumpris o vosso dever, mas defendeis a própria vontade do Fundador da Igreja.
Cf. Jo 21,15-17.
João 21, 15-17
Matos Soares: 15 Tendo eles jantado, disse Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta os meus cordeiros.” (ver nota) 16 Disse-lhe outra vez; “Simão, filho de João, amas-me?” Ele disse-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.” 17 Disse-lhe pela terceira vez: “Simão, filho de João, amas-me?” Ficou Pedro triste, porque, pela terceira vez, lhe disse: “Amas-me?” E disse-lhe: “Senhor, tu conheces tudo; sabes que eu te amo.” Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Então, quando terminaram de tomar o café da manhã, Jesus disse a Simão Pedro: “Simão, filho de Jonas, você me ama mais do que estes?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Alimente os meus cordeiros.” 16 Ele lhe disse novamente, pela segunda vez: “Simão, filho de Jonas, você me ama?” Ele lhe disse: “Sim, Senhor; tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Ele lhe disse: “Pastoreie as minhas ovelhas.” 17 Ele lhe disse pela terceira vez: “Simão, filho de Jonas, você tem carinho por mim?” Pedro entristeceu-se porque ele lhe perguntou pela terceira vez: “Você tem carinho por mim?” Ele lhe disse: “Senhor, tu sabes todas as coisas. Tu sabes que eu tenho carinho por ti.” Jesus lhe disse: “Alimente as minhas ovelhas.
Vulgata Clementina: 15 Cum ergo prandissent, dicit Simoni Petro Jesus: Simon Joannis, diligis me plus his? Dicit ei: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 16 Dicit ei iterum: Simon Joannis, diligis me? Ait illi: Etiam Domine, tu scis quia amo te. Dicit ei: Pasce agnos meos. 17 Dicit ei tertio: Simon Joannis, amas me? Contristatus est Petrus, quia dixit ei tertio: Amas me? et dixit ei: Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te. Dixit ei: Pasce oves meas.
At 20,28,
Atos dos Apóstolos 20, 28
Matos Soares: 28 Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho, sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para governardes a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue.
Bíblia Portuguesa Mundial: 28 Cuidem, portanto, de vocês mesmos e de todo o rebanho, no qual o Espírito Santo os constituiu bispos, para pastorear a igreja do Senhor e Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.
Vulgata Clementina: 28 Attendite vobis, et universo gregi, in quo vos Spiritus Sanctus posuit episcopos regere ecclesiam Dei, quam acquisivit sanguine suo.
SEGUNDA PARTE
O CULTO EUCARÍSTICO
I. Natureza do sacrifício eucarístico
59. O mistério da santíssima eucaristia, instituída pelo sumo sacerdote Jesus Cristo e, por vontade sua, perpetuamente renovada pelos seus ministros, é como a súmula e o centro da religião cristã. Em se tratando do ápice da sagrada liturgia, julgamos oportuno, veneráveis irmãos, deter-nos um pouco, chamando a vossa atenção para esta importantíssima temática.
60. O Cristo Senhor, “sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque” 56 “tendo amado os seus que estavam no mundo”,57 “na última ceia, na noite em que foi traído, para deixar à Igreja, sua esposa dileta, um sacrifício visível, como exige a natureza dos homens, o qual representasse o sacrifício cruento que devia cumprir-se na cruz uma só vez, e para que a sua lembrança permanecesse até o fim dos séculos e nos fosse aplicada sua salutar virtude em remissão dos nossos pecados cotidianos… ofereceu a Deus Pai o seu corpo e o seu sangue sob as espécies de pão e de vinho e deu-os aos apóstolos então constituídos sacerdotes do Novo Testamento, para que sob essas mesmas espécies o recebessem, e ordenou a eles e aos seus sucessores no sacerdócio, que o oferecessem”.58
Sl 109,4.
Salmos 109, 4
Matos Soares: 4 Jurou o Senhor, e não se arrependerá: “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec.” (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial (Salmos 110, 4): 4 O SENHOR jurou, e não mudará de ideia: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.”
Vulgata Clementina: 4 Juravit Dominus, et non pœnitebit eum: Tu es sacerdos in æternum secundum ordinem Melchisedech.
Jo 13,1.
João 13, 1
Matos Soares: 1 Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao extremo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Ora, antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que havia chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai. Ele havia amado os seus que estavam no mundo e os amou até o fim.
Vulgata Clementina: 1 Ante diem festum Paschæ, sciens Jesus quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo ad Patrem: cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.
61. O augusto sacrifício do altar não é, pois, uma pura e simples comemoração da paixão e morte de Jesus Cristo, mas é um verdadeiro e próprio sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o sumo Sacerdote faz aquilo que fez uma vez sobre a cruz, oferecendo-se todo ao Pai, vítima agradabilíssima. “Uma… e idêntica é a vítima: aquele mesmo, que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes, se ofereceu então sobre a cruz; é diferente apenas, o modo de fazer a oferta”.59
62. Idêntico, pois, é o sacerdote, Jesus Cristo, cuja sagrada pessoa é representada pelo seu ministro. Este, pela consagração sacerdotal recebida, assemelha-se ao sumo Sacerdote e tem o poder de agir em virtude e na pessoa do próprio Cristo;60 por isso, com sua ação sacerdotal, de certo modo, “empresta a Cristo a sua língua, e lhe oferece a sua mão”.61
63. Também idêntica é a vítima, isto é, o divino Redentor, segundo a sua humana natureza e na realidade do seu corpo e do seu sangue. Diferente, porém, é o modo pelo qual Cristo é oferecido. Na cruz, com efeito, ele se ofereceu todo a Deus com os seus sofrimentos, e a imolação da vítima foi realizada por meio de morte cruenta livremente sofrida; no altar, ao invés, por causa do estado glorioso de sua natureza humana, “a morte não tem mais domínio sobre ele”62 e, por conseguinte, não é possível a efusão do sangue; mas a divina sabedoria encontrou o modo admirável de tornar manifesto o sacrifício de nosso Redentor com sinais exteriores que são símbolos de morte. Já que, por meio da transubstanciação do pão no corpo e do vinho no sangue de Cristo, têm-se realmente presentes o seu corpo e o seu sangue; as espécies eucarísticas, sob as quais está presente, simbolizam a cruenta separação do corpo e do sangue. Assim o memorial da sua morte real sobre o Calvário repete-se sempre no sacrifício do altar, porque, por meio de símbolos distintos, se significa e demonstra que Jesus Cristo se encontra em estado de vítima.
Rm 6,9.
Romanos 6, 9
Matos Soares: 9 sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais, nem a morte terá sobre ele mais domínio.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 sabendo que Cristo, sendo ressuscitado dentre os mortos, já não morre. A morte não tem mais domínio sobre ele!
Vulgata Clementina: 9 scientes quod Christus resurgens ex mortuis jam non moritur: mors illi ultra non dominabitur.
64. Idênticos, finalmente, são os fins, dos quais o primeiro é a glorificação de Deus. Do nascimento à morte, Jesus Cristo foi abrasado pelo zelo da glória divina e, da cruz, a oferenda do sangue chegou ao céu em odor de suavidade. E porque este cântico não havia de cessar, no sacrifício eucarístico os membros se unem à Cabeça divina e com ela, com os anjos e os arcanjos, cantam a Deus louvores perenes, 63 dando ao Pai onipotente toda honra e glória.64
65. O segundo fim é a ação de graças a Deus. O divino Redentor somente, como Filho de predileção do Eterno Pai de quem conhecia o imenso amor, pôde entoar-lhe um digno cântico de ação de graças. A isso visou e isso desejou “rendendo graças”65 na última ceia, e não cessou de fazê-lo na cruz, não cessa de realizá-lo no augusto sacrifício do altar, cujo significado é justamente a ação de graças ou eucaristia; e porque isso é “verdadeiramente digno e justo e salutar”.66
Mc 14,23.
Marcos 14, 23
Matos Soares: 23 Em seguida, tendo tomado o cálice, dando graças, deu-lho, e todos beberam dele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 23 Ele tomou o cálice e, depois de dar graças, deu a eles. Todos beberam dele.
Vulgata Clementina: 23 Et accepto calice, gratias agens dedit eis: et biberunt ex illo omnes.
66. O terceiro fim é a expiação e a propiciação. Certamente ninguém, fora Cristo, podia dar a Deus onipotente satisfação adequada pelas culpas do gênero humano; ele, pois, quis imolar-se na cruz, “propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas ainda pelos de todo o mundo”.67 Nos altares se oferece igualmente cada dia pela nossa redenção, afim de que, libertados da eterna condenação, sejamos acolhidos no rebanho dos eleitos. E isso não somente por nós que estamos nesta vida mortal, mas ainda “por todos aqueles que repousam em Cristo, os quais nos precederam com o sinal da fé, e dormem o sono da paz”,68 pois, quer vivamos, quer morramos, “não nos separamos do único Cristo”.69
1 Jo 2,2 .
1 João 2, 2
Matos Soares: 2 Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 E ele é o sacrifício expiatório pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro.
Vulgata Clementina: 2 et ipse est propitiatio pro peccatis nostris: non pro nostris autem tantum, sed etiam pro totius mundi.
67. O quarto fim é a impetração. Filho pródigo, o homem malbaratou e dissipou todos os bens recebidos do Pai celeste, por isso está reduzido à suprema miséria e inanição; da cruz, porém, Cristo, “tendo em alta voz e com lágrimas oferecido orações e súplicas… foi ouvido pela sua piedade”,70 e nos sagrados altares exercita a mesma mediação eficaz; a fim de que sejamos cumulados de toda bênção e graça.
Hb 5, 7.
Hebreus 5, 7
Matos Soares: 7 Nos dias da sua vida mortal, oferecendo, com grande brado e com lágrimas, preces e súplicas, ao que o podia salvar da morte (pela ressurreição), foi atendido pela sua piedade (para com Deus),
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Ele, nos dias da sua carne, ofereceu orações e súplicas, com intenso clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte, e foi ouvido por causa do seu temor a Deus.
Vulgata Clementina: 7 Qui in diebus carnis suæ preces, supplicationesque ad eum qui possit illum salvum facere a morte cum clamore valido, et lacrimis offerens, exauditus est pro sua reverentia.
68. Compreende-se, portanto, facilmente, porque o sacrossanto concílio de Trento afirma que com o sacrifício eucarístico nos é aplicada a salutar virtude da cruz para a remissão dos nossos pecados cotidianos.71
69. Também o apóstolo das gentes, proclamando a superabundante plenitude e perfeição do sacrifício da cruz, declarou que Cristo com uma só oblação, tornou perfeitos para sempre os santificados.72 Os infinitos e imensos méritos desse sacrifício, com efeito, não têm limites: estendem-se à universalidade dos homens de todo lugar e de todo tempo, porque, nele, o sacerdote e a vítima é Deus Homem; porque a sua imolação como a sua obediência à vontade do Eterno Pai foi perfeitíssima, e porque foi como Cabeça do gênero humano, que ele quis morrer. “Considera como foi tratado o nosso resgate: Cristo pende do madeiro; vê a que preço comprou; …derramou o seu sangue, comprou com o seu sangue, com o sangue do Cordeiro imaculado, com o sangue do unigênito Filho de Deus… Quem compra é Cristo, o preço é o sangue, a aquisição é todo o mundo”.73
Cf. Hb 10,14.
Hebreus 10, 14
Matos Soares: 14 Com uma só oblação, tornou perfeitos para sempre os que foram santificados.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Pois com uma única oferta ele aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.
Vulgata Clementina: 14 Una enim oblatione, consummavit in sempiternum sanctificatos.
70. Esse resgate, porém, não teve logo o seu pleno efeito: é necessário que, depois de haver resgatado o mundo com o elevadíssimo preço de si mesmo, Cristo entre na real e efetiva posse das almas. Conseqüentemente, a fim de que, com o beneplácito de Deus, se cumpra para todos os indivíduos e para todas as gerações até o fim dos séculos, a sua redenção e salvação, é absolutamente necessário que cada um tenha vital contato com o sacrifício da cruz, e assim os méritos que dele derivam lhe sejam transmitidos e aplicados. Pode-se dizer que Cristo construiu no Calvário uma piscina de purificação e de salvação e a encheu com o sangue por ele derramado; mas se os homens não mergulham nas suas ondas e aí não lavam as manchas de sua iniqüidade, não podem certamente ser purificados e salvos.
71. A fim de que, pois, os pecadores individualmente se purifiquem no sangue do Cordeiro, é necessária a colaboração dos fiéis. Se bem que, falando em geral, Cristo haja reconciliado com o Pai por meio da sua morte cruenta todo o gênero humano, quis todavia que todos se aproximassem e fossem conduzidos à cruz por meio dos sacramentos e do sacrifício da eucaristia, para poderem conseguir os frutos salutares por ele granjeados na cruz. Com esta atual e pessoal participação assim como os membros se configuram cada dia mais à sua Cabeça divina, assim também a salvação que vem da Cabeça flui para os membros, de modo que cada um de nós pode repetir as palavras de são Paulo: “Estou crucificado com Cristo na cruz, e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim”.74 Como realmente, em outra ocasião, de propósito e concisamente dissemos, Jesus Cristo enquanto morria na cruz, deu à sua Igreja, sem nenhuma cooperação da parte dela, o imenso tesouro da Redenção; quando, ao invés, se trata de distribuir tal tesouro, não só participa com sua esposa incontaminada desta obra de santificação, mas deseja que tal atividade jorre, de certo modo, por ação dela.75
Gl 2,19-20.
Gálatas 2, 19-20
Matos Soares: 19 porque, pela (doutrina da própria) lei, estou morto para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado com Cristo na cruz; 20 vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. A vida (sobrenatural) com que vivo agora na carne, vivo-a da fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Pois eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. 20 Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Vulgata Clementina: 19 Ego enim per legem, legi mortuus sum, ut Deo vivam: Christo confixus sum cruci. 20 Vivo autem, jam non ego: vivit vero in me Christus. Quod autem nunc vivo in carne: in fide vivo Filii Dei, qui dilexit me, et tradidit semetipsum pro me.
72. O augusto sacrifício do altar é insigne instrumento para aos crentes distribuir os méritos derivados da cruz do divino Redentor: “toda vez que se oferece este sacrifício, cumpre-se a obra da nossa redenção”.76 Isso, porém, longe de diminuir a dignidade do sacrifício cruento, dele faz ressaltar a grandeza, como afirma o concílio de Trento,“77 e lhe proclama a necessidade. Renovado cada dia, admoesta-nos que não há salvação fora da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo;78 que Deus quer a continuação deste sacrifício”do surgir ao pôr-do-sol”, 79 para que não cesse jamais o hino de glorificação e de ação de graças que os homens devem ao Criador, visto que têm necessidade de seu contínuo auxílio e do sangue do Redentor para redimir os pecados que ofendem a sua justiça.
Cf. Gl 6,14.
Gálatas 6, 14
Matos Soares: 14 Longe de mim o gloriar-me senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Mas longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo.
Vulgata Clementina: 14 Mihi autem absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Jesu Christi: per quem mihi mundus crucifixus est, et ego mundo.
Ml 1,11.
Malaquias 1, 11
Matos Soares: 11 Desde o nascente ao poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todo o lugar se oferece ao meu nome um sacrifício fumegante e uma oblação pura, porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Pois desde o nascer do sol até o seu poente, o meu nome é grande entre as nações, e em todo lugar incenso será oferecido ao meu nome, e uma oferta pura; pois o meu nome é grande entre as nações”, diz o SENHOR dos Exércitos.
Vulgata Clementina: 11 Ab ortu enim solis usque ad occasum, magnum est nomen meum in gentibus, et in omni loco sacrificatur: et offertur nomini meo oblatio munda, quia magnum est nomen meum in gentibus, dicit Dominus exercituum.
II. Participação dos fiéis no sacrifício eucarístico
73. É necessário, pois, veneráveis irmãos, que todos os fiéis tenham por seu principal dever e suma dignidade participar do santo sacrifício eucarístico, não com assistência passiva, negligente e distraída, mas com tal empenho e fervor que os ponha em contato íntimo com o sumo sacerdote, como diz o Apóstolo: “Tende em vós os mesmos sentimentos que Jesus Cristo experimentou”,80 oferecendo com ele e por ele, santificando-se com ele.
