
Exortação apostólica
Dilexi te
Contexto histórico
Momento histórico
A exortação apostólica Dilexi te foi assinada em 4 de outubro de 2025, memória de São Francisco de Assis, e apresentada à imprensa no Vaticano em 9 de outubro. Os editores da America lembraram que ela chegava num momento precário para os pobres do mundo, quando os Estados Unidos e vários países europeus haviam cortado de modo significativo a ajuda humanitária e de combate à pobreza destinada aos países em desenvolvimento, ao mesmo tempo que aumentavam os seus orçamentos de defesa. O texto descreve o quadro: milhares de pessoas morrem todos os dias por causas ligadas à desnutrição, na Europa cresce o número de famílias que não conseguem chegar ao fim do mês, e, “num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos”, crescem também elites ricas que vivem numa bolha de conforto e luxo.
A Igreja naquele momento
A Igreja vivia uma transição de pontificado. O Papa Francisco, que ao explicar a escolha do próprio nome contava ter ouvido de um cardeal amigo o pedido “Não te esqueças dos pobres!”, preparava nos últimos meses da vida uma exortação sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, e morreu em 21 de abril de 2025, segunda-feira de Páscoa, sem concluí-la. No conclave iniciado em 7 de maio de 2025, Robert Francis Prevost, nascido em Chicago em 1955, foi eleito na tarde de 8 de maio e escolheu o nome de Leão XIV. Agostiniano, missionário no Peru em dois períodos a partir de 1985, prior geral da sua ordem de 2001 a 2013, bispo de Chiclayo e, desde 2023, prefeito do Dicastério para os Bispos, ele foi o primeiro Papa vindo dos Estados Unidos e o primeiro da Ordem de Santo Agostinho. Herdando o texto do predecessor, assumiu-o como seu primeiro grande documento de ensino. A insistência de Francisco nos pobres e nas críticas à economia global lhe valera, de alguns adversários, o rótulo de comunista ou marxista, acusação que, segundo o cardeal Michael Czerny, diz mais sobre quem usa o rótulo do que sobre o Papa.
O documento
O título retoma as palavras do Senhor no Apocalipse, “Eu te amei”, e o texto se apresenta em continuidade com a Dilexit nos de Francisco. Em cinco capítulos, a exortação parte do clamor dos pobres na Escritura, mostra que Deus escolhe os pobres e que Jesus foi um Messias pobre, e percorre a história de “uma Igreja para os pobres”: os Padres da Igreja, o cuidado dos enfermos, a vida monástica, a libertação dos cativos, a instrução dos pobres, o acompanhamento dos migrantes e os movimentos populares. O quarto capítulo trata da Doutrina Social da Igreja desde a Rerum novarum de Leão XIII, das conferências latino-americanas de Medellín e Aparecida e das “estruturas de pecado” que geram desigualdade, e pede que os pobres sejam vistos como sujeitos, e não como objetos de beneficência. O último capítulo volta à parábola do bom samaritano, afirma que são os pobres que nos evangelizam e defende a esmola. Leão XIV rejeita ainda a ideia de que a pobreza seja, para a maioria, uma escolha, e critica os que recorrem a “critérios pseudocientíficos para dizer que a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza”, opiniões que, segundo ele, levam a olhar a realidade com critérios superficiais e “desprovidos de qualquer luz sobrenatural”.
Recepção
Na apresentação, perguntado sobre quanto do texto era de Francisco e quanto de Leão, o cardeal Czerny respondeu que ele era “cem por cento Francisco” e “cem por cento Leão”, e, diante da ideia de que Francisco tratara a pobreza de modo político e Leão de modo teológico, admitiu diferenças de ênfase, mas disse que a distinção não era muito útil nem muito verdadeira. O cardeal Konrad Krajewski observou que os papas apenas repetem o Evangelho e que, se defender os pobres fosse comunismo, seria preciso acusar disso o próprio Jesus. Os editores da America apontaram como a parte mais exigente o apelo a examinar o pecado social que produz a pobreza, incluindo a culpa de cada um. O colunista Ross Douthat, no New York Times, elogiou a crítica às visões libertárias da economia, mas viu no texto o risco da vagueza, de exortações piedosas que nunca se convertem em recomendações claras.
Fontes
- Santa Sé, Biografia do Papa Leão XIV, vatican.va, 2025. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/biography/documents/biografia_leone-xiv.html
- America Staff, Top 5 takeaways from Pope Leo’s first major document, ‘Dilexi Te’, America Magazine, 2025. https://www.americamagazine.org/vatican-dispatch/2025/10/09/pope-leo-dilexi-te-takeaways/
- Cindy Wooden, ‘Dilexi Te’ is 100-per-cent Pope Leo’s, Cardinal Czerny says, Catholic News Service (The Catholic Register), 2025. https://www.catholicregister.org/item/2910-dilexi-te-is-100-per-cent-pope-leo-s-cardinal-czerny-says
- Carol Glatz, Vatican announces death of Pope Francis, Catholic News Service (The Catholic Register), 2025. https://www.catholicregister.org/item/2081-vatican-announces-death-of-pope-francis
- Ross Douthat, Pope Leo needs to be more specific, The New York Times (reproduzido em The Catholic Thing), 2025. https://www.thecatholicthing.org/2025/10/16/pope-leo-needs-to-be-more-specific/
1. «Eu te amei» (Ap 3, 9)a, diz o Senhor a uma comunidade cristã que, ao contrário de outras, não tinha qualquer relevância ou recurso e estava exposta à violência e ao desprezo: «tens pouca força, mas […] farei que […] venham prostrar-se a teus pés» (Ap 3, 8-9)b. Este texto recorda as palavras do cântico de Maria: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 52-53)c.
Apocalipse 3, 9
Matos Soares: 9 Eis que te vou dar da sinagoga de Satanás os que dizem que são Judeus, e não o são mentirosos! eis que farei com que eles venham e se prostrem a teus pés e reconheçam que te amei.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Eis que farei com que alguns da sinagoga de Satanás, daqueles que se dizem judeus e não são, mas mentem — eis que farei com que venham e se prostrem aos seus pés, e saibam que eu amei você.
Apocalipse 3, 8-9
Matos Soares: 8 Conheço as tuas obras. Eis que pus diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar, porque, tendo pouca força, mesmo assim guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. (ver nota) 9 Eis que te vou dar da sinagoga de Satanás os que dizem que são Judeus, e não o são mentirosos! eis que farei com que eles venham e se prostrem a teus pés e reconheçam que te amei.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 “Conheço as suas obras (eis que coloquei diante de você uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar), sei que você tem pouca força, mas guardou a minha palavra e não negou o meu nome. 9 Eis que farei com que alguns da sinagoga de Satanás, daqueles que se dizem judeus e não são, mas mentem — eis que farei com que venham e se prostrem aos seus pés, e saibam que eu amei você.
Lucas 1, 52-53
Matos Soares: 52 Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 52 Ele derrubou os príncipes de seus tronos, e exaltou os humildes. 53 Ele encheu de bens os famintos. Ele despediu os ricos de mãos vazias.
2. A declaração de amor do Apocalipse remete para o mistério insondável que foi aprofundado pelo Papa Francisco na Encíclica Dilexit nos sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus. Nela, admirámos o modo como Jesus se identifica «com os últimos da sociedade» e como, através do seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é «mais fraco, mísero e sofredor». 1 Contemplar o amor de Cristo «ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros, e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação, como instrumentos de difusão do seu amor». 2
3. Por esta razão, em continuidade com a Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas «Eu te amei» ( Ap 3, 9)d. Ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres. Na verdade, também eu considero necessário insistir neste caminho de santificação, porque no «apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo». 3
Apocalipse 3, 9
Matos Soares: 9 Eis que te vou dar da sinagoga de Satanás os que dizem que são Judeus, e não o são mentirosos! eis que farei com que eles venham e se prostrem a teus pés e reconheçam que te amei.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Eis que farei com que alguns da sinagoga de Satanás, daqueles que se dizem judeus e não são, mas mentem — eis que farei com que venham e se prostrem aos seus pés, e saibam que eu amei você.
CAPÍTULO I
ALGUMAS PALAVRAS INDISPENSÁVEIS
4. Os discípulos de Jesus criticaram a mulher que derramou um perfume muito precioso sobre a sua cabeça: «Para quê este desperdício?» – diziam eles – «Podia vender-se por bom preço e dar-se o dinheiro aos pobres». Mas o Senhor disse-lhes: «Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim nem sempre me tereis» (Mt 26, 8-9.11)e. Aquela mulher tinha compreendido que Jesus era o Messias humilde e sofredor sobre quem derramar o seu amor: que consolo aquele unguento sobre a cabeça que, dali a poucos dias, seria atormentada pelos espinhos! Era um pequeno gesto, mas quem sofre sabe o quanto é grande mesmo um pequeno sinal de afeto e quanto alívio pode trazer. Jesus compreende isso e confirma a sua perenidade: «Em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, há de também narrar-se, em sua memória, o que ela acaba de fazer» (Mt 26, 13)f. A simplicidade daquele gesto revela algo grandioso. Nenhuma expressão de carinho, nem mesmo a menor delas, será esquecida, especialmente se dirigida a quem se encontra na dor, sozinho, necessitado, como estava o Senhor naquela hora.
Mateus 26, 8-9.11
Matos Soares: 8 Vendo isto, os discípulos indignaram-se, dizendo: “Para que foi este desperdício? 9 Porque este bálsamo podia vender-se por bom preço, e dar-se aos pobres.” […] 11 Porque vós tereis sempre convosco pobres; mas a mim nem sempre me tereis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 Mas, quando os discípulos viram isso, ficaram indignados e disseram: “Para que este desperdício? 9 Pois este perfume poderia ter sido vendido por muito dinheiro, e o valor dado aos pobres.” […] 11 Pois os pobres vocês sempre têm consigo, mas a mim vocês nem sempre terão.
Mateus 26, 13
Matos Soares: 13 Em verdade vos digo que em toda a parte onde for pregado este Evangelho — em todo o mundo—, publicar-se-á também para sua memória o que ela fez.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Em verdade lhes digo: onde quer que este Evangelho seja pregado em todo o mundo, o que esta mulher fez também será contado em memória dela.”
5. É precisamente nesta perspectiva que o afeto pelo Senhor se une ao afeto pelos pobres. Aquele Jesus que diz «Pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26, 11)g, expressa igual sentido quando promete aos discípulos: «Sabei que Eu estarei sempre convosco» (Mt 28, 20)h. Ao mesmo tempo, vêm-nos à mente aquelas palavras do Senhor: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40)i. Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos.
Mateus 26, 11
Matos Soares: 11 Porque vós tereis sempre convosco pobres; mas a mim nem sempre me tereis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Pois os pobres vocês sempre têm consigo, mas a mim vocês nem sempre terão.
Mateus 28, 20
Matos Soares: 20 ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 ensinando-os a guardar todas as coisas que eu lhes ordenei. Eis que estou com vocês sempre, até o fim dos tempos.” Amém.
Mateus 25, 40
Matos Soares: 40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.
Bíblia Portuguesa Mundial: 40 “O Rei lhes responderá: ‘Em verdade lhes digo que, visto que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, vocês o fizeram a mim.’
São Francisco
6. O Papa Francisco, ao recordar a escolha do próprio nome, contou que, após a sua eleição, um Cardeal amigo abraçou-o, beijou-o e disse-lhe: «Não te esqueças dos pobres!». 4 Trata-se da mesma recomendação feita pelas autoridades da Igreja a São Paulo quando ele subiu a Jerusalém para verificar a sua missão (cf. Gl 2, 1-10)j. O Apóstolo pôde afirmar anos mais tarde: foi «o que procurei fazer com o maior empenho» ( Gl 2, 10)k. Trata-se também da escolha de São Francisco de Assis: no leproso, foi o próprio Cristo que o abraçou, transformando a sua vida. A figura luminosa do Poverello jamais deixará de nos inspirar.
Gálatas 2, 1-10
Matos Soares: 1 Catorze anos depois, subi novamente a Jerusalém com Barnabé, tomando também comigo a Tito. 2 Subi, em consequência de uma revelação; conferi com eles o Evangelho que prego entre os gentios e (conferi) particularmente com aqueles que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido inutilmente. 3 Ora nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo grego, foi obrigado a circuncidar-se, 4 e isto por causa dos falsos irmãos, que se intrometeram a espiar a liberdade, que temos em Jesus Cristo, para nos reduzirem à escravidão (querendo obrigar-nos à observância dos ritos mosaicos). 5 Aos quais, nem um só instante, cedemos, para que permaneça entre vós a verdade do Evangelho. 6 Quanto porém àqueles que tinham grande autoridade, (quais tenham sido noutro tempo, não me importa, pois Deus não faz acepção de pessoas) esses, digo, que tinham grande autoridade, nada me impuseram. (ver nota) 7 Antes pelo contrário, tendo visto que me tinha sido confiado o Evangelho para os não circuncidados, como a Pedro para os circuncidados, 8 (porque quem fez de Pedro o Apóstolo dos circuncidados, também fez de mim o Apóstolo dos gentios) 9 e tendo reconhecido a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram considerados as colunas (da Igreja), deram as mãos a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, para que fôssemos aos gentios, e ele aos circuncidados, 10 (recomendando) somente que nos lembrássemos dos pobres (da Judeia); o que eu fui solícito em cumprir.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Então, depois de um período de catorze anos, subi novamente a Jerusalém com Barnabé, levando também Tito comigo. 2 Subi por revelação e expus diante deles as Evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos que eram respeitados, por medo de estar correndo, ou de ter corrido, em vão. 3 Mas nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo grego, foi obrigado a ser circuncidado. 4 Isso aconteceu por causa de falsos irmãos que se infiltraram secretamente para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzir à escravidão, 5 aos quais não cedemos nem por um momento, para que a verdade do Evangelho permanecesse com vocês. 6 Mas quanto àqueles que eram considerados importantes — o que quer que tenham sido, não faz diferença para mim; Deus não trata as pessoas com parcialidade — aqueles, digo, que eram respeitados, nada me acrescentaram, 7 mas, pelo contrário, quando viram que me haviam sido confiadas as Evangelho para os incircuncisos, assim como a Pedro as Evangelho para os circuncisos — 8 pois aquele que operou por meio de Pedro no apostolado para com os circuncisos também operou por meu intermédio para com os gentios — 9 e quando perceberam a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, aqueles que eram considerados colunas, estenderam a Barnabé e a mim a mão direita em sinal de comunhão, para que fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão. 10 Eles apenas nos pediram que nos lembrássemos dos pobres — exatamente o que eu também estava empenhado em fazer.
Gálatas 2, 10
Matos Soares: 10 (recomendando) somente que nos lembrássemos dos pobres (da Judeia); o que eu fui solícito em cumprir.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Eles apenas nos pediram que nos lembrássemos dos pobres — exatamente o que eu também estava empenhado em fazer.
7. Há oito séculos, foi ele que provocou um renascimento evangélico nos cristãos e na sociedade do seu tempo. O jovem Francisco, anteriormente rico e presunçoso, renasceu a partir do impacto com a realidade daqueles que são expulsos da convivência. O impulso dado por ele não cessa de mover os corações dos fiéis e de muitos não crentes e «mudou a história». 5 Segundo as palavras de São Paulo VI, o próprio Concílio Vaticano II segue nesta direção: «Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio». 6 Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor.
O clamor dos pobres
8. A propósito, na Sagrada Escritura há um texto que deve ser tomado sempre como ponto de partida. Trata-se da revelação de Deus a Moisés junto à sarça ardente: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar […] E agora, vai; Eu te envio» ( Ex 3, 7-8.10)l. 7 Deus mostra-se solícito para com as necessidades dos pobres: «Clamaram, então, ao Senhor, e o Senhor enviou-lhes um salvador» ( Jz 3, 15)m. Portanto, ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, que está atento às necessidades dos seus filhos, especialmente dos mais necessitados. Se permanecêssemos, porém, indiferentes a esse clamor, o pobre clamaria ao Senhor contra nós e isso tornar-se-ia para nós um pecado (cf. Dt 15, 9)n e, deste modo, afastar-nos-íamos do próprio coração de Deus.
Êxodo 3, 7-8.10
Matos Soares: 7 O Senhor disse-lhe: Eu vi a aflição do meu povo no Egipto, ouvi o seu clamor causado pela crueza daqueles que têm a superintendência das obras. 8 Conhecendo a sua dor, desceu para o livrar das mãos dos Egípcios e para o conduzir daquela terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra onde corre o leite e o mel, nas regiões do Cananeu, do Heteu, do Amorreu, do Ferezeu, do Heveu do Jebuseu. […] 10 Mas vem e eu te enviarei a Faraó, a fim de que tires do Egipto o meu povo, os filhos de Israel.
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 O SENHOR disse: “Certamente tenho visto a aflição do meu povo que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus feitores, pois conheço as suas dores. 8 Eu desci para livrá-los da mão dos egípcios, e para fazê-los subir daquela terra para uma terra boa e ampla, para uma terra que mana leite e mel; para o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. […] 10 Venha agora, portanto, e eu o enviarei a Faraó, para que você tire o meu povo, os filhos de Israel, do Egito.”
Juízes 3, 15
Matos Soares: 15 Depois disto, clamaram ao Senhor, que lhes suscitou um salvador chamado Aod, filho de Gera, filho de Jemini, que era canhoto. Os filhos de Israel mandaram, por meio dele, presentes a Eglon, rei de Moab.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Mas quando os filhos de Israel clamaram ao SENHOR, o SENHOR lhes levantou um libertador: Eúde, filho de Gera, o benjamita, homem canhoto. Os filhos de Israel enviaram por meio dele o tributo a Eglom, rei de Moabe.