Fl 2,5.
Filipenses 2, 5
Matos Soares: 5 Tende entre vós os mesmos sentimentos que se deve ter em Jesus Cristo,
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Tenham em vocês o mesmo modo de pensar que houve em Cristo Jesus,
Vulgata Clementina: 5 Hoc enim sentite in vobis, quod et in Christo Jesu:
74. É bem verdade que Jesus Cristo é sacerdote, mas não para si mesmo, e sim para nós, apresentando ao Eterno Pai os votos e sentimentos religiosos de todo o gênero humano; Jesus é vítima, mas por nós, substituindo-se ao homem pecador; ora, o dito do Apóstolo: “Alimentai em vós os mesmos sentimentos que existiram em Jesus Cristo” exige de todos os cristãos que reproduzam em si, enquanto está em poder do homem, o mesmo estado de alma que tinha o divino Redentor quando fazia o sacrifício de si mesmo, a humilde submissão do espírito, isto é, a adoração, a honra, o louvor e a ação de graças à majestade suprema de Deus; requer, além disso, que reproduzam em si mesmos as condições da vítima: a abnegação de si conforme os preceitos do evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e a expiação dos próprios pecados. Exige, em uma palavra, a nossa morte mística na cruz com Cristo, de modo que possamos dizer com Paulo: “Estou crucificado com Cristo na cruz”.81
Gl 2,19.
Gálatas 2, 19
Matos Soares: 19 porque, pela (doutrina da própria) lei, estou morto para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado com Cristo na cruz;
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Pois eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus.
Vulgata Clementina: 19 Ego enim per legem, legi mortuus sum, ut Deo vivam: Christo confixus sum cruci.
75. É necessário, veneráveis irmãos, explicar claramente a vosso rebanho como o fato de os fiéis tomarem parte no sacrifício eucarístico não significa todavia que eles gozem de poderes sacerdotais. Há, de fato, em nossos dias, alguns que, avizinhando-se de erros já condenados,82 ensinam que em o Novo Testamento se conhece apenas um sacerdócio pertencente a todos os batizados, e que o preceito dado por Jesus aos apóstolos na última ceia – fazer o que ele havia feito – se refere diretamente a toda a Igreja dos cristãos e só depois é que foi introduzido o sacerdócio hierárquico. Sustentam, por isso, que só o povo goza de verdadeiro poder sacerdotal, enquanto o sacerdote age unicamente por ofício a ele confiado pela comunidade. Afirmam, em conseqüência, que o sacrifício eucarístico é uma verdadeira e própria “concelebração”, e que é melhor que os sacerdotes “concelebrem” junto com o povo presente, do que, na ausência destes, ofereçam privadamente o sacrifício.
76. É inútil explicar quanto esses capciosos erros estejam em contraste com as verdades acima demonstradas, quando falamos do lugar que compete ao sacerdote no corpo místico de Jesus. Recordemos apenas que o sacerdote faz as vezes do povo porque representa a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo enquanto é Cabeça de todos os membros e se oferece a si mesmo por eles: por isso vai ao altar como ministro de Cristo, inferior a ele, mas superior ao povo.83 O povo, ao invés, não representando por nenhum motivo a pessoa do divino Redentor, nem sendo mediador entre si próprio e Deus, não pode de nenhum modo gozar dos poderes sacerdotais.
1. Os fiéis oferecem junto com o sacerdote
77. Tudo isso consta da fé verdadeira; mas deve-se, além disso, afirmar que também os fiéis oferecem a vítima divina, sob um aspecto diverso.
Já o declararam abertamente alguns dos nossos predecessores e doutores da Igreja. “Não somente – assim afirmava Inocêncio III, de imortal memória – oferecem os sacerdotes, mas ainda todos os fiéis; pois isto que em particular se cumpre pelo ministério dos sacerdotes, cumpre-se universalmente por voto dos fiéis”.84 E apraz-nos citar ao menos um dos muitos textos de são Roberto Belarmino a esse propósito: “O sacrifício – diz ele – é oferecido principalmente na pessoa de Cristo. Por isso a oblação que segue à consagração atesta que toda a Igreja consente na oblação feita por Cristo e oferece juntamente com ele”.85
78. Com clareza não menor, os ritos e as orações do sacrifício eucarístico significam e demonstram que a oblação da vítima é feita pelos sacerdotes em união com o povo. De fato, não somente o sagrado ministro, depois da oferta do pão e do vinho, voltado para o povo diz explicitamente: “Orai, irmãos, para que o meu e o vosso sacrifício sejam aceitos junto a Deus-Pai onipotente”,86 mas ainda as orações com as quais é oferecida a vítima divina são, além do mais, ditas no plural, e nelas se indica que também o povo toma parte como ofertante neste augusto sacrifício. Diz-se, por exemplo: “Pelos quais nós te oferecemos, e que te oferecem ainda eles… Por isso te suplicamos, ó Senhor, aceitar aplacado esta oferta dos teus servos e de toda a tua família… Nós, teus servos, como ainda o teu povo santo, oferecemos à tua excelsa majestade os dons e dádivas que tu mesmo nos deste, a hóstia pura, a hóstia santa, a hóstia imaculada”.87
79. Nem é de admirar que os fiéis sejam elevados a uma tal dignidade. Com a água do batismo, com efeito, os cristãos se tornam, a título comum, membros do corpo místico de Cristo sacerdote, e, por meio do “caráter” que se imprime nas suas almas, são delegados ao culto divino, participando, assim, de modo condizente ao próprio estado, do sacerdócio de Cristo.
80. Na Igreja católica, a razão humana iluminada pela fé sempre se esforçou por ter a maior consciência possível das coisas divinas; por isso é natural que também o povo cristão pergunte piamente em que sentido se diz no Cânon do sacrifício eucarístico que também ele o oferece. Para satisfazer esse piedoso desejo apraz-nos tratar aqui do assunto com clareza e concisão.
81. Há, acima de tudo, razões muito remotas: freqüentemente acontece que os fiéis, assistindo aos sagrados ritos, unam alternadamente as suas orações às orações do sacerdote; alguma vez; ainda, acontece – isto antigamente se verificava com maior freqüência – que ofereçam ao ministro do altar o pão e o vinho para que se tornem corpo e sangue de Cristo; e, enfim, porque, com as esmolas, fazem com que o sacerdote ofereça por eles a vítima divina.
82. Mas há ainda uma razão mais profunda para que se possa dizer que todos os cristãos e especialmente aqueles que assistem ao altar realizem a oferta.
83. Para não dar ensejo a erros perigosos neste importantíssimo argumento, é necessário precisar com exatidão o significado do termo “oferta”. A imolação incruenta por meio da qual, depois que foram pronunciadas as palavras da consagração, Cristo está presente no altar no estado de vítima, é realizada só pelo sacerdote enquanto representa a pessoa de Cristo e não enquanto representa a pessoa dos fiéis. Colocando, porém, no altar a vítima divina, o sacerdote a apresenta a Deus Pai como oblação à glória da SS. Trindade e para o bem de todas as almas. Dessa oblação propriamente dita os fiéis participam do modo que lhes é possível e por um duplo motivo: porque oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do sacerdote, mas, de certo modo ainda, junto com ele; e ainda porque com essa participação também a oferta feita pelo povo pertence ao culto litúrgico. Que os fiéis oferecem o sacrifício por meio do sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de Cristo enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que, em bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, realiza a oblação da vítima. Quando, pois, se diz que o povo oferece juntamente com o sacerdote, não se afirma que os membros da Igreja de maneira idêntica à do próprio sacerdote realizam o rito litúrgico visível – o que pertence somente ao ministro de Deus para isso designado – mas sim que une os seus votos de louvor, de impetração, de expiação e a sua ação de graças à intenção do sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam apresentados a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com o rito externo do sacerdote. É necessário, com efeito, que o rito externo do sacrifício manifeste, por sua natureza, o culto interno; ora, o sacrifício da nova Lei significa aquele obséquio supremo com o qual o próprio principal ofertante, que é Cristo, e com ele e por ele todos os seus membros místicos, honram devidamente a Deus.
84. Com grande alegria da alma fomos informados de que essa doutrina, especialmente nos últimos tempos, pelo intenso estudo da disciplina litúrgica da parte de muitos, foi posta em sua luz; mas não podemos deixar de deplorar vivamente os exageros e os desvios da verdade, que não concordam com os genuínos preceitos da Igreja.
85. Alguns, com efeito, reprovam de todo as missas que se celebram privadamente e sem a assistência do povo, como se se desviassem da forma primitiva do sacrifício; nem falta quem afirme que os sacerdotes não possam oferecer a divina vítima ao mesmo tempo em muitos altares, porque desse modo dissociam a comunidade e põem em perigo a unidade; também não falta quem chegue ao ponto de crêr necessária a confirmação e a ratificação do sacrifício por parte do povo, para que possa ter sua força e eficácia.
86. Erroneamente, nesse caso, se faz apelo à índole social do sacrifício eucarístico. Toda vez, com efeito, que o sacerdote repete o que fez o divino Redentor na última ceia, o sacrifício é realmente consumado e tem sempre e em qualquer lugar necessariamente e por sua intrínseca natureza, uma função pública e social, enquanto o ofertante age em nome de Cristo e dos cristãos, dos quais o divino Redentor é Cabeça, e oferece a Deus pela santa Igreja católica e pelos vivos e defuntos.88 E isso se verifica certamente, quer assistam os fiéis – e desejamos e recomendamos que estejam presentes numerosíssimos e fervorosíssimos – quer não assistam, não sendo de nenhum modo requerido que o povo ratifique o que faz o sagrado ministro.
87. Se, pois, daquilo que foi dito resulta claramente que o santo sacrifício da missa é oferecido validamente em nome de Cristo e da Igreja, nem fica privado dos seus frutos sociais, mesmo quando celebrado sem assistência de nenhum acólito todavia, pela dignidade deste mistério, queremos e insistimos, como sempre quis a madre Igreja, que nenhum sacerdote se aproxime do altar sem ter quem o ajude e lhe responda, como prescreve o cân. 813.
2. Os féis oferecem também a si mesmos como vítimas
88. Para que, pois, a oblação, com a qual neste sacrifício os fiéis oferecem a vítima divina ao Pai celeste, tenha o seu efeito pleno, requer-se ainda outra coisa: é necessário que eles se imolem a si mesmos como vítimas.
89. Essa imolação não se limita somente ao sacrifício litúrgico. Quer, com efeito, o príncipe dos apóstolos que pelo fato mesmo de sermos edifïcados como pedras vivas sobre Cristo, possamos como “sacerdócio santo, oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo”; 89 e Paulo apóstolo, sem nenhuma distinção de tempo, exorta os cristãos com as seguintes palavras: “Eu vos conjuro, ó irmãos, que ofereçais os vossos corpos como vítima viva, santa, agradável a Deus, como vosso culto racional.”90 Mas quando, sobretudo, os féis participam da ação litúrgica com tanta piedade e atenção que se pode verdadeiramente dizer deles: “dos quais te é conhecida a fé e a devoção”91 não é possível que a fé de cada um deles não se torne mais alegremente operante por meio da caridade, nem se revigore e brilhe a piedade e não se consagrem todos à conquista da glória divina, desejando com ardor tornarem-se intimamente semelhantes a Jesus Cristo que sofreu acerbas dores, oferecendo-se ao sumo Sacerdote e por meio dele como hóstia espiritual.
1 Pd 2,5.
1 Pedro 2, 5
Matos Soares: 5 e vós também, como pedras vivas, prestai-vos a entrar na edificação de uma casa espiritual, para formar assim o sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Vocês também, como pedras vivas, estão sendo edificados para formar uma casa espiritual e ser um sacerdócio santo, a fim de oferecerem sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.
Vulgata Clementina: 5 et ipsi tamquam lapides vivi superædificamini, domus spiritualis, sacerdotium sanctum, offerre spirituales hostias, acceptabiles Deo per Jesum Christum.
Rom 12,1.
Romanos 12, 1
Matos Soares: 1 Rogo-vos, pois, Irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus: tal é o culto que a razão exige de vós.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Portanto, rogo-lhes, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresentem os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o seu culto espiritual.
Vulgata Clementina: 1 Obsecro itaque vos fratres per misericordiam Dei, ut exhibeatis corpora vestra hostiam viventem, sanctam, Deo placentem, rationabile obsequium vestrum.
90. Isso ensinam ainda as exortações que o bispo endereça em nome da Igreja aos ministros sagrados no dia da sua ordenação: “Compenetrai-vos daquilo que fazeis, imitai o que tratais, de modo que, ao celebrardes o mistério da morte do Senhor, procureis mortificar os vossos membros de seus vícios e da concupiscência”.92 E quase do mesmo modo nos livros litúrgicos são exortados os cristãos que se aproximam do altar a participarem dos sagrados mistérios: “esteja sobre… este altar o culto da inocência, nele se imole a soberba, nele se apague a ira, se debele a luxúria e toda concupiscência, ofereça-se ao invés de rolas o sacrifício da castidade e em lugar de pombas o sacrifício da inocência”.93 Assistindo, pois, ao altar, devemos transformar a nossa alma de modo que se apague radicalmente todo o pecado que está nela, e com toda diligência se restaure e reforce tudo aquilo que, mediante Cristo, dá a vida sobrenatural: e assim nos tornemos, junto com a hóstia imaculada, uma vítima agradável a Deus Pai.
91. A Igreja se esforça com os preceitos da sagrada liturgia por levar a efeito, da maneira mais perfeita, este santíssimo propósito. A isso visam não somente as leituras, as homílias e as outras exortações dos ministros sagrados, e todo o ciclo dos mistérios que nos são recordados durante o ano, mas também as vestes, os ritos sagrados e seu aparato exterior que tem por fim “fazer pensar na majestade de tão grande sacrifício, excitar a mente dos fiéis, por meio dos sinais visíveis de piedade e de religião, à contemplação das altíssimas” coisas encerradas neste sacrifício”.94
92. Todos os elementos da liturgia tendem, pois, a reproduzir em nossa alma a imagem do divino Redentor através do mistério da cruz, segundo a palavra do apóstolo das gentes: “Estou cravado com Cristo na cruz e vivo, não mais eu, mas é Cristo que vive em mim”.95 Por isso nos tornamos hóstia junto com Cristo para a maior glória do Pai.
Gl 2, 19-20.
Gálatas 2, 19-20
Matos Soares: 19 porque, pela (doutrina da própria) lei, estou morto para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado com Cristo na cruz; 20 vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. A vida (sobrenatural) com que vivo agora na carne, vivo-a da fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Pois eu, por meio da lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. 20 Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Vulgata Clementina: 19 Ego enim per legem, legi mortuus sum, ut Deo vivam: Christo confixus sum cruci. 20 Vivo autem, jam non ego: vivit vero in me Christus. Quod autem nunc vivo in carne: in fide vivo Filii Dei, qui dilexit me, et tradidit semetipsum pro me.
93. A isso, pois, devem dirigir e elevar a sua alma os féis que oferecem a vítima divina no sacrifício eucarístico. Se, com efeito, como escreve santo Agostinho, sobre a mesa do Senhor é posto o nosso mistério, isto é, o próprio Cristo Senhor, 96 enquanto a cabeça é símbolo daquela união em virtude da qual somos o corpo de Cristo97 e membros do seu corpo;98 se são Roberto Belarmino ensina, segundo o pensamento do doutor de Hipona, que no sacrifício do altar está significado o sacrifício geral com o qual todo o corpo místico de Cristo, isto é, toda a cidade redimida, é oferecida a Deus por meio de Cristo grão-sacerdote, 99 nada se pode encontrar de mais reto e de mais justo que nos imolarmos ao eterno Pai, nós todos, com nossa Cabeça, que sofreu por nós. No sacramento do altar, segundo o mesmo Agostinho, torna-se patente à Igreja que no sacrifício que oferece, ela mesma é oferecida.100
Cf. l Cor 12,27.
1 Coríntios 12, 27
Matos Soares: 27 Ora vós sois corpo de Cristo, e cada um, por sua parte, um dos seus membros. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 27 Ora, vocês são o corpo de Cristo, e membros individualmente.
Vulgata Clementina: 27 Vos autem estis corpus Christi, et membra de membro.
Cf. Ef 5,30.
Efésios 5, 30
Matos Soares: 30 porque somos membros do seu corpo (místico).
Bíblia Portuguesa Mundial: 30 porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos.
Vulgata Clementina: 30 quia membra sumus corporis ejus, de carne ejus et de ossibus ejus.
94. Considerem, pois, os fiéis a que dignidade os eleva a sagrada água do batismo; e não se contentem em participar do sacrifício eucarístico com a intenção geral que convém aos membros de Cristo e filhos da Igreja, mas livre e intimamente unidos ao sumo sacerdote e ao seu ministro na terra, segundo o espírito da sagrada liturgia, se unam a ele de modo particular no momento da consagração da hóstia divina, e a ofereçam junto com ele quando são pronunciadas aquelas solenes palavras “por ele, com ele, nele, a ti, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória por todos os séculos dos séculos’’;101 à essas palavras o povo responde: Amém. Nem se esqueçam os cristãos de oferecer-se, com a divina Cabeça crucificada, a si mesmos e as suas preocupações, angústias, dores, misérias e necessidades.
3. Os meios de promover a participação dos fiéis
95. São, pois, dignos de louvor aqueles que, com o fim de tornar mais fácil e frutuosa ao povo cristão a participação no sacrifício eucarístico, se esforçam em colocar oportunamente nas mãos do povo o “Missal romano” de modo que os fiéis, unidos ao sacerdote, orem com ele, com as suas próprias palavras e com os mesmos sentimentos da Igreja; como também os que visam a fazer da liturgia, ainda que externamente, uma ação sagrada, na qual têm parte de fato todos os assistentes. Isso pode acontecer de vários modos: quando todo o povo, segundo as normas rituais, responde disciplinadamente às palavras do sacerdote ou executa cânticos correspondentes às várias partes do sacrifício, ou faz uma e outra coisa, ou, enfim, quando, na missa solene, responde alternadamente às orações dos ministros de Jesus Cristo e se associa ao canto litúrgico.
96. Todavia, essas maneiras de participar do sacrifício são para louvar e aconselhar, quando obedecem escrupulosamente aos preceitos da Igreja e às normas dos sagrados ritos. São ordenadas sobretudo para alimentar e fomentar a piedade dos cristãos e a sua íntima união com Cristo e com o seu ministro visível e a estimular aqueles sentimentos e aquelas disposições interiores com as quais é necessário que a nossa alma se assemelhe ao sumo sacerdote do Novo testamento. Não obstante, se bem que isto demonstre no modo exterior, que o sacrifício por sua natureza, enquanto é realizado pelo mediador de Deus e dos homens 102 deve ser considerado obra de todo o corpo místico de Cristo, não são porém necessárias para constituir-lhe o caráter público e comum. Além disso, a missa “dialogada” não pode substituir a missa solene, a qual, ainda que celebrada na presença apenas dos ministros, goza de uma particular dignidade pela majestade dos ritos e aparato das cerimônias; se bem que o seu esplendor e solenidade muito ganhem se, como o prefere a Igreja, o povo numeroso e devoto a ela assistir.
Cf. 1 Tm 2,5.
1 Timóteo 2, 5
Matos Soares: 5 Com efeito, há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus,
Vulgata Clementina: 5 Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum homo Christus Jesus:
97. Deve-se ainda observar que estão fora da verdade e do caminho da reta razão os que, arrastados por falsas opiniões, tanto valor atribuem a todas essas circunstâncias que não duvidam asseverar que, omitindo-as, a ação sagrada não pode alcançar o fim prefixado.
98. Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o “Missal Romano” ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo, meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza. Por isso vos exortamos, veneráveis irmãos, a que na vossa diocese ou jurisdição eclesiástica reguleis e ordeneis o modo mais adequado mediante o qual o povo consiga participar da ação litúrgica segundo as normas estabelecidas no “Missal Romano” e segundo os preceitos da Sagrada Congregação dos ritos e do Código de direito canônico. Faça-se, pois, tudo com a necessária ordem e decoro, nem seja permitido a ninguém, ainda que sacerdote, usar os sagrados edifícios para experimentações arbitrárias. A esse propósito desejamos ainda, como já existe para a arte e a música sacra, também se constitua nas dioceses, uma comissão para promover o apostolado litúrgico, a fim de que, sob o vosso vigilante cuidado, tudo se faça diligentemente segundo as prescrições da Sé Apostólica.
99. Nas comunidades religiosas observe-se cuidadosamente tudo o que as próprias constituições estabeleceram nesta matéria, e não se introduzam novidades que não tenham sido primeiro aprovadas pelos superiores. Na realidade, ainda que possam ser várias as circunstâncias exteriores da participação do povo no sacrifício eucarístico e nas outras ações litúrgicas, sempre deve procurar-se com todo o cuidado que as almas dos assistentes se unam ao divino Redentor com os mais estreitos laços possíveis e que a sua vida se enriqueça de santidade sempre maior e cresça todo dia a glória do Pai celeste.
III. A comunhão eucarística
100. O augusto sacrifício do altar conclui-se com a comunhão do divino banquete. Mas, como todos sabem, para haver integridade do sacrifício, somente é exigido que o sacerdote se nutra do alimento celeste e não que o povo – coisa aliás sumamente desejável – participe da santa comunhão.
101. Agrada-nos a esse propósito repetir as considerações de Nosso predecessor Bento XIV sobre as definições do concílio de Trento: “Em primeiro lugar… devemos dizer que a nenhum fiel pode vir à mente que as missas privadas, nas quais apenas o sacerdote comunga, percam por isso o valor do verdadeiro, perfeito e íntegro sacrifício instituído por Cristo Senhor e devam, portanto, ser consideradas ilícitas. Nem os fiéis ignoram – pelo menos podem ser facilmente instruídos – que o sacrossanto concílio de Trento, fundando-se na doutrina guardada na ininterrupta tradição da Igreja, condenou a nova e falsa doutrina de Lutero, contraria a esta”103. Quem disser que as missas nas quais só o sacerdote comunga sacramentalmente são ilícitas, e por isso devam ser abolidas, seja anátema”.104
102. Afastam-se, pois, do caminho da verdade os que recusam celebrar, se o povo cristão não se aproximar da mesa divina; e ainda mais se afastam os que, para sustentar a absoluta necessidade de que os fiéis se nutram do banquete eucarístico juntamente com o sacerdote, afirmam capciosamente que não se trata somente de um sacrifício, mas de sacrifício e banquete de união fraterna, e fazem da santa comunhão em comum quase o ápice de toda a celebração.
103. Deve-se ainda uma vez notar que o sacrifício eucarístico consiste essencialmente na imolação incruenta da vítima divina, imolação que é misticamente manifestada pela separação das sagradas espécies e pela sua oblação feita ao Pai Eterno. A santa comunhão pertence à integridade do sacrifício, e à participação nele por meio da recepção do augusto sacramento; e enquanto é absolutamente necessária ao ministro sacrificador, aos fiéis é vivamente recomendável.
104. Como, porém, a Igreja, enquanto mestra de verdade, se esforça com todo o cuidado por guardar a integridade da fé católica, assim, enquanto mãe solícita de seus filhos exorta-os instantemente a participarem com avidez e freqüência deste máximo benefício da nossa religião.
105. Deseja antes de tudo, que os cristãos – especialmente quando não possam facilmente receber de fato o alimento eucarístico – o recebam ao menos em desejo; de sorte que se unam a ele com fé viva, com ânimo reverentemente humilde e confiante na vontade do Redentor divino e com o amor mais ardente.
106. Mas isso não lhe basta. Já que, como acima dissemos, podemos participar do sacrifício também pela comunhão sacramental, por meio do banquete do pão dos anjos, a madre Igreja, para que mais eficazmente “possamos sentir em nós continuamente o fruto da redenção” 105 repete a todos os seus filhos o convite de Cristo Senhor: “tomai e comei… fazei isto em minha memória”.106 Nesse propósito o concílio de Trento, fazendo eco aos desejos de Jesus Cristo e de sua esposa imaculada, insta por “que em todas as missas os fiéis presentes participem não só espiritualmente, mas ainda sacramentalmente da eucaristia, para que lhes venha mais abundante o fruto deste sacrifício”.107 Aliás, para melhor e mais claramente manifestar-se a participação dos fiéis no sacrifício divino por meio da comunhão eucarística, o nosso imortal predecessor Bento XIV louva a devoção daqueles que, não só desejam nutrir-se do alimento celeste durante a assistência ao sacrifício, mas preferem alimentar-se com hóstias consagradas no mesmo sacrifício, se bem que, como ele declara, participemos verdadeira e realmente do sacrifício, mesmo quando se trate de pão eucarístico devidamente consagrado antes. Assim, com efeito, escreve: “Embora participem do mesmo sacrifício não só aqueles aos quais o sacerdote celebrante dá parte da Vítima por ele oferecida na mesma missa, mas também aqueles aos quais o sacerdote dá a eucaristia que se costuma conservar; nem por isso a Igreja proibiu no passado, ou proíbe atualmente, que o sacerdote satisfaça à devoção e ao justo pedido daqueles que assistem à missa e pedem para participar do mesmo sacrifício, também por eles oferecido na maneira que lhes é apropriada; antes aprova e deseja que assim se faça e reprovaria os sacerdotes que, por sua culpa ou negligência privassem os fiéis desta participação”. 108
1 Cor 11,24.
1 Coríntios 11, 24
Matos Soares: 24 e, dando graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que é (dado) para vós; fazei isto em memória de mim. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 24 E, tendo dado graças, o partiu e disse: “Tomem, comam. Este é o meu corpo, que é partido por vocês. Façam isso em memória de mim.”
Vulgata Clementina: 24 et gratias agens fregit, et dixit: Accipite, et manducate: hoc est corpus meum, quod pro vobis tradetur: hoc facite in meam commemorationem.
107. Queira, pois, Deus que todos, espontanea e livremente, correspondam a esses solícitos convites da Igreja; queira Deus que os fiéis, mesmo todos os dias se o puderem, participem não só espiritualmente do sacrifício divino, mas ainda da comunhão do augusto sacramento, recebendo o corpo de Jesus Cristo, oferecido por todos ao Pai Eterno. Estimulai, veneráveis irmãos, nas almas confïadas aos vossos cuidados, a apaixonada e insaciável fome de Jesus Cristo; vosso ensinamento cerque os altares de crianças e de jovens que ofereçam ao Redentor divino a sua inocência e o seu entusiasmo: aproximem-se freqüentemente os cônjuges para que, nutridos na sagrada mesa e graças a ela, possam educar no espírito e na caridade de Jesus Cristo a prole que lhes foi confiada; sejam convidados os operários para que possam receber o alimento eficaz e indefectível que lhes restaura as forças e prepara às suas fadigas a recompensa eterna no céu; aproximai enfim os homens de todas as classes e “compeli-os a entrar”,109 porque este é o pão da vida do qual todos têm necessidade. A Igreja de Jesus Cristo só dispõe desse pão para saciar as aspirações e os desejos das nossas almas, para uni-las intimamente a Jesus Cristo, afim de, por ele, se tornarem “um só corpo”110 e confraternizarem quantos se sentam à mesma mesa para tomar o remédio da imortalidade 111 com a fração do pão único.
Cf. Lc 14,23.
Lucas 14, 23
Matos Soares: 23 Disse o senhor ao servo: Vai pelos caminhos e ao longo dos cercados ; e força-os a vir, para que se encha a minha casa.
Bíblia Portuguesa Mundial: 23 “O senhor disse ao servo: ’Saia pelos caminhos e cercas e obrigue-os a entrar, para que a minha casa fique cheia.
Vulgata Clementina: 23 Et ait dominus servo: Exi in vias, et sæpes: et compelle intrare, ut impleatur domus mea.
108. É assaz oportuno, ainda – o que aliás é estabelecido pela liturgia – que o povo compareça à santa comunhão depois que o sacerdote tomou no altar o alimento divino; e, como já dissemos, são para louvar aqueles que, assistindo à missa, recebem as hóstias consagradas no mesmo sacrifício, verificando-se destarte que “quantos, participando deste altar, hajamos recebido o sacrossanto corpo e sangue de teu Filho, sejamos cumulados de toda a graça e bênção celeste”.112
109. Todavia, não faltam nem são raras as causas pelas quais se deva distribuir o pão eucarístico, antes ou depois do sacrifício, como também que se comungue com hóstias anteriormente consagradas, embora se distribua a comunhão em seguida à do sacerdote. Mesmo nesses casos – como aliás já advertimos antes – o povo participa regularmente do sacrifício eucarístico e pode freqüentemente, com maior facilidade, aproximar-se da mesa de vida eterna. Se a Igreja com maternal condescendência se esforça por vir ao encontro das necessidades espirituais dos seus filhos, estes, contudo, de sua parte, não devem facilmente desdenhar o que a sagrada liturgia aconselha e, sempre que não haja motivo plausível em contrário, devem fazer tudo o que mais claramente manifesta no altar a viva unidade do corpo místico.
110. Finda a sagrada ação, regulada pelas normas litúrgicas particulares, não dispensa a ação de graças de quem saboreou o alimento celeste; é, aliás muito conveniente que, recebido o alimento eucarístico e terminados os ritos públicos, se recolha e, intimamente unido com o divino Mestre, se entretenha com ele tanto quanto as circunstâncias lho permitam, em dulcíssimo e salutar colóquio. Afastam-se, pois, do reto caminho da verdade aqueles que, baseando-se nas palavras mais que no sentido, afirmam e ensinam que, terminada a missa, não se deve prolongar a ação de graças, não só porque o sacrifício do altar é por natureza uma ação de graças mas ainda porque isso pertence à piedade privada, pessoal e não ao bem da comunidade. Pelo contrário, a própria natureza do Sacramento requer do cristão que o recebe, que se locuplete com abundantes frutos de santidade.
111. Certamente a pública assembléia da comunidade está dissolvida, mas é necessário que os indivíduos unidos com Cristo não interrompam na sua alma o cântico de louvor, “agradecendo sempre tudo em nome de nosso Senhor Jesus Cristo a Deus e Pai”.113 A isso nos exorta ainda a própria liturgia do sacrifício eucarístico, quando nos manda rezar com estas palavras: “Concede, nós te pedimos, render-te contínuas graças 114 e não cessar jamais de louvar-te”.115 Se se deve, pois, sempre agradecer a Deus e jamais cessar de louvá-lo, quem ousaria repreender e desaprovar a Igreja que aconselha aos seus sacerdotes 116 e aos fiéis entreterem-se ao menos um pouco de tempo depois da comunhão em colóquio com o divino Redentor, e que inseriu nos livros litúrgicos oportunas orações enriquecidas de indulgências com as quais os sagrados ministros se possam convenientemente preparar antes de celebrar e de comungar e, acabada a santa missa, manifestar a Deus a sua ação de graças? A sagrada liturgia, longe de sufocar os íntimos sentimentos particulares dos cristãos, os facilita e estimula a que sejam assimilados a Jesus Cristo e por meio dele dirigidos ao Pai; portanto ela mesma exige que aquele que se aproxima da mesa eucarística agradeça devidamente a Deus. O divino Redentor compraz-se em ouvir as nossas orações, falar conosco de coração aberto e oferecer-nos refúgio no seu Coração ardente.
Ef 5,20.