Deuteronômio 15, 9
Matos Soares: 9 Acautela-te, não te deixes cair num ímpio pensamento, não digas no teu coração: Está próximo o sétimo ano da remissão — e não afastes (com tal pensamento) os olhos do teu irmão pobre, não lhe querendo emprestar o que ele te pede, não suceda que ele clame contra ti ao Senhor, e isto se torne para ti num pecado.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Cuidado para que não haja um pensamento perverso no seu coração, dizendo: “O sétimo ano, o ano da remissão, está próximo”, e os seus olhos sejam maus para com o seu irmão pobre, e você não lhe dê nada; e ele clame ao SENHOR contra você, e isso seja pecado para você.
9. A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, deveríamos falar, e talvez de modo mais acertado, dos inúmeros rostos dos pobres e da pobreza, uma vez que se trata de um fenómeno multifacetado; na verdade, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade.
10. Neste sentido, pode dizer-se que o compromisso em favor dos pobres e pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza, embora tenha adquirido importância nas últimas décadas, ainda continua insuficiente; até porque as sociedades em que vivemos privilegiam, com frequência, linhas políticas e padrões de vida marcados por numerosas desigualdades e, por isso, às antigas formas de pobreza que evidenciámos e se procuram combater, acrescentam-se outras novas, por vezes mais subtis e perigosas. Deste ponto de vista, é de louvar que as Nações Unidas tenham colocado a erradicação da pobreza como um dos objetivos do Milénio.
11. Ao compromisso concreto com os pobres ocorre associar também uma mudança de mentalidades que tenha incidências culturais. Efetivamente, a ilusão de uma felicidade que deriva de uma vida confortável leva muitas pessoas a ter uma visão da existência centrada na acumulação de riquezas e no sucesso social a todo o custo, a ser alcançado mesmo explorando os outros e aproveitando ideais sociais e sistemas político-económicos injustos, favoráveis aos mais fortes. Assim, num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos paradoxalmente crescer algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns. Isto significa que persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano. Alguns anos atrás, a foto de uma criança de bruços, sem vida, numa praia do Mediterrâneo provocou grande choque; infelizmente, à parte de alguma momentânea comoção, acontecimentos semelhantes estão a tornar-se cada vez mais irrelevantes, como se fossem notícias secundárias.
12. Não devemos baixar a guarda diante da pobreza. Preocupam-nos, de modo particular, as graves condições em que vivem muitíssimas pessoas, devido à escassez de alimentos e água potável. Todos os dias morrem milhares de pessoas por causas relacionadas com a desnutrição. Mesmo nos países ricos, as estimativas relativas ao número de pobres não são menos preocupantes. Na Europa, há cada vez mais famílias que não conseguem chegar ao fim do mês. Em geral, nota-se que as diferentes manifestações da pobreza aumentaram. Ela já não se apresenta como uma condição única e homogénea, mas manifesta-se em múltiplas formas de empobrecimento económico e social, refletindo o fenómeno de crescentes desigualdades, mesmo em contextos geralmente prósperos. Recordemos que «duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos. E, todavia, também entre elas, encontramos continuamente os mais admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e cuidado da fragilidade das suas famílias». 8 Embora em alguns países se observem mudanças importantes, «a organização das sociedades em todo o mundo ainda está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens. As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra», 9 especialmente se pensarmos nas mulheres mais pobres.
Preconceitos ideológicos
13. Para além dos dados – que por vezes são “interpretados” tentando convencer que a situação dos pobres não é tão grave assim –, o quadro geral é bastante claro: «Há regras económicas que foram eficazes para o crescimento, mas não de igual modo para o desenvolvimento humano integral. Aumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim nascem novas pobrezas. Quando dizem que o mundo moderno reduziu a pobreza, fazem-no medindo-a com critérios doutros tempos não comparáveis à realidade atual. Pois noutros tempos, por exemplo, não ter acesso à energia elétrica não era considerado um sinal de pobreza nem causava grave incómodo. A pobreza sempre se analisa e compreende no contexto das possibilidades reais dum momento histórico concreto». 10 Todavia, para além das situações específicas e conjunturais, num documento da União Europeia de 1984, afirmava-se: «considera-se pessoas pobres os indivíduos, as famílias e os grupos de pessoas cujos recursos (materiais, culturais e sociais) são de tal modo débeis que os excluem de um tipo de vida minimamente aceitável no Estado-membro em que vivem». 11 Contudo, se reconhecemos que todos os seres humanos têm a mesma dignidade, independentemente do local de nascimento, não se podem ignorar as grandes diferenças que existem entre países e regiões.
14. Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino. Muito menos a pobreza é uma escolha, para a maioria deles. No entanto, ainda há quem ouse afirmá-lo, demonstrando cegueira e crueldade. Entre os pobres há também, obviamente, aqueles que não querem trabalhar, talvez porque os seus antepassados, que trabalharam toda a vida, morreram pobres. Mas há muitos homens e mulheres que trabalham de manhã à noite, recolhendo papelão, por exemplo, ou realizando outras atividades semelhantes, embora saibam que este esforço servirá apenas para sobreviver e nunca para melhorar verdadeiramente as suas vidas. Não podemos dizer que a maioria dos pobres estão nessa situação porque não obtiveram “méritos”, de acordo com a falsa visão da meritocracia, segundo a qual parece que só têm mérito aqueles que tiveram sucesso na vida.
15. Também os cristãos, em muitas ocasiões, se deixam contagiar por atitudes marcadas por ideologias mundanas ou por orientações políticas e económicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras. Observar que o exercício da caridade é desprezado ou ridicularizado, como se fosse uma fixação somente de alguns e não o núcleo incandescente da missão eclesial, faz-me pensar que é preciso ler novamente o Evangelho, para não se correr o risco de o substituir pela mentalidade mundana. Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres.
CAPÍTULO II
DEUS ESCOLHE OS POBRES
A opção pelos pobres
16. Deus é amor misericordioso e o seu projeto de amor, que se estende e realiza na história, é primeiramente o seu descer e vir estar entre nós para nos libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte. Com um olhar misericordioso e o coração cheio de amor, Ele dirigiu-se às suas criaturas, preocupando-se com a sua condição humana e, portanto, com a sua pobreza. Precisamente para partilhar os limites e as fraquezas da nossa natureza humana, Ele mesmo se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte. Por isso, compreende-se bem por que se pode falar, também teologicamente, sobre uma opção preferencial de Deus pelos pobres, uma expressão que surgiu no contexto do continente latino-americano, em particular na Assembleia de Puebla, mas que foi bem integrada no sucessivo Magistério da Igreja. 12 Esta “preferência” nunca diz respeito a um exclusivismo ou a uma discriminação em relação a outros grupos, que em Deus seria impossível; ela pretende sublinhar o agir de Deus que, por compaixão, se dirige à pobreza e à fraqueza da humanidade inteira e que, querendo inaugurar um Reino de justiça, fraternidade e solidariedade, tem particularmente a peito aqueles que são discriminados e oprimidos, pedindo-nos também a nós, sua Igreja, uma decidida e radical posição em favor dos mais fracos.
17. Nesta perspectiva, compreendem-se as numerosas páginas do Antigo Testamento, nas quais Deus é apresentado como amigo e libertador dos pobres, Aquele que escuta o grito do pobre e intervém para o libertar (cf. Sl 34, 7)o. Deus, refúgio do pobre, por meio dos profetas – recordemos de modo particular Amós e Isaías – denuncia as iniquidades contra os mais fracos e exorta Israel a renovar o culto a partir de dentro, porque não se pode rezar nem oferecer sacrifícios, quando ao mesmo tempo se oprimem os mais fracos e pobres. Desde o seu início, a Sagrada Escritura manifesta com grande intensidade o amor de Deus através da proteção dos mais fracos e dos menos favorecidos, a tal ponto que, em relação a eles, se poderia falar de uma espécie de “fraqueza” de Deus: «No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres […]. Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres». 13
Salmos 34, 7
Matos Soares (Salmos 33, 7): 7 Eis que o aflito clamou, e o Senhor ouviu e o salvou de todas as suas angústias.
Bíblia Portuguesa Mundial (Salmos 34, 6): 6 Este pobre clamou, e o SENHOR o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias.
Jesus, o Messias pobre
18. Toda a história do Antigo Testamento sobre a predileção de Deus pelos pobres e o desejo divino de ouvir o seu clamor – que evoquei brevemente – encontra em Jesus de Nazaré a sua plena realização. 14 Na sua encarnação, Ele «esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem» ( Fl 2, 7)p, nesta condição realizou a nossa salvação. Trata-se de uma pobreza radical, fundada na sua missão de revelar a verdadeira face do amor divino (cf. Jo 1, 18; 1 Jo 4, 9)q. Por isso, São Paulo pode afirmar com uma das suas maravilhosas sínteses: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» ( 2 Cor 8, 9)r.
Filipenses 2, 7
Matos Soares: 7 mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido, por condição, como homem.
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 mas esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens.
João 1, 18
Matos Soares: 18 Ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Ninguém jamais viu a Deus. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, o revelou.
1 João 4, 9
Matos Soares: 9 Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele tenhamos a vida (da graça).
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Nisto o amor de Deus foi revelado entre nós: que Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele.
2 Coríntios 8, 9
Matos Soares: 9 Com efeito conheceis a liberalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de que fósseis ricos pela sua pobreza.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor a vocês se fez pobre, para que vocês, por meio da sua pobreza, se tornassem ricos.
19. Com efeito, o Evangelho mostra que esta pobreza abrangia todos os aspectos da sua vida. Desde a sua entrada no mundo, Jesus experimentou as dificuldades relacionadas com a rejeição. O evangelista Lucas, narrando a chegada a Belém de José e Maria, já próxima do momento do parto, observa com pena «não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 7)s. Jesus nasceu em condições humildes: logo após o nascimento, foi recostado numa manjedoura, e, pouco tempo depois, os seus pais fugiram para o Egito para o salvar da morte (cf. Mt 2, 13-15)t. No início da sua vida pública, foi expulso de Nazaré depois de ter anunciado na sinagoga que se cumpria n’Ele o ano da graça no qual os pobres se rejubilam (cf. Lc 4, 14-30)u. Não houve um lugar acolhedor nem sequer no momento de sua morte: a fim de ser crucificado, levaram-no para fora de Jerusalém (cf. Mc 15, 22)v. É nesta condição que se pode resumir claramente a pobreza de Jesus. Trata-se da mesma exclusão que caracteriza a definição dos pobres: eles são os excluídos da sociedade. Jesus é a revelação deste privilegium pauperum. Ele apresenta-se ao mundo não só como Messias pobre, mas também como Messias dos pobres e para os pobres.
Lucas 2, 7
Matos Soares: 7 e deu à luz o seu filho primogénito, e o enfaixou, e o reclinou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Ela deu à luz o seu filho primogênito. Envolveu-o em faixas de pano e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Mateus 2, 13-15
Matos Soares: 13 Tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para Egipto, e fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para lhe tirar a vida.” 14 E ele, levantando-se de noite, tomou o menino e sua mãe, e retirou-se para o Egipto. 15 Lá esteve até à morte de Herodes, cumprindo-se deste modo o que tinha sido dito pelo Senhor por meio do profeta: Do Egipto chamei o meu filho (Os. 11, 1).
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Depois que eles partiram, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em um sonho, dizendo: “Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu lhe diga, pois Herodes procurará o menino para matá-lo.” 14 Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, de noite, e partiu para o Egito, 15 e lá ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: “Do Egito chamei o meu filho.”
Lucas 4, 14-30
Matos Soares (Lucas 4, 14-26): 14 Jesus voltou sob o impulso do Espírito para a Galileia, e a sua fama divulgou-se por toda a região. 15 Ensinava nas sinagogas, e era aclamado por todos. 16 Foi a Nazaré, onde se tinha criado, entrou na sinagoga, segundo o seu costume, em dia de sábado, e levantou-se para fazer a leitura. 17 Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Quando desenrolou o livro, encontrou o lugar onde estava escrito (Is. 61, 1-2; Is. 58, 6): 18 O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; me enviou a sarar os contritos do coração. 19 a anunciar aos cativos a redenção, e aos cegos a recuperação da vista, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar o ano favorável do Senhor. 20 Tendo enrolado o livro, deu-o ao ministro, e sentou-se. Estavam fixos nele os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga. 21 Começou a dizer-lhes: “Hoje cumpriu-se esta escritura que acabais de ouvir.” 22 E todos lhe davam testemunho, e admiravam-se das palavras de graça que saiam da sua boca, e diziam: “Não é este o filho de José?” 23 Então disse-lhes: “Sem dúvida que vós me aplicareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Todas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, faze-as também aqui na tua pátria.” 24 Depois acrescentou : “Na verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. 25 Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando foi fechado o céu durante três anos e seis meses, e houve uma grande fome por toda a terra; […]
Bíblia Portuguesa Mundial (Lucas 4, 14-26): 14 Jesus voltou no poder do Espírito para a Galileia, e as notícias sobre ele se espalharam por toda a região ao redor. 15 Ele ensinava nas sinagogas deles, sendo glorificado por todos. 16 Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado. Ele entrou, como era seu costume, na sinagoga no dia de sábado, e levantou-se para ler. 17 O livro do profeta Isaías lhe foi entregue. Ele abriu o livro e encontrou o lugar onde estava escrito: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para curar os quebrantados de coração, para proclamar libertação aos cativos, recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, 19 e para proclamar o ano aceitável do Senhor.” 20 Ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se. Os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele. 21 Ele começou a dizer-lhes: “Hoje, esta Escritura se cumpriu enquanto vocês a ouviam.” 22 Todos davam testemunho a respeito dele e se maravilhavam com as palavras cheias de graça que ele dizia; e perguntavam: “Não é este o filho de José?” 23 Ele lhes disse: “Sem dúvida vocês me citarão este provérbio: ‘Médico, cure a si mesmo! Tudo o que ouvimos que foi feito em Cafarnaum, faça também aqui na sua cidade natal.’” 24 Ele disse: “Em verdade lhes digo: nenhum profeta é bem aceito em sua cidade natal. 25 Mas, em verdade lhes digo: havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, quando uma grande fome veio sobre toda a terra. […]
Marcos 15, 22
Matos Soares: 22 Conduziram-no ao lugar do Gólgota, que quer dizer lugar do Crânio. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Levaram-no ao lugar chamado Gólgota, que, traduzido, é “O lugar da Caveira”.
20. Existem alguns indícios a propósito da condição social de Jesus. Em primeiro lugar, Ele realiza o ofício de artesão ou carpinteiro, téktōn (cf. Mc 6, 3)w. Trata-se de uma categoria de pessoas que vivem do seu trabalho manual. Não possuindo terrenos, eram considerados inferiores em relação aos agricultores. Quando o Menino Jesus é apresentado no Templo, por José e Maria, os seus pais ofereceram um par de rolas ou de pombas (cf. Lc 2, 22-24)x, que segundo as prescrições do Livro do Levítico (cf. 12, 8) constituía a oferta dos pobres. Um episódio evangélico bastante significativo é aquele que nos conta como Jesus e os seus discípulos colhiam espigas para se alimentarem, enquanto atravessavam os campos (cf. Mc 2, 23-28)y e isto – respigar os campos – era permitido somente a quem era pobre. Além disso, o próprio Jesus diz de si mesmo: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20; Lc 9, 58)z. Na verdade, Ele é um mestre itinerante, cuja pobreza e precaridade são sinais do vínculo com o Pai e são pedidas também a quem deseja segui-lo no caminho do discipulado, precisamente para que a renúncia aos bens, às riquezas e às seguranças deste mundo seja um sinal visível do ter-se confiado a Deus e à sua providência.
Marcos 6, 3
Matos Soares: 3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs?” E estavam perplexos a seu respeito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui conosco?” E escandalizavam-se por causa dele.
Lucas 2, 22-24
Matos Soares: 22 Depois que se completaram os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor Lv. 12, 6, 23 segundo o que está escrito na lei do Senhor : Todo o varão primogênito será consagrado ao Senhor (Ex. 13, 2 ; Ex. 12, 15), 24 e para oferecerem em sacrifício, conforme o que também está escrito na lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos (Lv. 12, 8 ; Lv. 5, 11).
Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Quando se completaram os dias da purificação deles, de acordo com a lei de Moisés, eles o levaram a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor 23 (conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo macho que abre o ventre será chamado santo ao Senhor”), 24 e para oferecer um sacrifício de acordo com o que é dito na lei do Senhor: “Um par de rolinhas ou dois pombinhos.”
Marcos 2, 23-28
Matos Soares: 23 Sucedeu que, caminhando o Senhor em dia de sábado, por entre campos de trigo, os seus discípulos, enquanto caminhavam, começaram a colher espigas. 24 Os fariseus diziam-lhe: “Como é que fazem ao sábado o que não é lícito?” 25 Ele respondeu-lhes: “Nunca lestes o que fez David, quando se encontrou em necessidade, e teve fome, ele e os que com ele estavam? 26 Como entrou na casa de Deus, sendo sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, dos quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e deu aos que com ele estavam?” 27 E acrescentou: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. (ver nota) 28 Por isso o Filho do homem é senhor também do sábado.” (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 23 Ele estava passando no dia de sábado pelas searas; e os seus discípulos começaram, enquanto caminhavam, a colher as espigas. 24 Os fariseus lhe disseram: “Veja, por que eles fazem o que não é lícito no dia de sábado?” 25 Ele lhes disse: “Vocês nunca leram o que Davi fez quando passou necessidade e teve fome — ele e os que estavam com ele? 26 Como ele entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, o sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, que não é lícito comer senão aos sacerdotes, e deu também aos que estavam com ele?” 27 Ele lhes disse: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. 28 Portanto, o Filho do Homem é senhor até mesmo do sábado.”
Mateus 8, 20
Matos Soares: 20 Jesus disse-lhe: As raposas têm as (suas) covas, e as aves do céu os (seus) ninhos; porém, o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Jesus lhe disse: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.”
Lucas 9, 58
Matos Soares: 58 Jesus respondeu-lhe: “As raposas têm suas covas, as aves do céu têm seus ninhos, porém o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.” (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 58 Jesus lhe disse: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.”