Efésios 5, 20
Matos Soares: 20 dando sempre graças a Deus e Pai, por tudo, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 dando graças sempre por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a Deus, o Pai;
Vulgata Clementina: 20 gratias agentes semper pro omnibus in nomine Domini nostri Jesu Christi Deo et Patri,
112. Esses atos próprios dos indivíduos são absolutamente necessários para aproveitar-nos mais abundantemente de todos os sobrenaturais tesouros de que é rica a eucaristia e para transmiti-los aos outros segundo as nossas possibilidades, a fim de que Cristo Senhor consiga em todas as almas a plenitude de sua virtude. Por que, pois, veneráveis irmãos; não louvaremos aqueles que, recebido o alimento eucarístico, ainda depois que se dissolveu oficialmente a assembléia cristã, se demoram em íntima familiaridade com o divino Redentor, não só para tratar docemente com ele, mas ainda para agradecê-lo, louvá-lo e especialmente para pedir-lhe ajuda, e, assim, afastar de sua alma tudo quanto possa diminuir a eficácia do sacramento, ao passo que se aproveita de tudo o que logra favorecer a atualíssima ação de Jesus? Antes, nós os exortamos a fazê-lo, de modo particular, quer traduzindo na prática os propósitos concebidos e exercitando as virtudes cristãs, quer adaptando às próprias necessidades quanto tenham recebido com real liberalidade. Falava deveras segundo os preceitos e espírito da liturgia o autor do áureo livrinho a “Imitação de Cristo”, quando aconselhava a quem tivesse comungado: “Recolhe-te em segredo e goza de teu Deus para que possuas aquele que o mundo inteiro não poderá tirar-te”.117
113. Assim, pois, intimamente unidos a Cristo, procuremos todos mergulhar em sua santíssima alma e unir-nos com ele para participar dos atos de adoração com os quais ele oferece à Trindade Augusta a homenagem mais grata e aceita; aos atos de louvor e de ação de graças que ele oferece ao Pai Eterno e a que faz eco o cântico do céu e da terra: “Bendigam ao Senhor todas as suas obras”; 118 participando dos atos, imploremos a ajuda celeste no momento mais oportuno para pedir e obter socorro em nome de Cristo 119 mas, sobretudo, ofereçamo-nos e imolemo-nos como vítimas clamando: “Faze que sejamos oferta eterna a ti”,120
Dn 3,57.
Daniel 3, 57
Matos Soares: 57 Obras do Senhor, bem-dizei todas o Senhor, louvai-o e exaltai-o por todos os séculos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 57 Bendito és tu no firmamento do céu, digno de louvor e glorificado para sempre!
Vulgata Clementina: 57 Benedicite, omnia opera Domini, Domino: laudate et superexaltate eum in sæcula.
Cf. Jo 16,23.
João 16, 23
Matos Soares: 23 Naquele dia, não me interrogareis sobre nada. Em verdade, em verdade, vos digo, que, se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 23 “Naquele dia vocês não me farão perguntas. Em verdade, em verdade lhes digo: tudo o que pedirem ao Pai em meu nome, ele lhes dará.
Vulgata Clementina: 23 Et in illo die me non rogabitis quidquam. Amen, amen dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis.
114. O divino Redentor repete incessantemente o seu insistente convite: “Permanecei em mim”.121 por meio do sacramento da eucaristia, Cristo fica em nós e nós ficamos em Cristo; e como Cristo, permanecendo em nós, vive e opera, assim é necessário que nós, permanecendo em Cristo, por ele vivamos e operemos.
Jo 15,4.
João 15, 4
Matos Soares: 4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como a vara não pode de si mesma dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, a menos que permaneça na videira, assim também vocês não podem, a menos que permaneçam em mim.
Vulgata Clementina: 4 Manete in me, et ego in vobis. Sicut palmes non potest fere fructum a semetipso, nisi manserit in vite, sic nec vos, nisi in me manseritis.
IV. Adoração da eucaristia
115. Contém o alimento eucarístico, como todos sabem, “verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue junto com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo”; 122 não é de admirar, pois, se a Igreja, desde as origens adorou o corpo de Cristo sob as espécies eucarísticas, como se vê dos ritos mesmos do augusto sacrifício, com os quais se prescreve aos sagrados ministros que adorem o santíssimo sacramento com genuflexões e inclinações profundas.
116. Os sagrados concílios ensinam que, desde o início de sua vida, foi transmitido à Igreja que se deve honrar “com uma única adoração o Verbo Deus encarnado e a sua própria carne” 123; e santo Agostinho afirma: “Ninguém come esta carne sem tê-la primeiro adorado”, acrescentando que não só não pecamos adorando, antes pecamos não adorando.124
117. Desses princípios doutrinários nasceu e se foi pouco a pouco desenvolvendo o culto eucarístico da adoração, distinto do santo sacrifício. A conservação das sagradas espécies para os enfermos e para todos os que viessem a encontrar-se em perigo de morte, introduziu o louvável uso de adorar este alimento celeste conservado nas igrejas. Esse culto de adoração tem um válido e sólido motivo. A eucaristia, de fato, é sacrifício e é, também, sacramento; e difere dos outros sacramentos enquanto não só produz a graça, mas ainda contém de modo permanente o próprio autor da graça. Quando, por isso, a Igreja nos manda adorar a Cristo sob os véus eucarísticos e suplicar-lhe os dons sobrenaturais e terrenos de que temos sempre necessidade, manifesta a fé viva com a qual crê presente sob aqueles véus o seu Esposo divino, manifesta-lhe o seu reconhecimento e goza da sua íntima familiaridade.
118. Nesse culto, a Igreja, no decurso dos tempos, introduziu várias formas cada dia certamente mais belas e salutares, como, por exemplo: devotas e mesmo cotidianas visitas ao divino tabernáculo; bênção do santíssimo sacramento; procissões solenes por vilas e cidades, especialmente por ocasião dos congressos eucarísticos, e adoração do augusto sacramento publicamente exposto, as quais algumas vezes duram pouco e outras vezes se prolongam por horas inteiras e até, por quarenta horas; em alguns lugares são estabelecidas durante o ano todo, por turnos, em cada Igreja; em outros lugares se continuam de dia e de noite ao cuidado de comunidades religiosas e nelas freqüentemente tomam parte também os fiéis.
119. Esses exercícios de devoção contribuíram de modo admirável para a fé e a vida sobrenatural da Igreja militante na terra, a qual, assim fazendo, se torna, de certo modo, eco da Igreja triunfante que eternamente canta o hino de louvor a Deus e ao Cordeiro “que foi imolado”.125 Por isso, a Igreja não só aprovou mas fez seus e confirmou com a sua autoridade estes exercícios devotos propagados em toda a parte no correr dos séculos.126 Eles fluem do espírito da sagrada liturgia; e por isso, desde que sejam cumpridos com o decoro, a fé e a devoção requeridas pelos sagrados ritos e pelas prescrições da Igreja, certamente ajudam muitíssimo a viver a vida litúrgica.
Ap 5,12; 7,10.
Apocalipse 5, 12
Matos Soares: 12 os quais diziam em alta voz: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 12 dizendo em alta voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e bênção!”
Vulgata Clementina: 12 dicentium voce magna: Dignus est Agnus, qui occisus est, accipere virtutem, et divinitatem, et sapientiam, et fortitudinem, et honorem, et gloriam, et benedictionem.
Apocalipse 7, 10
Matos Soares: 10 E clamavam em alta voz, dizendo: “A salvação ao nosso Deus, que está sentado sobre o trono, e ao Cordeiro!”
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 E clamavam em alta voz, dizendo: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro!”
Vulgata Clementina: 10 et clamabant voce magna, dicentes: Salus Deo nostro, qui sedet super thronum, et Agno.
120. Nem se diga que tal culto eucarístico provoca uma errônea confusão entre o Cristo histórico, como dizem, que viveu na terra, o Cristo presente no augusto sacramento do altar, e o Cristo triunfante no céu e dispensador de graças; deve-se, pelo contrário, afirmar que, desse modo, os fiéis testemunham e manifestam solenemente a fé da Igreja, com a qual se crê que um e idêntico é o Verbo de Deus e o Filho de Maria virgem, que sofreu na cruz, que está presente e oculto na eucaristia, e que reina no céu. Assim afirma são João Crisóstomo: “Quando vês a ti; apresentado (o corpo de Cristo) dize a ti mesmo: por este corpo não sou mais terra e pó, não mais escravo, porém livre: por isso, espero alcançar o céu e os bens que aí se encontram, a vida imortal, a herança dos anjos, a companhia de Cristo; este corpo transpassado pelos cravos, dilacerado pelos açoites, não foi presa da morte… Este é aquele corpo que foi ensangüentado, transpassado pela lança, do qual brotaram duas fontes salutares: uma de sangue, outra de água… Este corpo foi-nos dado para o possuir e para o comer, e isso foi conseqüência de intenso amor”.127
121. De modo particular, ademais, é muito de louvar-se o costume segundo o qual muitos exercícios de piedade entrados no uso do povo cristão, se encerram com o rito da bênção eucarística. Nada melhor nem mais vantajoso que o gesto com o qual o sacerdote, levantando ao céu o pão dos anjos, em presença da multidão cristã ajoelhada, e movendo-o em forma de cruz, invoca o Pai Celeste para que se digne volver benignamente os olhos a seu Filho crucificado por nosso amor, e, graças a ele, que quis ser nosso Redentor e irmão, difunda por sua intervenção, os seus dons celestes sobre os remidos pelo sangue imaculado do Cordeiro.128
Cf. 1 Pd 1,19.
1 Pedro 1, 19
Matos Soares: 19 mas pelo precioso sangue de Cristo, o cordeiro sem defeito e sem mancha.
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 mas com o precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito ou mancha, o sangue de Cristo,
Vulgata Clementina: 19 sed pretioso sanguine quasi agni immaculati Christi, et incontaminati:
122. Procurai, pois, veneráveis irmãos, com a vossa habitual e grande diligência, que os templos edificados pela fé e pela piedade das gerações cristãs no decurso dos séculos como um perene hino de glória a Deus onipotente e como digna habitação do nosso Redentor oculto sob as espécies eucarísticas, sejam o mais possível abertos aos sempre mais numerosos fiéis, para que eles, recolhidos aos pés de nosso Salvador, ouçam o seu dulcíssimo convite: “Vinde a mim, vós todos que estais atribulados e oprimidos, e eu vos aliviarei”.129 Os templos sejam em verdade a casa de Deus, na qual quem entra para pedir favores se alegre de tudo conseguir 130 e alcance a consolação celeste.
Mt 11,28.
Mateus 11, 28
Matos Soares: 28 Vinde a mim todos os que estais fatigados e carregados, e eu vos aliviarei.
Bíblia Portuguesa Mundial: 28 “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.
Vulgata Clementina: 28 Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos.
123. Somente assim poderá acontecer que toda a família humana se pacifique na ordem e, com inteligência e coração concordes, cante o hino da esperança e do amor: “Bom Pastor, pão verdadeiro – ó Jesus, compadece-te de nós – apascenta-nos, guarda-nos, – faze-nos contemplar a felicidade na terra dos vivos”.131
TERCEIRA PARTE
O OFÍCIO DIVINO E O ANO LITÚRGICO
I. O ofício divino
124. O ideal da vida cristã consiste em se unir cada um intimamente a Deus. Por isso, o culto que a Igreja rende ao Eterno e que se sintetiza no sacrifício eucarístico e no uso dos sacramentos é ordenado e disposto, de modo que, com o ofício divino, se estenda a todas as horas do dia, às semanas, a todo o curso do ano, a todos os tempos e a todas as condições da vida humana.
125. Tendo o divino Mestre recomendado: “É necessário rezar sempre, sem esmorecer”,132 a Igreja, obedecendo fielmente a essa recomendação, não cessa de rezar e exortar-nos com o apóstolo das gentes: “Por seu intermédio (de Jesus) ofereçamos sempre a Deus o sacrifício de louvor”.133
Lc 18, 1.
Lucas 18, 1
Matos Soares: 1 Disse-lhes também uma parábola, para mostrar que importa orar sempre e não cessar de o fazer:
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Ele também lhes contou uma parábola para mostrar que deviam orar sempre e não desanimar,
Vulgata Clementina: 1 Dicebat autem et parabolam ad illos, quoniam oportet semper orare et non deficere,
Hb 13,15.
Hebreus 13, 15
Matos Soares: 15 Ofereçamos, pois, sempre a Deus, por meio dele, um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Por meio dele, então, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, ou seja, o fruto de lábios que proclamam lealdade ao seu nome.
Vulgata Clementina: 15 Per ipsum ergo offeramus hostiam laudis semper Deo, id est, fructum labiorum confitentium nomini ejus.
126. A oração pública e coletiva endereçada a Deus por todos juntos, realizava-se na antiguidade somente em certos dias e outros momentos do dia. Contudo rezava-se não só nas reuniões públicas, mas ainda nas casas particulares e, às vezes, com os vizinhos e amigos. Bem cedo, porém, nas várias partes da cristandade, introduziu-se o uso de reservar à oração tempos particulares, por exemplo, a última hora do dia, quando o sol se esconde e se acende o lampadário; ou à primeira hora, quando termina a noite, isto é, depois do canto do galo e ao surgir do sol. Outros momentos do dia são indicados como mais próprios para a oração pela Sagrada Escritura, pelo costume tradicional hebráico e práticas cotidianas. Segundo os Atos dos Apóstolos, os discípulos de Jesus Cristo reuniam-se para orar na terceira hora, quando “ficaram todos repletos do Espírito Santo” ;134 o príncipe dos apóstolos, antes de tomar alimento, “subiu à parte superior da casa para rezar por volta da hora sexta”;135 Pedro e João “subiam ao templo para a oração na hora nona”; 136 e Paulo e Silas “louvavam a Deus à meia noite”.137
Cf. At 2,1-15.
Atos dos Apóstolos 2, 1-15
Matos Soares (Atos dos Apóstolos 2, 1-13): 1 Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos juntos no mesmo lugar. 2 De repente, veio do céu um estrondo, como de vento que soprava impetuoso, que encheu toda a casa onde estavam sentados. 3 E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, das quais pousou uma sobre cada um deles. 4 Ficaram todos cheios do Espirito Santo e começaram a falar várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. 5 Estavam então residindo em Jerusalém Judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. 6 Logo que se deu este ruído, acudiu muita gente, e ficou pasmada, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7 Estavam todos atônitos e admiravam-se, dizendo: “Porventura não são Galileus todos estes que falam? 8 Como é que os ouvimos falar cada um de nós a nossa língua materna? 9 Partos, Medos, Elamitas, os que habitam a Mesopotâmia, a Judeia, a Capadócia, o Ponto e a Asia, 10 a Frigia e a Panfília, o Egipto e várias partes da Líbia, vizinhas de Cirene, e os vindos de Roma, 11 tanto Judeus como prosélitos, Cretenses e Árabes, todos os ouvimos falar nas nossas línguas das maravilhas de Deus.” 12 Estavam todos atônitos e fora de si, dizendo uns para os outros: “Que quer isto dizer? […]
Bíblia Portuguesa Mundial (Atos dos Apóstolos 2, 1-13): 1 Ao chegar o dia de Pentecostes, estavam todos unânimes no mesmo lugar. 2 De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. 3 Apareceram-lhes línguas como de fogo, que foram distribuídas a eles, e uma pousou sobre cada um deles. 4 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. 5 Ora, habitavam em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações sob o céu. 6 Quando se ouviu este som, a multidão se ajuntou e ficou perplexa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7 Todos estavam maravilhados e perplexos, dizendo uns aos outros: “Eis que não são galileus todos estes que estão falando? 8 Como é que os ouvimos, cada um na nossa própria língua materna? 9 Partos, medos, elamitas, e os habitantes da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto, Ásia, 10 Frígia, Panfília, Egito, as partes da Líbia próximas a Cirene, visitantes de Roma, tanto judeus como prosélitos, 11 cretenses e árabes — nós os ouvimos falar em nossas línguas as obras maravilhosas de Deus!” 12 Todos estavam maravilhados e perplexos, dizendo uns aos outros: “O que significa isto?” […]
Vulgata Clementina (Atos dos Apóstolos 2, 1-13): 1 Et cum complerentur dies Pentecostes, erant omnes pariter in eodem loco: 2 et factus est repente de cælo sonus, tamquam advenientis spiritus vehementis, et replevit totam domum ubi erant sedentes. 3 Et apparuerunt illis dispertitæ linguæ tamquam ignis, seditque supra singulos eorum: 4 et repleti sunt omnes Spiritu Sancto, et cœperunt loqui variis linguis, prout Spiritus Sanctus dabat eloqui illis. 5 Erant autem in Jerusalem habitantes Judæi, viri religiosi ex omni natione quæ sub cælo est. 6 Facta autem hac voce, convenit multitudo, et mente confusa est, quoniam audiebat unusquisque lingua sua illos loquentes. 7 Stupebant autem omnes, et mirabantur, dicentes: Nonne ecce omnes isti qui loquuntur, Galilæi sunt? 8 et quomodo nos audivimus unusquisque linguam nostram in qua nati sumus? 9 Parthi, et Medi, et Ælamitæ, et qui habitant Mespotamiam, Judæam, et Cappadociam, Pontum, et Asiam, 10 Phrygiam, et Pamphyliam, Ægyptum, et partes Libyæ quæ est circa Cyrenen: et advenæ Romani, 11 Judæi quoque, et Proselyti, Cretes, et Arabes: audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. 12 Stupebant autem omnes, et mirabantur ad invicem, dicentes: Quidnam vult hoc esse? […]
At 10,9.