21. No início do seu ministério público, Jesus apresenta-se na sinagoga de Nazaré lendo o livro de Isaías e aplicando a si mesmo a palavra do profeta: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18; cf. Is 61, 1)aa. Ele manifesta-se, portanto, como Aquele que, no hoje da história, vem realizar a proximidade amorosa de Deus, que em primeiro lugar é obra de libertação para quem está prisioneiro do mal, para os fracos e os pobres. Na verdade, os sinais que acompanham a pregação de Jesus são manifestações de amor e de compaixão com as quais Deus olha para os doentes, os pobres e os pecadores que, em virtude da sua condição, eram marginalizados na sociedade, inclusivamente pela religião; Ele abre os olhos aos cegos, cura os leprosos, ressuscita os mortos e anuncia aos pobres a boa nova: Deus fez-se próximo, Deus ama-vos (cf. Lc 7, 22)ab. Isto explica a razão pela qual Ele proclama: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20)ac. Efetivamente, Deus mostra predileção pelos pobres: a eles primeiramente se dirige a palavra de esperança e libertação do Senhor e por isso ninguém, apesar da condição de pobreza ou fraqueza, deve sentir-se abandonado. E a Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado (cf. Tg 2, 2-4)ad.
Lucas 4, 18
Matos Soares: 18 O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; me enviou a sarar os contritos do coração.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para curar os quebrantados de coração, para proclamar libertação aos cativos, recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos,
Isaías 61, 1
Matos Soares: 1 O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a levar a boa nova aos infelizes, a curar os de coração despedaçado, a anunciar a redenção aos cativos e a liberdade aos encarcerados;
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 O Espírito do Senhor DEUS está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos humildes. Ele me enviou para ligar as feridas dos quebrantados de coração, para proclamar liberdade aos cativos e libertação aos que estão presos,
Lucas 7, 22
Matos Soares: 22 Depois respondeu-lhes: “Ide referir a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho;
Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Jesus lhes respondeu: “Vão e contem a João as coisas que vocês viram e ouviram: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciado o evangelho.
Lucas 6, 20
Matos Soares: 20 Levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Ele levantou os olhos para os seus discípulos e disse: “Bem-aventurados são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês.
Tiago 2, 2-4
Matos Soares: 2 Se entrar na vossa assembleia um homem com anel de ouro e vestuário precioso, e entrar também um pobre com vestuário vil, 3 e, se atenderdes ao que está vestido magnificamente e lhe disserdes : — tu senta-te aqui neste lugar de honra — e ao pobre disserdes: — tu deixa-te estar aí de pé, ou senta-te abaixo do estrado de meus pés — 4 porventura não fazeis distinção entre vós, e não sois juízes de pensamentos iníquos?
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 Pois, se entrar na sinagoga de vocês, um homem com anel de ouro e roupas finas, e também entrar um homem pobre com roupas sujas, 3 e vocês derem atenção especial àquele que veste roupas finas e disserem: “Sente-se aqui em um bom lugar”; e disserem ao pobre: “Fique em pé ali”, ou “Sente-se perto do estrado dos meus pés”, 4 vocês não fizeram distinções entre si e se tornaram juízes com maus pensamentos?
22. Incapazes de se prover do necessário para viver, os indigentes e os enfermos eram frequentemente obrigados a mendigar. A isso somava-se o peso da vergonha social, alimentada pela convicção de que a doença e a pobreza estavam ligadas a algum pecado pessoal. Jesus combateu com firmeza aquele modo de pensar, afirmando: «o vosso Pai que está no Céu faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5, 45)ae. E, inclusive, inverteu mesmo completamente tal concepção, como está bem exemplificado na parábola do rico avarento e do pobre Lázaro: «Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (Lc 16, 25)af.
Mateus 5, 45
Matos Soares: 45 Deste modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre maus e bons, e manda a chuva sobre os justos e injustos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 45 para que vocês sejam filhos do seu Pai que está nos céus. Pois ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos.
Lucas 16, 25
Matos Soares: 25 Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; por isso ele é agora consolado, e tu és atormentado.
Bíblia Portuguesa Mundial: 25 “Mas Abraão disse: ‘Filho, lembre-se de que você, durante a sua vida, recebeu as suas coisas boas, e Lázaro, da mesma forma, coisas más. Mas agora ele está consolado aqui, e você está em angústia.
23. Compreende-se, então, que «deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade». 15 Muitas vezes pergunto-me, quando há tanta clareza nas Sagradas Escrituras a respeito dos pobres, por que razão muitos continuam a pensar que podem deixar de prestar atenção aos pobres. Por enquanto, porém, permaneçamos no âmbito bíblico e procuremos refletir sobre a nossa relação com os últimos da sociedade e sobre o lugar fundamental que eles ocupam no povo de Deus.
A misericórdia para com os pobres na Bíblia
24. O Apóstolo João escreve: «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20)ag. Do mesmo modo, na sua resposta ao doutor da lei, Jesus retoma dois antigos mandamentos: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 5)ah e «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19, 18)ai, unindo-os num único mandamento. O evangelista Marcos reproduz a resposta de Jesus nestes termos: «O primeiro é: Escuta, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes» (Mc 12, 29-31)aj.
1 João 4, 20
Matos Soares: 20 Se alguém disser: — eu amo a Deus — e odiar o seu irmão, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê ?
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, e odiar o seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão a quem viu, como pode amar a Deus a quem não viu?
Deuteronômio 6, 5
Matos Soares: 5 Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Você amará o SENHOR, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças.
Levítico 19, 18
Matos Soares: 18 Não procurarás a vingança, nem conservarás a lembrança da injúria dos teus concidadãos. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 “’Você não se vingará, nem guardará rancor contra os filhos do seu povo; mas você amará o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o SENHOR.
Marcos 12, 29-31
Matos Soares: 29 Jesus respondeu-lhe: “O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forças (Dt. 6, 4-5). 31 O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Lv. 19, 18). Não há outro mandamento maior do que estes.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 29 Jesus respondeu: “O maior é: ‘Ouça, Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é único. 30 Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.’ Este é o primeiro mandamento. 31 O segundo é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo.’ Não há outro mandamento maior do que estes.”
25. A passagem do Levítico citada acima exorta a honrar o próprio compatriota, enquanto noutros textos encontramos um ensinamento que convida ao respeito – ou mesmo ao amor – também pelo inimigo: «Quando encontrares um boi do teu inimigo ou o seu jumento, desgarrados, tu lhos levarás de volta. Quando vires um jumento daquele que te odeia caído debaixo da sua carga, não o abandones, mas presta-lhe ajuda» (Ex 23, 4-5)ak. Isso deixa transparecer o valor intrínseco do respeito pela pessoa: seja quem for que se encontre em dificuldade, mesmo o inimigo, merece sempre ser socorrido.
Êxodo 23, 4-5
Matos Soares: 4 Se encontrares o boi do teu amigo ou o (seu) jumento desgarrado, leva-lhos. 5 Se vires o jumento do que te odeia caído debaixo da carga, não passarás adiante, mas ajudá-lo-ás a levantar-se.
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 “Se você encontrar o boi ou o jumento do seu inimigo desgarrado, você certamente o levará de volta para ele. 5 Se você vir o jumento daquele que o odeia caído sob a sua carga, não o abandone. Você certamente o ajudará com ele.
26. É inegável que o primado de Deus no ensinamento de Jesus é acompanhado por outro princípio fundamental, segundo o qual não se pode amar a Deus sem estender o próprio amor aos pobres. O amor ao próximo é a prova tangível da autenticidade do amor a Deus, como atesta o Apóstolo João: «A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. […] Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele» (1 Jo 4, 12.16)al. São dois amores distintos, mas inseparáveis. Mesmo nos casos em que a relação com Deus não é explícita, o próprio Senhor nos ensina que qualquer ação de amor pelo próximo é, em algum modo, um reflexo da caridade divina: «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40)am.
1 João 4, 12.16
Matos Soares: 12 Ninguém jamais viu a Deus. (Porém) se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e a sua caridade em nós é perfeita. (ver nota) […] 16 Reconhecemos a caridade que Deus tem por nós e cremos nela. Deus é caridade; quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 12 Ninguém jamais viu a Deus. Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor tem sido aperfeiçoado em nós. […] 16 E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.
Mateus 25, 40
Matos Soares: 40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.
Bíblia Portuguesa Mundial: 40 “O Rei lhes responderá: ‘Em verdade lhes digo que, visto que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, vocês o fizeram a mim.’
27. Por esta razão, recomendam-se as obras de misericórdia, qual sinal da autenticidade do culto que, ao louvar a Deus, tem por missão abrir-nos à transformação que o Espírito pode realizar em nós, para que todos nos tornemos imagem de Cristo e da sua misericórdia para com os mais fracos. Nesse sentido, a relação com o Senhor, que se expressa no culto, pretende também libertar-nos do risco de viver as nossas relações segundo a lógica do cálculo e das vantagens, abrindo-nos à gratuidade que existe entre aqueles que se amam e que, por isso, partilham tudo. A este respeito, Jesus aconselha: «Quando deres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos; não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. E serás feliz por eles não terem com que te retribuir» (Lc 14, 12-14).
28. O apelo do Senhor à misericórdia para com os pobres encontrou a sua máxima expressão na grande parábola do juízo final (cf. Mt 25, 31-46)an, que é também uma representação gráfica da bem-aventurança dos misericordiosos. Ali, o Senhor ofereceu-nos a chave para alcançar a nossa plenitude, porque «se andamos à procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados». 16 As palavras fortes e claras do Evangelho devem ser vividas «sem comentários, especulações e desculpas que lhes tirem força. O Senhor deixou-nos bem claro que a santidade não se pode compreender nem viver prescindindo destas suas exigências». 17
Mateus 25, 31-46
Matos Soares (Mateus 25, 31-43): 31 Quando, pois, vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com ele, então se sentará sobre o trono de sua majestade. 32 Todas as nações serão congregadas diante dele, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33 E porá as ovelhas à sua direita, e os cabritos à esquerda. 34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, 35 porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era peregrino, e recolhestes-me; (ver nota) 36 nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava na prisão, e fostes visitar-me, 37 Então, os justos, lhe responderão: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, e te demos de comer; sequioso, e te demos de beber? 38 Quando te vimos peregrino, e te recolhemos; nu, e te vestimos? 39 Ou quando té vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? 40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Na verdade vos digo que todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. 41 Em seguida, dirá aos que estiverem à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos; 42 porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; […]
Bíblia Portuguesa Mundial (Mateus 25, 31-43): 31 “Mas quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então ele se assentará no trono da sua glória. 32 Diante dele serão reunidas todas as nações, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33 Ele colocará as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. 34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai, herdem o Reino preparado para vocês desde a fundação do mundo; 35 pois eu tive fome, e vocês me deram de comer. Tive sede, e vocês me deram de beber. Fui estrangeiro, e vocês me acolheram. 36 Estive nu, e vocês me vestiram. Estive doente, e vocês me visitaram. Estive na prisão, e vocês vieram me ver.’ 37 “Então os justos lhe responderão, dizendo: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? 38 Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou nu e te vestimos? 39 Quando te vimos doente ou na prisão e fomos te ver?’ 40 “O Rei lhes responderá: ‘Em verdade lhes digo que, visto que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, vocês o fizeram a mim.’ 41 Então ele dirá também aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e os seus anjos; 42 pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e vocês não me deram de beber; […]
29. O programa de caridade na primeira comunidade cristã não derivava de análises ou projetos, mas diretamente do exemplo de Jesus, das próprias palavras do Evangelho. A Carta de São Tiago dedica amplo espaço ao problema da relação entre ricos e pobres, lançando aos fiéis dois apelos muito fortes que questionam a sua fé: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tg 2, 14-17)ao.
Tiago 2, 14-17
Matos Soares: 14 Que aproveitará, irmãos meus, se alguém diz que tem fé e não tem obras? Porventura poderá salvá-lo tal fé? 15 Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, 16 e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos” — porém não lhes der as coisas necessárias ao corpo, de que lhes aproveitará? 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 De que adianta, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode essa fé salvá-lo? 15 E se um irmão ou irmã estiver nu e sem o alimento diário, 16 e um de vocês lhes disser: “Vão em paz. Aqueçam-se e alimentem-se”; contudo não lhes derem as coisas que o corpo necessita, de que adianta isso? 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.
30. «O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós e devorará a vossa carne como o fogo. Entesourastes, afinal, para os vossos últimos dias! Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites… para o dia da matança!» (Tg 5, 3-5)ap. Que força têm estas palavras, mesmo quando preferimos fazer-nos de surdos! Na Primeira Carta de São João, encontramos um apelo semelhante: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17)aq.
Tiago 5, 3-5
Matos Soares: 3 O vosso ouro e a vossa prata deterioraram-se, e o seu estrago dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes como um fogo. Juntastes tesouros nos últimos dias. (ver nota) 4 Eis que o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama (contra vós), e o clamor dos ceifeiros subiu até aos ouvidos do Senhor dos exércitos. 5 Vivestes em delícias e prazeres sobre a terra, banqueteastes-vos para o dia da matança. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Seu ouro e sua prata estão corroídos, e a corrosão deles servirá de testemunho contra vocês e consumirá a sua carne como fogo. Vocês acumularam tesouros nos últimos dias. 4 Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, que vocês retiveram por fraude, clama; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. 5 Vocês viveram no luxo na terra e se entregaram aos prazeres. Engordaram os seus corações como em dia de matança.
1 João 3, 17
Matos Soares: 17 Se alguém que possua bens deste mundo, vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração, como está nele a caridade de Deus?
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Mas, se alguém tem os bens deste mundo e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o coração e não se compadece dele, como permanece nele o amor de Deus?
31. O que diz a Palavra revelada «é uma mensagem tão clara, tão direta, tão simples e eloquente que nenhuma hermenêutica eclesial tem o direito de relativizar. A reflexão da Igreja sobre estes textos não deveria ofuscar nem enfraquecer o seu sentido exortativo, mas antes ajudar a assumi-los com coragem e ardor. Para quê complicar o que é tão simples? As elaborações conceituais hão de favorecer o contato com a realidade que pretendem explicar, e não afastar-nos dela». 18
32. Por outro lado, um claro exemplo eclesial de partilha dos bens e de atenção à pobreza encontramo-lo na vida quotidiana e no estilo da primeira comunidade cristã. Podemos recordar, em particular, o modo como foi resolvida a questão da diária distribuição de auxílios às viúvas (cf. Act 6, 1-6)ar. Era um problema difícil, até porque algumas destas viúvas, provenientes de outros países, por vezes eram preteridas por serem estrangeiras. Com efeito, o episódio narrado nos Atos dos Apóstolos põe em evidência um certo descontentamento da parte dos helenistas, judeus de cultura grega. Os Apóstolos respondem não com um qualquer discurso abstrato e, ao colocar no centro a caridade para com todos, reorganizam a assistência às viúvas, pedindo à Comunidade que procurasse pessoas sábias e estimadas a quem confiar o serviço das mesas, enquanto eles se ocupam da pregação da Palavra.
Atos dos Apóstolos 6, 1-6
Matos Soares: 1 Naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, levantou-se uma murmuração dos Helenistas contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desatendidas na distribuição quotidiana (dos socorros). 2 Então os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: “Não é conveniente que deixemos a palavra de Deus para servir às mesas. 3 Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete varões de boa reputação, cheios de Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos desta obra. 4 Nós, porém, ocupar-nos-emos totalmente na oração e no ministério da palavra.” 5 Agradou esta proposta a toda a assembleia e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos diante dos Apóstolos, e estes, depois de terem orado, impuseram-lhes as mãos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Naqueles dias, enquanto o número dos discípulos aumentava, surgiu uma queixa dos helenistas contra os hebreus, porque as suas viúvas estavam sendo negligenciadas no serviço diário. 2 Os doze convocaram a multidão dos discípulos e disseram: “Não é apropriado que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. 3 Portanto, irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, a quem possamos encarregar desta tarefa. 4 Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.” 5 Estas palavras agradaram a toda a multidão. Eles escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, um prosélito de Antioquia, 6 os quais apresentaram perante os apóstolos. Depois de orarem, impuseram-lhes as mãos.
33. Quando Paulo foi a Jerusalém para consultar os Apóstolos, a fim de «não correr ou ter corrido em vão» (Gl 2, 2)as, foi-lhe pedido que não se esquecesse dos pobres (cf. Gl 2, 10)at. Ele, então, organizou diversas coletas para ajudar as comunidades pobres. Entre as motivações que oferece para tal gesto, merece destaque a seguinte: «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7)au. Para aqueles de entre nós pouco inclinados a gestos gratuitos sem qualquer interesse, a Palavra de Deus indica que a generosidade em favor dos pobres é um verdadeiro bem para quem a pratica: efetivamente, ao agir assim somos amados por Deus de maneira especial. Na verdade, as promessas bíblicas dirigidas àqueles que dão com generosidade são muitas: «Quem dá ao pobre empresta ao Senhor, e Ele lhe retribuirá o benefício» (Pr 19, 17)av; «Dai e ser-vos-á dado: […] A medida que usardes com os outros será usada convosco» (Lc 6, 38)aw; «Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se» (Is 58, 8)ax. Os primeiros cristãos estavam convencidos de tudo isto.
Gálatas 2, 2
Matos Soares: 2 Subi, em consequência de uma revelação; conferi com eles o Evangelho que prego entre os gentios e (conferi) particularmente com aqueles que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido inutilmente.
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 Subi por revelação e expus diante deles as Evangelho que prego entre os gentios, mas em particular aos que eram respeitados, por medo de estar correndo, ou de ter corrido, em vão.
Gálatas 2, 10
Matos Soares: 10 (recomendando) somente que nos lembrássemos dos pobres (da Judeia); o que eu fui solícito em cumprir.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Eles apenas nos pediram que nos lembrássemos dos pobres — exatamente o que eu também estava empenhado em fazer.