Atos dos Apóstolos 10, 9
Matos Soares: 9 No dia seguinte, indo eles em viagem e estando perto da cidade, subiu Pedro à parte superior da casa para fazer oração, cerca da hora sexta.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 No dia seguinte, enquanto eles estavam a caminho e se aproximavam da cidade, Pedro subiu ao terraço para orar, por volta do meio-dia.
Vulgata Clementina: 9 Postera autem die, iter illis facientibus, et appropinquantibus civitati, ascendit Petrus in superiora ut oraret circa horam sextam.
At 3,1.
Atos dos Apóstolos 3, 1
Matos Soares: 1 Pedro e João subiam (um dia) ao templo para a oração da hora nona.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Pedro e João subiam ao templo na hora da oração, a nona hora.
Vulgata Clementina: 1 Petrus autem et Joannes ascendebant in templum ad horam orationis nonam.
At 16,25
Atos dos Apóstolos 16, 25
Matos Soares: 25 Mas, pela meia-noite, Paulo e Silas oravam, cantando louvores a Deus, e os que estavam na prisão ouviam-nos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 25 Mas, por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os prisioneiros os escutavam.
Vulgata Clementina: 25 Media autem nocte Paulus et Silas orantes, laudabant Deum: et audiebant eos qui in custodia erant.
127. Essas várias orações especialmente por iniciativa e obra dos monges e dos ascetas, aperfeiçoaram-se cada dia mais, e pouco a pouco foram introduzidas no uso da sagrada liturgia por autoridade da Igreja.
128. O Ofício divino é, pois, a oração do corpo místico de Cristo, dedicada a Deus em nome de todos os cristãos e em seu beneficio, feita pelos sacerdotes, por outros ministros da Igreja e pelos religiosos delegados da própria Igreja para isso.
129. Qual deva ser o caráter e eficácia desse louvor divino, deduz-se das palavras que a Igreja sugere dizer antes de iniciar-se a oração do Ofício, prescrevendo que sejam recitadas “digna, atenta e devotamente”.
130. Assumindo a natureza humana, o Verbo de Deus introduziu no exílio terreno o hino que se canta no céu por toda a eternidade. Une a si toda a comunidade humana e a associa no canto deste hino de louvores. Confessemos com humildade que “não sabemos o que devemos convenientemente pedir, mas o próprio Espírito reza por nós com gemidos inenarráveis”. 138 E ainda Cristo, por meio do seu Espírito, invoca em nós o Pai. “Deus não poderia fazer aos homens um dom maior… reza (Jesus) por nós como nosso sacerdote; reza em nós como nossa cabeça; é invocado por nós como nosso Deus… reconheçamos, pois, as nossas vozes nele e a sua voz em nós… Rezamos a ele como a Deus, ele reza como servo: lá o Criador, aqui um ser criado, enquanto, sem sofrer mudança, tomou uma natureza mutável, fazendo de nós um só homem com ele: cabeça e corpo”.139
Rm 8,26.
Romanos 8, 26
Matos Soares: 26 O Espírito ajuda também a nossa fraqueza, porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 26 Da mesma forma, o Espírito também nos ajuda em nossas fraquezas, pois não sabemos como orar como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
Vulgata Clementina: 26 Similiter autem et Spiritus adjuvat infirmitatem nostram: nam quid oremus, sicut oportet, nescimus: sed ipse Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus.
131. A excelsa dignidade dessa oração da Igreja deve corresponder a intensa devoção da nossa alma e, visto que a voz do orante repete os poemas escritos por inspiração do Espírito Santo, que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os devidos louvores e ações de graças: “Devemos salmodiar de modo que a nossa mente concorde com a nossa voz”. 140 Não se trata, pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da nossa mente e da nossa alma a Deus para que nos consagremos, nós e todas as nossas ações, a ele, unidos com Jesus Cristo.
132. Disso depende certamente, em não pequena parte, a eficácia das orações, as quais, se não se dirigem ao próprio Verbo feito homem, concluem com estas palavras: “Por nosso Senhor Jesus Cristo” que, mediador entre nós e Deus, mostra ao Pai celeste os seus estigmas gloriosos, “sempre viva para interceder por nós”.141
Hb 7,25.
Hebreus 7, 25
Matos Soares: 25 Por isso pode salvar perpetuamente os que por ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder em seu favor.
Bíblia Portuguesa Mundial: 25 Portanto, ele também é capaz de salvar perfeitamente aqueles que se aproximam de Deus por meio dele, visto que vive para sempre para interceder por eles.
Vulgata Clementina: 25 Unde et salvare in perpetuum potest accedentes per semetipsum ad Deum: semper vivens ad interpellandum pro nobis.
133. Os salmos, como todos sabem, constituem parte principal do Oficio divino. Eles abrangem todo o curso do dia e lhe dão um contato e um ornamento de santidade. Cassiodoro disse belamente a propósito dos salmos distribuídos no Oficio divino do seu tempo: “Eles… com júbilo matutino nos tornam favorável o dia que está para começar, santificam a primeira hora do dia, consagram a terceira hora, alegram a sexta na fração do pão, assinalam, à nona, o fim do jejum, concluem o término do dia e impedem o nosso espírito de obscurecer-se ao avizinhar-se a noite”.142
134. Eles lembram as verdades reveladas por Deus ao povo eleito, às vezes terríveis, às vezes impregnadas de suavíssima doçura; repetem e acendem a esperança no Libertador prometido que outrora era animada com o canto em torno da lareira doméstica e na própria majestade do templo; põem em maravilhosa luz a profetizada glória de Jesus Cristo e o seu sumo e eterno poder, a sua vinda e o seu aniquilamento neste exílio terreno, a sua dignidade real e o seu poder sacerdotal, as suas benéficas fadigas e o seu sangue derramado pela nossa redenção. Exprimem igualmente a alegria das nossas almas, a tristeza, a esperança, o temor, a correspondência do amor e o abandono a Deus qual mística ascensão para os divinos tabernáculos.
135. “O salmo… é a bênção do povo, o louvor de Deus, o elogio do povo, o aplauso de todos, a linguagem geral, a voz da Igreja, a harmoniosa confissão de fé, o pleno devotamento à autoridade, a alegria da liberdade, o grito de entusiasmo, o eco da alegria.”143
136. Na antiguidade, a assistência dos fiéis a essas orações do Ofício era maior; mas gradativamente diminuiu como dissemos; e como acabamos de dizer, a sua recitação atualmente é reservada ao clero e aos religiosos. Em rigor de lei, nada é prescrito aos leigos nesta matéria, mas é muito de desejar que eles tomem parte ativa no canto ou na recitação do Oficio de Vésperas nos dias festivos, na própria paróquia. Recomendamos vivamente, veneráveis irmãos, a vós e aos vossos féis que não cesse este piedoso hábito e que, se possível, se ponha em vigor onde tiver desaparecido. Isso acontecerá certamente com frutos salutares se as Vésperas forem cantadas não só digna e decorosamente mas de maneira que nutra suavemente de vários modos a piedade dos fiéis. Seja sagrada a observância dos dias festivos que devem ser dedicados e consagrados a Deus de modo particular; e; sobretudo, do domingo, que os apóstolos, instruídos pelo Espírito Santo, substituíram ao sábado. Se foi ordenado aos judeus: “Trabalhareis durante seis dias; no sétimo dia que é sábado, repouso santo do Senhor, quem trabalhar neste dia será condenado à morte”;144 como não terão a morte espiritual aqueles cristãos que fazem obra servil nos dias festivos e durante o repouso festivo não se dedicam à piedade nem à religião, mas se abandonam demasiadamente aos atrativos deste século? O domingo e os dias festivos devem ser consagrados ao culto divino com o qual se adora a Deus e a alma se nutre do alimento celeste; e se bem que a Igreja prescreva somente que os fiéis devam abster-se do trabalho servil e devam assistir ao sacrifício eucarístico, e não dê nenhum preceito para o culto vespertino, note-se que, além dos preceitos existem também suas insistentes recomendações e desejos, o que ainda mais é exigido pela necessidade que todos têm de tornar propício o Senhor para impetrar benefícios. Contrista-se profundamente nossa alma ao ver como em nossos tempos o povo cristão passa a tarde do dia festivo: enchem-se os lugares de espetáculos públicos e de jogos, enquanto as igrejas são menos freqüentadas do que conviria. Mas é necessário, sem dúvida, que todos vão aos nossos templos para ser instruídos na verdade da fé “católica, para cantar os louvores de Deus, para serem enriquecidos pelo sacerdote com a bênção eucarística e munidos do auxílio celeste contra a adversidade da vida presente. Procurem todos aprender as fórmulas que se cantam nas Vésperas e penetrar-lhes o íntimo sentido; sob o influxo dessas orações experimentarão aquilo que santo Agostinho afirmava de si mesmo:”Quanto chorei entre hinos e cânticos, vivamente comovido pelo canto suave da tua Igreja! Aquelas vozes ressoavam nos meus ouvidos, instilavam a verdade no meu coração, em mim ardiam sentimentos de devoção, e as lágrimas corriam, fazendo-me bem”.145
Ex 31,15.
Êxodo 31, 15
Matos Soares: 15 Vós trabalhareis seis dias, (mas) o sétimo é dia de completo descanso, consagrado ao Senhor; todo o que trabalhar neste dia, será punido de morte.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Seis dias o trabalho será feito, mas o sétimo dia é um sábado de descanso solene, santo ao SENHOR. Qualquer que fizer algum trabalho no dia de sábado certamente será morto.
Vulgata Clementina: 15 Sex diebus facietis opus: in die septimo sabbatum est, requies sancta Domino; omnis qui fecerit opus in hac die, morietur.
II. Ciclo dos mistérios do ano litúrgico
137. Durante todo o correr do ano a celebração do sacrifício eucarístico e o Oficio divino se desenvolvem sobretudo em torno da pessoa de Jesus Cristo e se organizam de modo tão harmonioso e adequado que faz dominar o nosso Salvador nos seus mistérios de humilhação, de redenção e de triunfo.
138. Evocando esses mistérios de Jesus Cristo, a sagrada liturgia visa a fazer deles participar todos os crentes de modo que a divina Cabeça do corpo místico viva na plenitude da sua santidade nos membros. Sejam as almas dos cristãos como altares nos quais se repetem e se reavivam as várias fases do sacrifício que o sumo Sacerdote imola; isto é, as dores e as lágrimas que lavam e expiam os pecados; a oração dirigida a Deus que se eleva até o céu; a própria imolação feita com ânimo pronto, generoso e solícito e, enfim, a íntima união com a qual nos abandonamos, nós e nossas coisas a Deus e nele repousamos “sendo o essencial da religião imitar aquele que adoras”. 146
139. Conforme esses modos e motivos com os quais a liturgia propõe à nossa meditação em tempos fixos a vida de Jesus Cristo, a Igreja nos mostra os exemplos que devemos imitar e os tesouros de santidade que fazemos nossos, porque é necessário crer com a mente aquilo que se canta com a boca, e traduzir na prática dos costumes particulares e públicos o que se crê com a mente.
140. Com efeito, no tempo do advento, excita em nós a consciência dos pecados miseramente cometidos; e nos exorta a fim de que, refreando os desejos com a mortificação voluntária do corpo, nos recolhamos em pia meditação e sejamos impelidos pelo desejo de voltar a Deus que, só ele, pode com a sua graça libertar-nos da mancha dos pecados e dos males que nos afligem.
141. Na ocorrência do Natal do Redentor parece quase reconduzir-nos à gruta de Belém para que aí aprendamos que é absolutamente necessário nascer de novo e reformar-nos radicalmente, o que só é possível quando nos unimos íntima e vitalmente ao Verbo de Deus feito homem e nos tornamos participantes da sua divina natureza à qual fomos elevados.
142. Com a solenidade da Epifania, recordando a vocação das gentes à fé cristã, quer que agradeçamos cada dia ao Senhor por tão grande benefício, desejemos com grande fé o Deus vivo, compreendamos com devoção e profundamente as coisas sobrenaturais e amemos o silêncio e a meditação para poder facilmente compreender e conseguir os dons celestes.
143. Nos dias da Septuagésima e da Quaresma, a Igreja, nossa mãe, multiplica os seus cuidados para que diligencie cada qual por se compenetrar da sua miséria, ativamente se incite à emenda dos costumes, e deteste de modo particular os pecados, suprimindo-os com a oração e a penitência, já que a assídua oração e a penitência dos pecados cometidos nos obtêm o auxílio divino sem o qual é inútil e estéril toda obra nossa. No tempo sagrado em que a liturgia nos propõe as atrozes dores de Jesus Cristo, a Igreja nos convida ao Calvário, a seguir as pegadas sanguinolentas do divino Redentor a fim de que de bom grado carreguemos a cruz com ele, tenhamos em nós os mesmos sentimentos de expiação e de propiciação e juntos morramos todos com ele.
144. Na solenidade pascal, que comemora o triunfo de Cristo, sente-se a nossa alma penetrada de íntima alegria, e devemos oportunamente pensar que também nós, junto com o Redentor, surgiremos, de uma vida fria e inerte para uma vida mais santa e fervorosa, a Deus oferecendo-nos todos, com generosidade e esquecendo-nos desta mísera terra para só aspirar ao céu: “Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas supernas, aspirai às coisas do alto”.147
Col 3,1-2.
Colossenses 3, 1-2
Matos Soares: 1 Portanto, se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está sentado à dextra de Deus; 2 afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, não às que estão sobre a terra.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as coisas lá do alto, onde Cristo está, assentado à direita de Deus. 2 Pensem nas coisas lá do alto, não nas coisas que são da terra.
Vulgata Clementina: 1 Igitur, si consurrexistis cum Christo: quæ sursum sunt quærite, ubi Christus est in dextera Dei sedens: 2 quæ sursum sunt sapite, non quæ super terram.
145. No tempo de Pentecostes, finalmente, exorta nossa Igreja, com os seus preceitos e a sua obra, a oferecer-nos docilmente à ação do Espírito Santo, o qual quer acender em nossos corações a divina caridade para progredirmos na virtude com maior empenho, e assim nos santificar, como são santos Cristo Senhor e o seu Pai Celeste.
146. Todo o ano litúrgico, assim, pode dizer-se um magnífico hino de louvor que a família cristã dirige ao Pai celeste por meio de Jesus, seu eterno mediador; mas requer de nós ainda um cuidado diligente e bem ordenado para conhecer e louvar sempre mais o nosso Redentor; um esforço intenso e eficaz, um adestramento incansável para imitar os seus mistérios, entrar voluntariamente no caminho de suas dores, e participar, finalmente, de sua glória e eterna beatitude.
147. De quanto foi exposto aparece claramente, veneráveis irmãos, quanto estejam longe do verdadeiro e genuíno conceito da liturgia escritores modernos, que, enganados por uma pretensa disciplina mística mais alta, ousam afirmar que não nos devemos concentrar no Cristo histórico mas no Cristo “pneumático e glorificado”; e não duvidam asseverar que na piedade dos fiéis se tenha verificado certa mudança, pela qual Cristo foi como que destronado com o apegamento de Cristo glorificado que vive e reina nos séculos dos séculos, assentado à direita do Pai, enquanto em seu lugar foi colocado o Cristo da vida terrena. Alguns, por isso, chegam ao ponto de querer tirar das Igrejas as imagens do divino Redentor que sofre na cruz.