2 Coríntios 9, 7
Matos Soares: 7 Cada um dê como propôs no seu coração, não com tristeza, nem constrangido, porque Deus ama o que dá com alegria.
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com relutância nem por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.
Provérbios 19, 17
Matos Soares: 17 O que se compadece do pobre empresta ao Senhor, e este lhe tornará o que lhe tiver emprestado.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Quem se compadece do pobre empresta ao SENHOR; e ele o recompensará.
Lucas 6, 38
Matos Soares: 38 dai, e dar-se-vos-à. Uma medida boa, cheia, recalcada e acogulada, vos será lançada nas dobras do vosso vestido. Porque, com a mesma medida com que medirdes para os outros, será medido para vós.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 38 “Deem, e lhes será dado: boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, será dada a vocês. Pois com a mesma medida com que medirem, também serão medidos.”
Isaías 58, 8
Matos Soares: 8 Então romperá a tua luz como a aurora, e a tua saúde mais depressa nascerá, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor atrás de ti. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 Então a sua luz romperá como a manhã, e a sua cura surgirá rapidamente; então a sua justiça irá adiante de você, e a glória do SENHOR será a sua retaguarda.
34. A vida das primeiras comunidades eclesiais, que chegou até nós como Palavra revelada no cânone bíblico, é-nos oferecida como exemplo a imitar e como testemunho da fé que opera através da caridade, permanecendo como admoestação perene para as gerações futuras. Ao longo dos séculos, estas páginas têm incentivado o coração dos cristãos a amar e realizar obras de caridade, como sementes fecundas que não cessam de produzir frutos.
CAPÍTULO III
UMA IGREJA PARA OS POBRES
35. Três dias após a sua eleição, o meu Predecessor manifestou aos representantes dos meios de comunicação social o anseio de que fosse mais claramente presente na Igreja o cuidado e a atenção aos pobres: «Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!». 19
36. Este desejo espelha a consciência de que a Igreja «reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo». 20 Com efeito, tendo sido chamada a configurar-se com os últimos, nela «não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima […]. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres». 21 A este respeito, temos abundantes testemunhos ao longo da história quase bimilenar dos discípulos de Jesus. 22
A verdadeira riqueza da Igreja
37. São Paulo refere que entre os fiéis da nascente comunidade cristã não havia «muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres» (1 Cor 1, 26)ay. Entretanto, apesar da própria pobreza, os primeiros cristãos têm a clara consciência da necessidade de acudir àqueles que passam maiores privações. Já nos alvores do cristianismo, os Apóstolos impõem as mãos sobre sete homens escolhidos pela comunidade e, em certo grau, integram-nos no próprio ministério, instituindo-os para o serviço – tradução da palavra diakonía em grego – dos mais pobres (cf. Act 6, 1-5)az. É significativo que o primeiro discípulo a dar testemunho da sua fé em Cristo com o derramamento do próprio sangue seja Santo Estêvão, que fazia parte deste grupo. Nele se unem o testemunho de vida na atenção aos necessitados e o martírio.
1 Coríntios 1, 26
Matos Soares: 26 Considerai, pois, Irmãos, a vossa vocação, (e vereis) que (entre vós não há) nem muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres;
Bíblia Portuguesa Mundial: 26 Pois considerem o chamado de vocês, irmãos: não há muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento;
Atos dos Apóstolos 6, 1-5
Matos Soares: 1 Naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, levantou-se uma murmuração dos Helenistas contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desatendidas na distribuição quotidiana (dos socorros). 2 Então os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: “Não é conveniente que deixemos a palavra de Deus para servir às mesas. 3 Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete varões de boa reputação, cheios de Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos desta obra. 4 Nós, porém, ocupar-nos-emos totalmente na oração e no ministério da palavra.” 5 Agradou esta proposta a toda a assembleia e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Naqueles dias, enquanto o número dos discípulos aumentava, surgiu uma queixa dos helenistas contra os hebreus, porque as suas viúvas estavam sendo negligenciadas no serviço diário. 2 Os doze convocaram a multidão dos discípulos e disseram: “Não é apropriado que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. 3 Portanto, irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, a quem possamos encarregar desta tarefa. 4 Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.” 5 Estas palavras agradaram a toda a multidão. Eles escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, um prosélito de Antioquia,
38. Pouco mais de dois séculos depois, um outro diácono manifestará a sua adesão a Jesus Cristo de modo semelhante, unindo na sua vida o serviço dos pobres e o martírio: São Lourenço. 23 A partir dos textos de Santo Ambrósio, vemos como Lourenço, diácono em Roma no pontificado do Papa Sixto II, ao ser obrigado pelas autoridades romanas a entregar os tesouros da Igreja, «trouxe consigo, no dia seguinte, os pobres. Quando lhe perguntaram onde estavam os tesouros que prometera, mostrou os pobres, dizendo: “Estes são os tesouros da Igreja”». 24 Ao narrar este episódio, Ambrósio pergunta: «Que melhores tesouros teria Cristo do que aqueles nos quais Ele mesmo disse que estava?». 25 E, recordando que os ministros da Igreja não devem jamais trascurar o cuidado dos pobres e, menos ainda, acumular bens em benefício próprio, afirma: «É necessário que cada um de nós cumpra esta obrigação com fé sincera e perspicaz providência. Sem dúvida, se alguém desvia alguma coisa para utilidade própria, isto é crime; mas, se o dá aos pobres, se resgata o cativo, isto é misericórdia». 26
Os Padres da Igreja e os pobres
39. Desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja reconheceram no pobre um acesso privilegiado a Deus, um modo especial para O encontrar. A caridade para com os necessitados não era compreendida como simples virtude moral, mas como expressão concreta da fé no Verbo encarnado. A comunidade dos fiéis, sustentada pela força do Espírito Santo, encontra-se enraizada na proximidade aos pobres, que nela não são um apêndice, mas parte essencial do seu Corpo vivo. Santo Inácio de Antioquia, por exemplo, estando a caminho do próprio martírio, exortava os fiéis da comunidade de Esmirna a não descuidar o dever da caridade para com os mais necessitados, alertando-os a não proceder como os que se opunham a Deus: «Considerai aqueles que têm opinião diferente sobre a graça de Jesus Cristo, que veio até nós: como eles se opõe ao pensamento de Deus! Não se preocupam com o amor, nem com a viúva, nem com o órfão, nem com o oprimido, nem com o prisioneiro ou liberto, nem com o faminto ou sedento». 27 O bispo de Esmirna, Policarpo, recomendava precisamente aos ministros da Igreja o cuidado dos pobres: «Os presbíteros também sejam compassivos, misericordiosos para com todos. Tragam de volta os desgarrados, visitem todos os doentes, não descuidem a viúva, o órfão e o pobre, mas sejam sempre solícitos no bem diante de Deus e dos homens». 28 A partir destes dois testemunhos, constatamos que a Igreja aparece como mãe dos pobres, lugar de acolhimento e justiça.
40. São Justino, por sua vez, na sua primeira Apologia, dirigida ao Imperador Adriano, ao Senado e ao povo romano, explicava-lhes que os cristãos levavam aos necessitados tudo o que podiam, porque viam neles irmãos em Cristo. Ao escrever sobre a assembleia de oração no primeiro dia da semana, destaca que, no centro da liturgia cristã, não se podem separar o culto a Deus da atenção aos pobres. Com efeito, num determinado momento da celebração «os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme a sua livre vontade, dão o que bem lhes parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por enfermidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provisor de todos os que se encontram indigentes». 29 Assim, testemunha-se que a Igreja nascente não separava o crer do agir social: a fé que não vinha acompanhada do testemunho das obras, como tinha ensinado São Tiago, era considerada morta (cf. Tg 2, 17)ba.
Tiago 2, 17
Matos Soares: 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.
São João Crisóstomo
41. Entre os Padres orientais, talvez o mais ardoroso pregador da justiça social seja São João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla na passagem do século IV ao século V. Nas suas homilias, exorta os fiéis a reconhecer Cristo nos necessitados: «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez. […] No templo o Corpo de Cristo não precisa de mantos, mas de almas puras; mas na pessoa dos pobres, Ele precisa de todo o nosso cuidado. Aprendamos, portanto, a refletir e a honrar a Cristo como Ele quer. Quando pretendemos honrar alguém, devemos prestar-lhe a honra que ele prefere e não a que mais nos agrada […]. Assim deves também tu prestar-Lhe aquela honra que Ele mesmo ordenou, distribuindo pelos pobres as tuas riquezas. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro». 30 Afirmando com clareza meridiana que, se os fiéis não encontram Cristo nos pobres à sua porta, tampouco serão capazes de prestar-Lhe culto no altar, prossegue: «De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra». 31 Entendia a Eucaristia, portanto, também como uma expressão sacramental da caridade e da justiça que a precediam, a acompanhavam e deveriam dar continuidade a ela no amor e na atenção aos pobres.