148. Mas essas falsas opiniões são de todo contrárias à sagrada doutrina tradicional. “Crê em Cristo nascido na carne – diz santo Agostinho – e chegarás a Cristo nascido de Deus, Deus de Deus”.148 A sagrada liturgia, ademais, nos propõe todo o Cristo, nos vários aspectos de sua vida; isto é, Cristo que é Verbo do Eterno Pai, que nasce da virgem Mãe de Deus, que nos ensina a verdade, que cura os enfermos, que consola os aflitos, que sofre, que morre; que, enfim, ressurge triunfante da morte; que, reinando na glória do céu, nos envia o Espírito Paráclito e vive sempre na sua Igreja: “Jesus Cristo ontem e hoje: ele por todos os séculos”. 149 E, além disso, não no-lo apresenta somente como um exemplo a imitar mas ainda como um mestre a ouvir, um pastor a seguir, como mediador da nossa salvação, princípio da nossa santidade e Cabeça mística de que somos membros, vivendo da sua própria vida.
Hb 13,8.
Hebreus 13, 8
Matos Soares: 8 Jesus Cristo é sempre o mesmo, ontem e hoje; ele o será também por todos os séculos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Vulgata Clementina: 8 Jesus Christus heri, et hodie: ipse et in sæcula.
149. E assim como as suas acerbas dores constituem o mistério principal de que provém a nossa salvação, é conforme às exigências da fé católica, colocar isto na sua máxima luz, porque é como o centro do culto divino, por ser o sacrifício eucarístico a sua cotidiana representação e renovação, e estarem todos os sacramentos unidos com estreitíssimo vínculo à cruz.150
150. Assim o ano litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem!151 com o fim de colocar as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação. Acresce que a pia Madre Igreja, enquanto propôs à nossa contemplação os mistérios de Cristo, invoca com as suas preces os dons sobrenaturais pelos quais os seus filhos se compenetram do espírito desses mistérios por virtude de Cristo. Por influxo e virtude dele podemos, com a colaboração da nossa vontade, assimilar a força vital como ramos da árvore, como membros da cabeça, e progressiva e laboriosamente transformar-nos “segundo a medida da idade plena de Cristo”.152
Cf. At 10, 38.
Atos dos Apóstolos 10, 38
Matos Soares: 38 Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré, o qual andou, de lugar em lugar, fazendo bem e sarando todos os oprimidos do demônio, porque Deus era com ele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 38 como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele.
Vulgata Clementina: 38 Jesum a Nazareth: quomodo unxit eum Deus Spiritu Sancto, et virtute, qui pertransiit benefaciendo, et sanando omnes oppressos a diabolo, quoniam Deus erat cum illo.
Ef 4,13.
Efésios 4, 13
Matos Soares: 13 até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo a estatura própria da plenitude de Cristo,
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, chegando a ser um homem maduro, à medida da estatura da plenitude de Cristo;
Vulgata Clementina: 13 donec occurramus omnes in unitatem fidei, et agnitionis Filii Dei, in virum perfectum, in mensuram ætatis plenitudinis Christi:
III. As festas dos santos
151. No decurso do ano litúrgico relembram-se não só os mistérios de Jesus Cristo, mas ainda as festas dos santos, nas quais, se bem que se trate de uma ordem inferior e subordinada, a Igreja tem sempre a preocupação de propor aos fiéis exemplos de santidade que os levem a adornar-se das mesmas virtudes do Divino Redentor. É necessário, com efeito, que imitemos as virtudes dos santos, nas quais brilha, de modo vário, a própria virtude de Cristo, porque dele foram imitadores, visto que, em alguns fulgiu o zelo do apostolado; em outros se demonstrou a fortaleza dos nossos heróis até a efusão do sangue; em outros brilhou a constante vigilância na espera do Redentor; em outros resplandeceu o candor virginal da alma e a modesta doçura da humildade cristã; em todos arde uma fervidíssima caridade para com Deus e para com o próximo. A liturgia põe diante de nossos olhos todos esses belos ornamentos de santidade, para que salutarmente os olhemos e para que “nós que gozamos dos seus méritos sejamos inflamados pelos seus exemplos”. 153 É necessário, pois, conservar “a inocência na simplicidade”, a concórdia na caridade, a modéstia na humildade, a diligência no governo, a atenção em ajudar o que sofre, a misericórdia em cuidar dos pobres, a constância em defender a verdade, a justiça na severidade da disciplina, para que não falte em nós nenhuma de todas as virtudes que nos foram propostas para exemplo. Essas são as pegadas que os santos, na sua volta à pátria nos deixaram, para, palmilhando os seus caminhos, podermos segui-los na bem-aventurança… 154 E para salutarmente impressionar também os nossos sentidos, quer a Igreja que em nossos templos estejam expostas as imagens dos santos, sempre, porém, com o mesmo fim, isto é, que “imitemos as virtudes daqueles cujas imagens veneramos”.155
153. Mas há ainda outro motivo no culto do povo cristão aos santos: o de implorar a sua ajuda, e o de “ser amparados pelo patrocínio daqueles em cujo louvor nos deleitamos”. 156 Disso facilmente se deduz o porquê das numerosas fórmulas de oração que a Igreja nas propõe para invocar a proteção dos santos.
154. Entre os santos há um culto proeminente a Maria virgem Mãe de Deus. A sua vida, pela missão comada por Deus, está estreitamente inserida nos mistérios de Jesus Cristo e ninguém, certamente, mais do que ela, seguiu tão de perto e com maior eficácia, as pegadas do Verbo encarnado, ninguém goza de maior graça e poder junto do coração sacratíssimo do Filho de Deus e, através do Filho, junto do Pai celeste ela é mais santa do que os querubins e os serafins e, sem nenhuma comparação, mais gloriosa do que todos os outros santos, porque é “cheia de graça”, 157 Mãe de Deus, e por nos haver dado, com o seu parto feliz, o Redentor. A ela, que é “mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa” recorramos todos nós “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.158 À sua proteção, entreguemo-nos confiantes, nós e todas as nossas coisas. Ela se tornou nossa mãe quando o divino Redentor cumpria o sacrifício de si mesmo, e por isso, ainda por esse título, somos seus filhos. Ela nos ensina todas as virtudes, dá-nos seu Filho e, com ele, todos os auxílios que nos são necessários, porque Deus “quis que tudo nos viesse por meio de Maria”.159
Luc.1, 28.
Lucas 1, 28
Matos Soares: 28 Entrando o anjo onde ela estava, disse-Ihe: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 28 Tendo entrado, o anjo lhe disse: “Alegre-se, você que é altamente favorecida! O Senhor está com você. Bendita é você entre as mulheres!”
Vulgata Clementina: 28 Et ingressus angelus ad eam dixit: Ave gratia plena: Dominus tecum: benedicta tu in mulieribus.
155. Por esse caminho litúrgico que nos é, cada ano, aberto de novo, sob a ação santificadora da Igreja, confortados com os auxílios e os exemplos dos santos, sobretudo da imaculada virgem Maria, “aproximemo-nos com sincero coração, com plenitude de fé, purificado o coração da consciência de culpa e lavado o corpo com água pura”, 160 do “grande Sacerdote”,161 para viver e sentir com ele e penetrar por seu intermédio “até além do véu” 162 e aí honrar o Pai celeste por toda a eternidade.
Hb 10,22.
Hebreus 10, 22
Matos Soares: 22 aproximemo-nos (de Deus) com um coração sincero, com plenitude de fé, purificados os corações de todo o mal de que tivermos consciência, e lavado o corpo com uma água limpa (do batismo). (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 22 aproximemo-nos com coração sincero, em plena certeza de fé, tendo o coração aspergido, livre de uma consciência má, e o corpo lavado com água pura,
Vulgata Clementina: 22 accedamus cum vero corde in plenitudine fidei, aspersi corda a conscientia mala, et abluti corpus aqua munda,
Hb 10,21.
Hebreus 10, 21
Matos Soares: 21 e tendo um pontífice que preside à casa de Deus,
Bíblia Portuguesa Mundial: 21 e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus,
Vulgata Clementina: 21 et sacerdotem magnum super domum Dei:
Hb 6, 19
Hebreus 6, 19
Matos Soares: 19 a qual temos como uma âncora segura e firme da alma, e que penetra até além do véu, no interior do santuário (celeste)
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Temos essa esperança como âncora da alma, segura e firme, que entra até o interior do véu,
Vulgata Clementina: 19 quam sicut anchoram habemus animæ tutam ac firmam, et incedentem usque ad interiora velaminis,
156. Tal é a essência e a razão de ser da sagrada liturgia. Ela cuida do sacrifício, dos sacramentos e do louvor a Deus; da união das nossas almas com Cristo e da santificação por meio do divino Redentor, afim de ser honrado Cristo e, por ele e nele, a Santíssima Trindade. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
QUARTA PARTE
DIRETRIZES PASTORAIS
I.. Não se descuidem as outras formas de piedade
157. Para afastar da Igreja os erros e os exageros de que acima falamos e para que possam os fiéis, guiados por mais seguras normas, praticar o apostolado litúrgico com abundantes frutos, achamos oportuno, veneráveis irmãos, acrescentar alguma coisa para a prática da doutrina exposta.
158. Tratando da genuína piedade, afirmamos que entre a liturgia e os outros atos de religião – desde que sejam retamente ordenados e tendam ao justo fim – não pode haver verdadeiro contraste; há, até, alguns exercícios de piedade que a Igreja recomenda grandemente ao clero e aos religiosos.
159. Ora, desejamos que também o povo cristão não fique alheio destes exercícios. Estes são – para falar apenas dos principais – a meditação de assuntos espirituais, o exame de consciência, os retiros espirituais, instituídos para a reflexão mais intensa das verdades eternas, a visita ao santíssimo sacramento e as orações particulares em honra da bem-aventurada virgem Maria, entre as quais excele, como todos sabem, o rosário.163
160. A essas múltiplas formas de piedade não pode ser estranha a inspiração e a ação do Espírito Santo; elas, com efeito – se bem que de várias maneiras – visam todas a voltar e dirigir para Deus as nossas almas, porque as purificam dos pecados, as dispõem à conquista da virtude e as estimulam à verdadeira piedade, habituando-as à meditação das verdades eternas, e tornando-as mais capazes da contemplação dos mistérios da natureza humana e divina de Cristo. Além disso, nutrindo intensamente nos fiéis a vida espiritual, preparam-nos para participar das sagradas funções com fruto maior, e evitam o perigo de se reduzirem as orações litúrgicas a um ritualismo vão.
161. Não vos canseis, pois, veneráveis irmãos, no vosso zelo pastoral, recomendando e encorajando esses exercícios de piedade, dos quais brotam sem dúvida para o povo que vos foi confiado frutos salutares. Sobretudo, não permitais – como alguns pretendem, ou com a desculpa de renovação da liturgia, ou falando com leviandade de uma eficácia e dignidade exclusivas dos ritos litúrgicos – que as Igrejas sejam fechadas durante as horas não destinadas às funções públicas, como já acontece em algumas regiões; que a adoração e a visita ao santíssimo sacramento sejam menosprezadas; que se desaconselhe a confissão dos pecados feita com o fim único de devoção; que se desleixe, especialmente entre a juventude, o culto da virgem Mãe de Deus, que, no dizer dos santos, é sinal de predestinação. São esses frutos envenenados, sumamente nocivos à piedade cristã, que repontam de ramos infectos de uma árvore sã; é necessário, por isso, extirpá-los, para que a seiva da árvore possa nutrir somente frutos agradáveis e ótimos.
162. Visto que as opiniões manifestadas por alguns a propósito da confissão freqüente são de todo alheias ao Espírito de Cristo e de sua esposa imaculada, e verdadeiramente funestas para a vida espiritual, recordamos o que a propósito escrevemos, com pesar, na encíclica “Mystici Corporis”; e insistimos de novo para que proponhais à séria meditação e à dócil atuação dos vossos rebanhos e especialmente dos candidatos ao sacerdócio e do jovem clero, quanto ali vos dissemos em graves palavras.
163. Zelai, pois, de modo particular, para que muitíssimos, não só do clero mas ainda do laicato, e especialmente os pertencentes aos sodalícios religiosos e às fileiras da Ação católica, tomem parte nos retiros mensais e nos exercícios espirituais realizados em determinados dias para incrementar a piedade. Como dissemos acima, esses exercícios espirituais são utilíssimos e até necessários, para instilar nas almas a genuína piedade, e para formá-las à santidade, de modo que possam haurir da sagrada liturgia benefícios mais eficazes e abundantes.
164. Quanto aos vários modos sob os quais se costuma praticar esses exercícios, fique bem conhecido e claro a todos, que na Igreja terrena, como na celeste, há “muitas moradas”; 164 e que a ascética não pode ser monopólio de ninguém. Um é o Espírito, o qual, porém, “sopra onde quer”;165 e com diversos dons e por diversas vias dirige as almas por ele iluminadas à consecução da santidade. A sua liberdade e a ação sobrenatural do Espírito Santo nelas seja coisa sacrossanta, que a ninguém é lícito, a nenhum título, perturbar e conculcar.
Cf. Jo 14,2.
João 14, 2
Matos Soares: 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito. Vou preparar um lugar para vós.
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar um lugar para vocês.
Vulgata Clementina: 2 In domo Patris mei mansiones multæ sunt; si quominus dixissem vobis: quia vado parare vobis locum.
Jo 3,8.
João 3, 8
Matos Soares: 8 O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde ele vem, nem para onde vai, assim é todo aquele que nasceu do Espírito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 O vento sopra onde quer, e você ouve o seu som, mas não sabe de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito.”
Vulgata Clementina: 8 Spiritus ubi vult spirat, et vocem ejus audis, sed nescis unde veniat, aut quo vadat: sic est omnis qui natus est ex spiritu.
165. É sabido, entretanto, que os exercícios espirituais de santo Inácio foram plenamente aprovados e insistentemente recomendados pelos nossos predecessores por causa de sua admirável eficácia; e nós, também, pela mesma razão, os aprovamos e recomendamos, como presentemente com prazer o tornamos a fazer.
166. É absolutamente necessário, porém, que a inspiração a seguir e praticar determinados exercícios de piedade, venha do Pai das luzes, do qual provém todo bem, e todo dom perfeito;166 e disso será índice a eficácia com a qual servirão para que o culto divino seja sempre mais amado e amplamente promovido, e os fiéis sejam solicitados por um mais intenso desejo à participação dos sacramentos e à devida honra e respeito de todas as coisas sagradas. Se eles, ao contrário, se transformassem em obstáculo ou se revelassem em contraste com os princípios e normas do culto divino, então sem dúvida se deveria tê-los como não ordenados por pensamento reto, nem guiados por zelo iluminado.
Cf. Tg 1,17.
Tiago 1, 17
Matos Soares: 17 Toda a dádiva excelente, todo o dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem sombra de vicissitude.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode haver variação nem sombra de mudança.
Vulgata Clementina: 17 Omne datum optimum, et omne donum perfectum desursum est, descendens a Patre luminum, apud quem non est transmutatio, nec vicissitudinis obumbratio.
167. Além disso, há outros exercícios de piedade que, se bem não pertençam a rigor e de direito à sagrada liturgia, se revestem de particular dignidade e importância, de modo que são tidos por insertos no quadro litúrgico, e gozam de repetidas aprovações e louvores desta Sé Apostólica e dos bispos. Entre esses se devem enumerar as orações que se costuma fazer durante o mês de maio em honra da virgem Mãe de Deus, ou durante o mês de junho em honra do sacratíssimo coração de Jesus, os tríduos e novenas, a “Via sacra” e outros semelhantes.
168. Essas piedosas práticas, que exercitam o povo cristão a uma assídua freqüência do sacramento da penitência e a uma devota participação no sacrifício eucarístico e na mesa divina, como também à meditação dos mistérios da nossa Redenção e à imitação dos grandes exemplos dos santos, por isso mesmo contribuem com fruto salutar para a nossa participação no culto litúrgico.
169. Por isso faria obra perniciosa e de todo errônea quem ousasse temerariamente assumir a reforma desses exercícios de piedade, para enquadrá-los apenas nos esquemas litúrgicos. É necessário, todavia, que o espírito da sagrada liturgia e os seus preceitos influam beneficamente neles, para evitar que aí se introduza algo de inepto ou de indigno ao decoro da casa de Deus, ou seja em detrimento das sagradas funções e contrário à sã piedade.
170. Cuidai, pois, veneráveis irmãos, para que essa pura e genuína piedade prospere sob os vossos olhos, e floresça sempre mais. Não vos canseis, sobretudo, de inculcar a cada um que a vida cristã não consiste na multiplicidade e variedade das orações e dos exercícios de piedade, mas acima de tudo em que eles contribuam realmente para o progresso espiritual dos fiéis e ao incremento de toda a Igreja, porquanto o Pai Eterno “nos elegeu nele (Cristo) antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados na sua presença”. 167 Devem, pois, tender todas as nossas orações e todas as nossas práticas devotas a dirigir todos os nossos recursos espirituais à realização desse supremo e nobilíssimo fim.
Ef 1,4.
Efésios 1, 4
Matos Soares: 4 escolhendo-nos nele, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados, a seus olhos,
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor,
Vulgata Clementina: 4 sicut elegit nos in ipso ante mundi constitutionem, ut essemus sancti et immaculati in conspectu ejus in caritate.
II. Espírito litúrgico e apostolado litúrgico
171. Nós vos exortamos instantemente, veneráveis irmãos, a que, desfeitos os erros e a falsidade, e proibido tudo o que está fora da verdade e da ordem, promovais as iniciativas que dão ao povo um mais profundo conhecimento da sagrada liturgia, de modo que ele possa mais adequada e mais facilmente participar dos ritos divinos, com disposição verdadeiramente cristã.
172. É necessário, antes de tudo, empenhar-vos por que todos obedeçam com a devida reverência e fé aos decretos publicados pelo concílio de Trento, pelos pontífices romanos, pela Congregação dos ritos, e a todas as disposições dos livros litúrgicos naquilo que respeita à ação externa do culto público.
173. Em todas as coisas da liturgia devem brilhar sobretudo estes três ornamentos de que fala o nosso predecessor Pio X: a santidade, que rejeita toda influência profana; a nobreza das imagens e das formas, às quais serve toda arte genuína e superior; a universalidade, enfim, a qual – conservando os legítimos usos e costumes regionais – exprime a unidade católica da Igreja.168
174. Desejamos e recomendamos calorosamente, ainda uma vez, o decoro dos sagrados edifícios e altares. Sinta-se cada um animado pela palavra divina: “O zelo de tua casa me devora”169 e se empenhe segundo as suas forças para que tudo, quer nos sagrados edifícios, quer nas vestes e nas alfaias litúrgicas, ainda que não brilhe por excessiva riqueza e esplendor, seja, todavia, apropriado e limpo, estando tudo consagrado à divina Majestade. Se já reprovamos, acima, o modo não reto de proceder daqueles que, a pretexto de restaurar o antigo, querem excluir dos templos as imagens sagradas temos que é nossa obrigação repreender a piedade não bem formada daqueles que, nas Igrejas e em seus próprios altares, propõem à veneração, sem justo motivo, múltiplos simulacros e efígies; daqueles que expõem relíquias não reconhecidas pela legítima autoridade; daqueles, enfim, que insistem em coisas particulares e de pouca importância, enquanto descuram as principais e necessárias, e, assim, tornam ridícula a religião, e envilecem a gravidade do culto.
Sl 68,10; Jo 2,17.
Salmos 68, 10
Matos Soares: 10 e por causa do zelo pela casa de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial (Salmos 69, 9): 9 Pois o zelo pela sua casa me consome. As afrontas daqueles que o afrontam caíram sobre mim.
Vulgata Clementina: 10 Quoniam zelus domus tuæ comedit me, et opprobria exprobrantium tibi ceciderunt super me.
João 2, 17
Matos Soares: 17 Então lembraram-se seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa devorou-me (Ps. 68, 10).
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Seus discípulos lembraram-se de que estava escrito: “O zelo pela tua casa me consumirá.”
Vulgata Clementina: 17 Recordati sunt vero discipuli ejus quia scriptum est: Zelus domus tuæ comedit me.
175. Lembramos ainda o decreto “sobre novas formas de culto e de devoção a não introduzir”,170 cuja religiosa observância recomendamos à vossa vigilância.
176. Quanto à música, observem-se escrupulosamente as determinadas e claras normas emanadas desta Sé Apostólica. O canto gregoriano que a Igreja romana considera coisa sua, porque recebido da antiga tradição e guardado no correr dos séculos sob a sua cuidadosa tutela e que propõe aos fiéis como coisa também deles, prescrito como é de modo absoluto em algumas partes da liturgia,171 não só acrescenta decoro e solenidade à celebração dos divinos mistérios, antes contribui extremamente até para aumentar a fé e a piedade dos assistentes. A esse propósito nossos predecessores de imortal memória, Pio X e Pio XI, estabeleceram – e nós de bom grado confirmamos com a nossa autoridade as disposições por eles dadas – que nos seminários e nos Institutos religiosos seja cultivado com estudo e diligência o canto gregoriano, e que, ao menos nas Igrejas mais importantes, sejam restauradas as antigas “Scholae cantorum”; como já foi feito com feliz resultado em não poucos lugares.172
177. Além disso, “para que os féis participem mais ativamente do culto divino, seja restaurado o canto gregoriano até no uso popular na parte que respeita ao povo. E urge verdadeiramente que os fiéis assistam às sagradas cerimônias não como espectadores mudos e estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia… que alternem, segundo as normas prescritas, sua voz com a voz do sacerdote e dos cantores; se isso graças a Deus se verificar, então não acontecerá mais que o povo responda apenas com um leve e submisso murmúrio às orações comuns ditas em latim e em língua vulgar”.173 A multidão que assiste atentamente ao sacrifício do altar, no qual nosso Salvador, junto com os seus filhos remidos pelo seu sangue, canta o epitalâmio da sua imensa caridade, certamente não poderá calar, pois “cantar é próprio de quem ama”,174 e como já dizia o provérbio antigo: “Quem canta bem, reza duas vezes”. Assim, a Igreja militante, clero e povo juntos, une a sua voz aos cantos da Igreja triunfante e aos coros angélicos, e todos juntos cantam um magnífico e eterno hino de louvor à Santíssima Trindade, como está escrito: “Com os quais te imploramos que sejam ouvidas ainda as nossas vozes”.175
178. Não se pode, todavia, asseverar que a música e o canto moderno devam ser de todo excluídos do culto católico. Aliás, se nada têm de profano e de inconveniente à santidade do lugar e da ação sagrada, nem derivam de uma procura vã de efeitos extraordinários, certamente devemos abrir-lhes as portas de nossas Igrejas, podendo ambos contribuir não pouco para o esplendor dos ritos sagrados, para a elevação das mentes e, ao mesmo tempo, para a verdadeira devoção.
179. Nós vos exortamos ainda, veneráveis irmãos, a que tomeis cuidado em promover o canto religioso popular e a sua acurada execução feita com a dignidade conveniente, podendo isso estimular e aumentar a fé e a piedade das populações cristãs. Suba ao céu o canto uníssono e possante de nosso povo como o fragor das ondas do mar,176 expressão canora e vibrante de um só coração e uma só alma, 177 como convém a irmãos e filhos de um mesmo Pai. O que dissemos da música, se aplica às outras artes e especialmente à arquitetura, à escultura e à pintura. Não se devem desprezar e repudiar genericamente e por preconceitos as formas e imagens recentes, mais adaptadas aos novos materiais com os quais são hoje confeccionados; mas, evitando com sábio equilíbrio o excessivo realismo de uma parte e o exagerado simbolismo de outra, e tendo em conta as exigências da comunidade cristã, mais do que o juízo e o gosto pessoal dos artistas, é absolutamente necessário dar livre campo também à arte moderna, se esta serve com a devida reverência e a devida honra aos sagrados edifícios e ritos; de modo que ela possa unir a sua voz ao admirável cântico de glória que os gênios cantaram nos séculos passados a fé católica.
Cf. At 4,32.
Atos dos Apóstolos 4, 32
Matos Soares: 32 A multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma, e nenhum dizia ser sua coisa alguma daquelas que possuía, mas tudo entre eles era comum.
Bíblia Portuguesa Mundial: 32 A multidão dos que creram era de um só coração e alma. Nenhum deles afirmava que algo do que possuía era seu, mas tinham todas as coisas em comum.
Vulgata Clementina: 32 Multitudinis autem credentium erat cor unum et anima una: nec quisquam eorum quæ possidebat, aliquid suum esse dicebat, sed erant illis omnia communia.
Não podemos deixar, porém, por dever de consciência, de deplorar e reprovar aquelas imagens e formas por alguns recentemente introduzidas, que parecem ser depravação e deformação da verdadeira arte e que, muitas vezes, repugnam abertamente ao decoro, à modéstia e à piedade cristã e ofendem, lamentavelmente, o genuíno sentimento religioso; elas devem ser mantidas absolutamente afastadas e postas fora das nossas igrejas como “em geral tudo que não está em harmonia com a santidade do lugar”.178
181. Fiéis às normas e decretos dos pontífices, cuidai diligentemente, veneráveis irmãos, de iluminar e dirigir a mente e a alma dos artistas, aos quais será confiado hoje o encargo de restaurar e reconstruir tantas Igrejas destruídas ou arruinadas pela violência da guerra; possam e queiram eles, inspirando-se na religião, encontrar os motivos mais dignos e adaptados às exigências do culto; assim, com efeito, felizmente acontecerá que as artes humanas, como vindas do céu, brilhem com luz serena, promovam sumamente a humana civilização e contribuam para a glória de Deus e a santificação das almas, pois que as artes são, em verdade, como armas para a religião, quando servem “como nobilíssimas servas do culto divino”.179
182. Mas há ainda uma coisa mais importante, veneráveis irmãos, que recomendamos de modo especial à vossa solicitude e ao vosso zelo apostólico. Tudo o que diz respeito ao culto religioso externo tem sua importância, mas urge sobretudo que os cristãos vivam a vida litúrgica e alimentem e fortaleçam seu espírito sobrenatural.
183. Providenciai, pois, alacremente, porque o jovem clero seja formado na inteligência das cerimônias sagradas, na compreensão de sua beleza e majestade, e aprenda diligentemente as rubricas, em harmonia com a sua formação ascética, teológica, jurídica e pastoral. E isso não somente por razões de cultura, não apenas para que o seminarista possa um dia cumprir os ritos da religião com a ordem, o decoro e a dignidade necessárias, mas sobretudo para que seja educado em íntima união com Cristo sacerdote e se torne um santo ministro de santidade.
184. Velai ainda de todo o modo para que, com os meios e subsídios que a vossa prudência julgar mais aptos, sejam o clero e o povo uma só mente e uma só alma; e, assim, o povo cristão participe ativamente da liturgia que se tornará em verdade a ação sagrada, pela qual o sacerdote que atende ao cuidado das almas em sua paróquia, unido com a assembléia do povo, renda ao Senhor o culto devido.
185. Para obter isso, será certamente útil que, piedosos meninos, bem instruídos sejam escolhidos entre todas as classes de fiéis, para que, com desinteresse e boa vontade, sirvam devota e assiduamente ao altar – encargo que deveria ser tido em grande consideração pelos pais, ainda que de alta condição social e cultura. Se esses jovens forem instruídos com o necessário cuidado e sob a vigilância de um sacerdote para que cumpram este seu ofício com reverência e constância, e em horas determinadas, tornar-se-á fácil o brotar entre eles de novas vocações sacerdotais; e não se queixará o clero de não encontrar – como infelizmente acontece por vezes até em regiões catolicíssimas – alguém que na celebração do augusto sacrifício lhe responda e o sirva.
186. Procurai, sobretudo, obter, com o vosso diligentíssimo zelo, que todos os fiéis assistam ao sacrifício eucarístico e dele recebam os mais abundantes frutos de salvação; exortai-os portanto assiduamente a dele participarem com devoção por todos aqueles modos legítimos dos quais falamos acima. O augusto sacrifício do altar é o ato fundamental do culto divino; é necessário, por isso, que ele seja a fonte, o centro da piedade cristã. Considerai que não tereis jamais suficientemente satisfeito ao vosso zelo apostólico senão quando virdes os vossos filhos aproximarem-se em grande número do celestial banquete que é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade”. 180
187. Para que, pois, o povo cristão possa conseguir esses dons sobrenaturais, sempre com maior abundância, instrui-o com zelo por meio de pregações oportunas e, especialmente, com discursos e ciclos de conferências, com semanas de estudo e com outras manifestações semelhantes, a respeito dos tesouros de piedade contidos na sagrada liturgia. Para esse fim estarão certamente à vossa disposição os membros da Ação católica, sempre prontos a colaborar com a hierarquia em promover o reino de Jesus Cristo.
188. É absolutamente necessário, porém, que em tudo isso vigieis atentamente a fim de que, no campo do Senhor, não se introduza o inimigo para semear a cizânia no meio do trigo,181 para que, em outras palavras, não se infiltrem no vosso rebanho os perniciosos e sutis erros de um falso “misticismo” e de um nocivo “quietismo” – erros por nós já condenados como sabeis182 – e para que as almas não sejam seduzidas por um perigoso “humanismo”, nem se introduza uma falsa doutrina que altera a própria noção da fé, nem, enfim, um excessivo “arqueologismo” em matéria litúrgica. Cuidai com igual diligência por que não se difundam as falsas opiniões daqueles que erradamente crêem e ensinam que a natureza humana de Cristo glorificada esteja realmente e com a sua continua presença nos justificados, ou que uma graça única e idêntica junte Cristo com os membros do seu Corpo.
Cf. Cf. Mt 13,24-25.
Mateus 13, 24-25
Matos Soares: 24 Propôs-lhe outra parábola, dizendo: ” O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Porém, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, e semeou cizânia no meio do trigo, e foi-se.
Bíblia Portuguesa Mundial: 24 Ele lhes propôs outra parábola, dizendo: “O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo, 25 mas, enquanto os homens dormiam, seu inimigo veio e semeou joio no meio do trigo, e foi embora.
Vulgata Clementina: 24 Aliam parabolam proposuit illis, dicens: Simile factum est regnum cælorum homini, qui seminavit bonum semen in agro suo: 25 cum autem dormirent homines, venit inimicus ejus, et superseminavit zizania in medio tritici, et abiit.
189. Não vos deixeis desanimar pelas dificuldades que nascem; jamais se desencoraje o vosso zelo pastoral. “Fazei soar a trombeta em Sião, convocai a assembléia, reuni o povo, santificai a Igreja, juntai os velhos, recolhei os meninos e os recém-nascidos” 183 e fazei por todos os meios que se encham em todos os lugares as Igrejas e os altares de cristãos, os quais, como membros vivos unidos à sua Cabeça divina, sejam revigorados pelas graças dos sacramentos, celebrem o augusto sacrifício com ele e por ele e dêem ao Eterno Pai os louvores devidos.
Jl 2,5-16.
Joel 2, 5-16
Matos Soares: 5 (O seu ruído é) como o estrondo de carros a saltar sobre os cumes dos montes, como o crepitar da chama que queima a palha seca; dir-se-ia uma multidão de gente armada para o combate. 6 A sua vista ficam atormentados os povos; todos os rostos empalidecem, 7 Correm como valentes, escalam as muralhas como homens de guerra; cada um segue a sua via, sem confusão de caminhos. 8 Não se embaraçam uns aos outros, cada um marcha no seu lugar; ainda mesmo quando atingidos por golpes, não cessam de avançar. 9 Entram nas cidades, correm por cima dos muros, sobem às casas, entram pelas janelas como um ladrão. 10 A terra treme diante deles, os céus se abalam, o sol e a lua se escurecem, as estrelas retiram o seu resplendor. 11 Porque o Senhor faz ouvir a sua voz ante a face do seu exército; são inúmeros e fortes os seus batalhões, poderoso o executor da sua palavra. O dia do Senhor é grande e sobremaneira terrível. Quem o poderá suportar? 12 Mas agora ainda, diz o Senhor, convertei-vos a mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. 13 Rasgai os vossos corações, e não as vossas vestes, e (contritos no vosso inferior) convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque ele é benigno e compassivo, paciente e de muita misericórdia. Inclinado a arrepender-se do castigo que inflige. 14 Quem sabe se ele quererá voltar atrás, mudando de conselho, e deixar após si alguma bênção, (alguma, coisa de que possais fazer) oferenda e libação ao Senhor vosso Deus? 15 Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum sagrado, convocai uma assembleia, 16 fazei vir o povo, determinai uma santa reunião, juntai os velhos, congregai os pequeninos e os meninos de peito; saia o esposo da sua câmara, e a esposa do seu leito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Como o estrondo de carros no topo dos montes, eles saltam, como o ruído de uma chama de fogo que devora o restolho, como um povo forte em ordem de batalha. 6 Diante deles os povos estão em angústia. Todos os rostos empalidecem. 7 Eles correm como valentes. Eles escalam a muralha como guerreiros. Cada um marcha na sua linha, e não se desviam do seu curso. 8 Um não empurra o outro. Cada um marcha no seu próprio caminho. Eles rompem as defesas e não quebram as fileiras. 9 Eles se lançam sobre a cidade. Eles correm sobre a muralha. Eles sobem nas casas. Eles entram pelas janelas como ladrões. 10 A terra treme diante deles. Os céus se abalam. O sol e a lua escurecem, e as estrelas retiram o seu brilho. 11 O SENHOR troveja a sua voz diante do seu exército, pois as suas forças são muito grandes; pois forte é aquele que obedece ao seu comando; pois o dia do SENHOR é grande e muito terrível, e quem poderá suportá-lo? 12 “Ainda assim, mesmo agora”, diz o SENHOR, “voltem-se para mim de todo o seu coração, com jejum, com choro e com lamento.” 13 Rasguem o coração e não as suas vestes, e voltem-se para o SENHOR, o seu Deus; pois ele é gracioso e misericordioso, lento para se irar e abundante em benignidade, e se arrepende de enviar a calamidade. 14 Quem sabe? Talvez ele se volte e se arrependa, e deixe uma bênção após si, até mesmo uma oferta de cereais e uma oferta de bebida para o SENHOR, o seu Deus. 15 Toquem a trombeta em Sião! Santifiquem um jejum. Convoquem uma assembleia solene. 16 Reúnam o povo. Santifiquem a assembleia. Ajuntem os anciãos. Reúnam as crianças e os que mamam no peito. Que o noivo saia do seu quarto, e a noiva dos seus aposentos.
Vulgata Clementina: 5 Sicut sonitus quadrigarum super capita montium exilient, sicut sonitus flammæ ignis devorantis stipulam, velut populus fortis præparatus ad prælium. 6 A facie ejus cruciabuntur populi; omnes vultus redigentur in ollam. 7 Sicut fortes current; quasi viri bellatores ascendent murum: viri in viis suis gradientur, et non declinabunt a semitis suis. 8 Unusquisque fratrem suum non coarctabit, singuli in calle suo ambulabunt; sed et per fenestras cadent, et non demolientur. 9 Urbem ingredientur, in muro current, domos conscendent, per fenestras intrabunt quasi fur. 10 A facie ejus contremuit terra, moti sunt cæli, sol et luna obtenebrati sunt, et stellæ retraxerunt splendorem suum. 11 Et Dominus dedit vocem suam ante faciem exercitus sui, quia multa sunt nimis castra ejus, quia fortia et facientia verbum ejus: magnus enim dies Domini, et terribilis valde, et quis sustinebit eum? 12 Nunc ergo, dicit Dominus, convertimini ad me in toto corde vestro, in jejunio, et in fletu, et in planctu. 13 Et scindite corda vestra, et non vestimenta vestra; et convertimini ad Dominum Deum vestrum, quia benignus et misericors est, patiens et multæ misericordiæ, et præstabilis super malitia. 14 Quis scit si convertatur, et ignoscat, et relinquat post se benedictionem, sacrificium et libamen Domino Deo vestro? 15 Canite tuba in Sion, sanctificate jejunium, vocate cœtum: 16 congregate populum, sanctificate ecclesiam, coadunate senes, congregate parvulos, et sugentes ubera; egrediatur sponsus de cubili suo, et sponsa de thalamo suo.
EPÍLOGO
190. Todas essas coisas, veneráveis irmãos, pretendíamos escrever-vos e o fazemos a fim de que os nossos e os vossos filhos compreendam melhor e mais estimem o preciosíssimo tesouro contido na sagrada liturgia – isto é, o sacrifício eucarístico que representa e renova o sacrifício da cruz, os sacramentos, rios de graça e de vida divina, e o hino de louvor que o céu e a terra elevam cada dia a Deus.
191. Seja-nos lícito esperar que estas nossas exortações excitem os tíbios e os recalcitrantes não somente a um estudo mais intenso e iluminado da liturgia, mas ainda a traduzir na prática da vida o seu espírito sobrenatural, como diz o apóstolo: “Não queirais extinguir o Espírito”.184
1 Ts 5,19.
1 Tessalonicenses 5, 19
Matos Soares: 19 Não extingais o Espírito (Santo); (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Não apaguem o Espírito.
Vulgata Clementina: 19 Spiritum nolite extinguere.
192. Àqueles que um zelo excessivo leva muitas vezes a dizer e a fazer coisas que nos pesa não poder aprovar, repetimos a advertência de são Paulo: “Ponde tudo à prova; ficai com o que é bom”;185 e os admoestamos com ânimo paterno a consentirem haurir o seu modo de pensar e de agir da doutrina cristã, conforme os preceitos da imaculada esposa de Jesus Cristo e mãe dos santos.
1 Ts 5,21.
1 Tessalonicenses 5, 21
Matos Soares: 21 examinai tudo e abraçai o que for bom;
Bíblia Portuguesa Mundial: 21 Ponham à prova todas as coisas e retenham firmemente o que é bom.
Vulgata Clementina: 21 Omnia autem probate: quod bonum est tenete.
193. A todos, enfim, lembramos a necessidade de uma generosa e fel obediência aos pastores, aos quais compete o direito e incumbe o dever de regular toda a vida da Igreja, sobretudo a espiritual. “Obedecei aos vossos superiores e sede-lhes dóceis. Eles, com efeito, velam sobre as vossas almas, e disso prestarão contas. Assim poderão fazê-lo com alegria e não gemendo”.186
Hb 13,17.
Hebreus 13, 17
Matos Soares: 17 Obedecei aos vossos superiores e sede-lhes sujeitos, porque velam pelas vossas almas, como quem há-de dar conta delas, para que façam isto com alegria, e não gemendo, o que não vos seria vantajoso.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Obedeçam aos seus líderes e submetam-se a eles, pois eles velam por suas almas, como aqueles que prestarão contas, para que façam isso com alegria e não com gemidos, pois isso seria inútil para vocês.
Vulgata Clementina: 17 Obedite præpositis vestris, et subjacete eis. Ipsi enim pervigilant quasi rationem pro animabus vestris reddituri, ut cum gaudio hoc faciant, et non gementes: hoc enim non expedit vobis.
194. O Deus que adoramos, e que “não é Deus de discórdia mas de paz”187, conceda, benigno a todos nós, participar neste exílio terreno, com uma só mente e um só coração, na sagrada liturgia, a qual seja como que preparação e prenúncio daquela celeste liturgia, com a qual, segundo confiamos, em companhia da excelsa Mãe de Deus e dulcíssima mãe nossa, cantaremos: “Àquele que se senta no trono e ao Cordeiro: louvor, honra e gloria por todos os séculos”.188
1 Cor 14,33.
1 Coríntios 14, 33
Matos Soares: 33 Porquanto Deus não é Deus de discórdia, mas de paz. Como (se faz) em todas as igrejas dos santos,
Bíblia Portuguesa Mundial: 33 pois Deus não é Deus de confusão, mas de paz, como em todas as igrejas dos santos.
Vulgata Clementina: 33 Non enim est dissensionis Deus, sed pacis: sicut et in omnibus ecclesiis sanctorum doceo.
Ap 5,13.
Apocalipse 5, 13
Matos Soares: 13 A toda a criatura que há no céu, sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e a todas as coisas que aí se encontram, ouvi dizer: “Ao que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro, bênção, honra, glória e poder, pelos séculos dos séculos.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Ouvi toda criatura que está no céu, na terra, debaixo da terra, no mar, e tudo o que neles há, dizendo: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o domínio para todo o sempre! Amém!”
Vulgata Clementina: 13 Et omnem creaturam, quæ in cælo est, et super terram, et sub terra, et quæ sunt in mari, et quæ in eo: omnes audivi dicentes: Sedenti in throno, et Agno, benedictio et honor, et gloria, et potestas in sæcula sæculorum.
Com essa exultante esperança a vós todos e a cada um, veneráveis irmãos e aos rebanhos confiados à vossa vigilância, como penhor dos dons celestes, e atestado da nossa particular benevolência, concedemos com grandíssimo afeto a bênção apostólica.
Dado em Castel Gandolfo, junto de Roma, no dia 20 de novembro do ano de 1947, IX do nosso pontificado.
PIO PP. XII
Notas
- 1 Tm 2, 5.
- 5 Cf. Conc. Trid., sess. XXII, c.l.
- 6 Cf. Ibid., c.2.
- 7 Carta. Encicl, Caritate Christi de 3 de maio do ano 1932.
- 8 Cf. Carta. Ap., Motu Proprio In cotidianis precibus do dia 24 de março do ano 1945.
- 10 S. Tomás, Summa Theol., II-II, q. 81, a. 1.
- 11 Cf. Levítico.
- 20 Cf. Bonif. IX, Ab origine mundi, do dia 7 de Outubro do ano 1391; Callist. III, Summus Pontifex, de 1 de janeiro do ano 1456; Pius II, Triumphans Pastor, de 22 de abril de 1459; Innoc. XI, Triumphans Pastor, de 3 de outubro do ano 1678.
- 25 S. Agostinho, Epist.130, ad Probam, 18.
- 26 Missal Rom., Prefácio da Nativ.
- 27 I. Card. Bona, De divina psalmodia, c 19, § 3,1.
- 28 Missal Rom., Secreta da féria V depois do II Dom. de Quaresma.
- 31 Missal Rom., Féria IV de Cinzas: oração depois da imposição das cinzas.
- 32 De praedestinatione sanctorum, 31.
- 33 Cf. s. Tomás, Summa Theol., II-II, q. 82, a, 1.
- 37 Cf. CIC, cân 125,126, 565, 571, 595,1367.
- 43 Pont. Rom., De ordinatione presbyteri, in manuum unctione.
- 44 Enchiridion, c. 3.
- 45 De gratia Dei “Indiculus”; Dz 246.
- 46 S. Agostinho, Epist.130, ad Probam, 18.
- 47 Cf. Const. Divini cultus, de 20 de dezembro do ano 1928.
- 48 Const. Immensa, do dia 22 de janeiro de 1588.
- 49 Cf. CIC, cân. 253.
- 50 Cf. CIC, cân.1257.
- 51 Cf. CIC, cân.1261.
- 53 Cf. Pio VI, Const. Auctorem fidei, do dia 28 de agosto de 1794, nn. XXXI, XXXIV, XXXIX, LXII, LXVI, LXIX-LXXIV
- 58 Conc. Trid., Sess. XXII. c, 1.
- 59 Ibidem, c. 2.
- 60 Cf. s. Tomás, Summa Theol., III, q. 22, a. 4.
- 61 João Cris. In Joan. Hom., 86,4.
- 63 Cf . Missal Rom., Prefácio.
- 64 Cf. Ibidem, Cânon.
- 66 Missal Rom., Prefácio.
- 68 Missal Rom., Cânon.
- 69 S. Agostinho, De Trinit., 1. XIII, c.19.
- 71 Cf. Sess. XXII, c.1.
- 73 S. Agostinho, Enarr. in Ps,147, n.16.
- 75 Carta. Encicl. Mystici Corporis, do dia 29 de junho de 1943.
- 76 Missal Rom., Secreta do Dom. IX depois de Pentec.
- 77 Cf. Sess. XXII. c. 2 e cân. 4.
- 82 Cf. Conc. Trid. Sess., XXIII, c. 4.
- 83 Cf. s. Roberto Bellarm., De Missa, II, c 4.
- 84 De Sacro Altaris Mysterio, III, 6.
- 85 De Missa, I. cap. 27.
- 86 Missal Rom., Ordinário da Missa.
- 87 Ibidem, Cânon da Missa.
- 88 Missal Rom., Cânon da Missa.
- 91 Missal Romano, cânon da missa.
- 92 Pontif. Rom., De Ordinatione presbyteri.
- 93 Ibidem, De altaris consecrat., Praefatio.
- 94 Cf. Conc. Trid. Sess. XXII, c. 5.
- 96 Cf. Serm. 272.
- 99 Cf. s. Roberto Bellarm., De Missa , II, c. 8
- 100 De Civ. Dei, 1. X. c. 6.
- 101 Missal Rom., Cânon da Missa.
- 103 Carta Encicl. Certiores effecti, de 13 de novembro de 1742, § 1.
- 104 Conc. Trid. Sess. XXII, cân. 8.
- 105 Missal Rom., Coleta da Festa Corp. Christi.
- 107 Sess. XXII, c. 6.
- 108 Carta. Encicl. Certiores effecti, de 13 de novembro de 1742, § 3.
- 110 Cor 10,17.
- 111 Cf. S. Inácio. Mártir, Ad. Ephes., 20.
- 112 Missal Rom., Cânon da Missa.
- 114 Missal Rom., Postcommunio do Domingo da Oitava da Ascensão.
- 115 Ibidem, Postcommunio do Domingo I depois de Pentec.
- 116 CIC, cân. 810
- 117 Lib . IV, cap.l2.
- 120 Missal Rom., Secreta da Missa da SS. Trindade.
- 122 Conc. Trid., Sess. XIII, can. 1.
- 123 Conc. Constant. II, Anath. de trib. Capit., cân. 9 collat. Con. Efes. Anath. Cyrill, cân. 8. Cf. Conc. Trid. Sess. XIII, cân. 6; Pio VI, Const. Auctorem fidei n. LXI.
- 124 Cf. Enarr. in, Ps. 98, 9.
- 126 Cf. Conc. Trid., Sess., XIII, c. 5 e cân. 6.
- 127 In ad Cor., XXIV, 4.
- 130 Cf. Missal Rom., Coll. da Missa da Dedic. de uma Igreja.
- 131 Missal Rom., Seq. Lauda Sion na festa do Corpus Christi.
- 139 S. Agostinho, Enarr. in Ps. 85, n. 1.
- 140 S. Bento, Regula Monachorum, c. XIX.
- 142 Explicatio in Psalterium, Prefácio; PL 70,10.
- 143 S. Ambrósio, Enarrat. in Ps. l, n. 9.
- 145 Confess. I. IX, c. 6.
- 146 S. Agostinho, De Civ. Dei, 1. VIII, cap.l7.
- 148 S. Agostinho, Enarr. in Ps.123, 2.
- 150 S. Tomás, Summa Theol. III, q. 49 e q. 62, a. 5.
- 153 Missal Rom., Coleta da III Missa pro plur. Martyr. extra T.P
- 154 S. Beda Vener., Hom. LXX na solenidade de todos os santos.
- 155 Missal Rom., Coleta da Missa de s. João Damasceno.
- 156 S. Bernardo, Sereno II in festo omnium Sanct.
- 158 “Salve Regina”.
- 159 S. Bernardo, In Nativ. B.M.V., 7.
- 163 Cf. CIC, cân.125.
- 168 Cf. Carta. Apost. Motu Proprio Tra le sollecitudini; de 22 de nov de 1903.
- 170 Congr. S. Oficio: Decretum de 26 de maio de 1937.
- 171 Cf. Pio X, Carta. Apost. Motu Proprio Tra le sollecitudini.
- 172 Cf. Pio X, loc. cit.; Pio XI, Const. Divini cultus, II, V.
- 173 Pio XI, Const. Divini cultus, IX.
- 174 S. Agostinho, Serm. 336, n. 1.
- 175 Missal Rom., Prefácio.
- 176 Cf. s. Ambrosio, Hexameron, III, 5, 23.
- 178 CIC, can.1178.
- 179 Pio XI, Const. Divini Cultus.
- 180 Cf. s. Agostinho, Tract. XXVI in Joan., 13.
- 182 Carta. Encicl. Mystici Corporis.