42. Sendo assim, a caridade não é uma via opcional, mas o critério do verdadeiro culto. Crisóstomo denunciava com veemência o luxo exacerbado, que convivia com a indiferença em relação aos pobres. A atenção que lhes é devida, mais do que mera exigência social, é condição de salvação, o que atribui à riqueza injusta um peso de condenação: «Faz muito frio e o pobre jaz em farrapos, moribundo enregelado, rangendo os dentes, com aspecto e veste que te deviam comover. Tu, contudo, aquecido e ébrio passas adiante. E como queres que Deus te livre da infelicidade? […] Muitas vezes a um cadáver insensível, que já não percebe a honra, ornas com muitas vestes variegadas e douradas. Todavia desprezas aquele que sente dor, é dilacerado, torturado, atormentado pela fome e o frio, e dás mais valor à vanglória que ao temor de Deus». 32 Este profundo senso de justiça social leva-o a afirmar que «não dar aos pobres é roubá-los, é defraudar a vida deles, pois a eles pertence o que possuímos». 33
Santo Agostinho
43. Agostinho teve como seu mestre espiritual Santo Ambrósio, que insistia na exigência ética de partilhar os bens: «Não é de tua propriedade aquilo que dás ao pobre; é dele. Porque tu te apropriaste do que foi dado para uso comum». 34 Para o Bispo de Milão, a esmola é justiça restabelecida, não um gesto paternalista. Nas suas pregações, a misericórdia assume um caráter profético: ela denuncia as estruturas de acúmulo e reafirma a comunhão como vocação eclesial.
44. Formado nesta tradição, o santo Bispo de Hipona ensinou por sua vez o amor preferencial pelos pobres. Pastor vigilante e teólogo de rara clarividência, ele compreendeu que a verdadeira comunhão eclesial se expressa também na comunhão dos bens. No seu Comentário aos Salmos, recorda que os verdadeiros cristãos não deixam de lado o amor aos mais necessitados: «atendeis os vossos irmãos, se precisam de alguma coisa; dais, se Cristo está em vós, até aos estranhos». 35 Esta partilha dos bens brota, portanto, da caridade teologal e tem como fim último o amor a Cristo. Para Agostinho, o pobre não é apenas alguém a quem se presta auxílio, mas é presença sacramental do Senhor.
45. O Doutor da Graça via no cuidado aos pobres uma prova concreta da sinceridade da fé. Aquele que diz amar a Deus e não se compadece dos necessitados, mente (cf. 1Jo 4, 20)bb. Comentando o encontro de Jesus com o jovem rico, e o “tesouro no Céu” que está reservado a quem dá os seus bens aos pobres (cf. Mt 19, 21)bc, Agostinho coloca na boca do Senhor as seguintes palavras: «Recebi terra e darei o Céu. Recebi coisas temporais e darei em troca bens eternos. Recebi pão, darei a vida. […] Recebi hospedagem e darei uma casa. Fui visitado na doença e darei a saúde. Fui visitado na prisão e darei a liberdade. O pão que foi dado aos meus pobres foi consumido; o pão que eu darei restaura as forças, sem nunca acabar». 36 O Altíssimo não se deixa vencer em generosidade por aqueles que O servem nos mais necessitados: quanto maior o amor aos pobres, maior a recompensa da parte de Deus.
1 João 4, 20
Matos Soares: 20 Se alguém disser: — eu amo a Deus — e odiar o seu irmão, é um mentiroso. Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê ?
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, e odiar o seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão a quem viu, como pode amar a Deus a quem não viu?
Mateus 19, 21
Matos Soares: 21 Jesus disse-lhe: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 21 Jesus lhe disse: “Se você quer ser perfeito, vá, venda o que tem e dê aos pobres, e você terá um tesouro no céu; depois venha e siga-me.”
46. Este olhar cristocêntrico e profundamente eclesial leva a sustentar que as ofertas, quando nascidas do amor, não aliviam apenas a necessidade do irmão, mas purificam também o coração de quem as dá e está disposto a uma mudança: «As esmolas, com efeito, podem servir-te para resgatar os pecados da vida passada, se mudares de vida». 37 Elas são, por assim dizer, o caminho ordinário da conversão de quem deseja seguir a Cristo com coração indiviso.
47. Numa Igreja que reconhece nos pobres o rosto de Cristo e nos bens o instrumento da caridade, o pensamento agostiniano permanece uma luz segura. Hoje, a fidelidade aos ensinamentos de Agostinho exige não só o estudo de suas obras, mas a predisposição para viver com radicalidade o seu apelo à conversão que inclui necessariamente o serviço da caridade.
48. Muitos outros Padres da Igreja, do Oriente e do Ocidente, se pronunciaram sobre a primazia da atenção aos pobres na vida e missão de cada fiel cristão. Sob este aspecto, em resumo, pode afirmar-se que a teologia patrística foi prática, apontando para uma Igreja pobre e para os pobres, recordando que o Evangelho só é bem anunciado quando leva a tocar a carne dos últimos, e alertando que o rigor doutrinal sem misericórdia é palavra vazia.
Cuidar dos enfermos
49. A compaixão cristã manifestou-se de modo peculiar no cuidado com os doentes e sofredores. A partir dos sinais presentes no ministério público de Jesus – que curava cegos, leprosos, paralíticos –, a Igreja entende ser parte importante da sua missão o cuidado dos enfermos, nos quais com facilidade reconhece o Senhor crucificado. São Cipriano, durante uma peste na cidade de Cartago, onde era Bispo, recordava aos cristãos a importância do cuidado com os doentes: «esta epidemia que parece tão horrível e funesta põe à prova a justiça de cada um e experimenta o espírito dos homens, verificando se os sãos servem aos enfermos, se os parentes se amam sinceramente, se os senhores têm piedade dos servos enfermos, se os médicos não abandonam os doentes que imploram». 38 A tradição cristã de visitar os doentes, de lavar as suas feridas, de confortar os aflitos não se resume a uma mera obra de filantropia, mas é ação eclesial através da qual, nos enfermos, os membros da Igreja «tocam a carne sofredora de Cristo». 39
50. No século XVI, São João de Deus, ao fundar a Ordem Hospitalar que leva o seu nome, criou hospitais modelo que acolhiam a todos, independentemente da sua condição social ou económica. A sua famosa expressão – “Fazei o bem, irmãos!” – tornou-se lema da caridade ativa com os doentes. Contemporaneamente, São Camilo de Léllis fundou a Ordem dos Ministros dos Enfermos – os Camilianos –, assumindo como missão servir os doentes com dedicação total. A sua regra ordena: «Cada qual peça a Deus que lhe dê um afeto materno para com o próximo, a fim de podermos servi-lo com todo o amor, tanto na alma quanto no corpo, pois, com a graça de Deus, desejamos servir todos os doentes com o mesmo carinho que uma extremosa mãe dedica ao seu filho doente». 40 Em hospitais, campos de batalha, prisões e ruas, os camilianos encarnaram a misericórdia de Cristo Médico.
51. Cuidando dos doentes com carinho maternal, como uma mãe cuida de seu filho, muitas mulheres consagradas desempenharam um papel ainda mais disseminado no cuidado sanitário dos pobres. As Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, as Irmãs Hospitaleiras, as Pequenas Servas da Divina Providência e tantas outras congregações femininas tornaram-se presença materna e discreta em hospitais, asilos e casas de saúde. Levaram remédio, escuta, presença e, sobretudo, ternura. Construíram, muitas vezes com as próprias mãos, estruturas sanitárias em zonas sem qualquer assistência médica. Ensinavam higiene, cuidavam dos partos, medicavam com sabedoria natural e fé profunda. As suas casas tornavam-se oásis de dignidade onde ninguém era excluído. O toque da compaixão era o primeiro remédio. Santa Luísa de Marillac escrevia às suas irmãs, Filhas da Caridade, recordando-as que haviam «recebido uma especial bênção de Deus para servir aos pobres enfermos nos hospitais». 41
52. Hoje, esse legado continua em hospitais católicos, postos de saúde em regiões periféricas, missões sanitárias nas selvas, centros de acolhimento para toxicodependentes e hospitais de campanha em zonas de guerra. A presença cristã junto aos doentes revela que a salvação não é ideia abstrata, mas gesto concreto. No gesto de limpar uma ferida, a Igreja proclama que o Reino de Deus começa entre os mais vulneráveis. E ao fazer isso, permanece fiel Àquele que disse: «Adoeci e visitastes-me» (Mt 25, 36)bd. Quando a Igreja se ajoelha diante dum leproso, criança desnutrida ou moribundo anónimo, ela realiza a sua vocação mais profunda: amar o Senhor onde Ele está mais desfigurado.
Mateus 25, 36
Matos Soares: 36 nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; estava na prisão, e fostes visitar-me,
Bíblia Portuguesa Mundial: 36 Estive nu, e vocês me vestiram. Estive doente, e vocês me visitaram. Estive na prisão, e vocês vieram me ver.’
O cuidado com os pobres na Vida Monástica
53. A vida monástica, nascida no silêncio dos desertos, foi desde o início um testemunho de solidariedade. Os monges deixavam tudo – riqueza, prestígio, família – não só por desprezar as riquezas do mundo – contemptus mundi – mas para encontrar, neste despojamento radical, o Cristo pobre. São Basílio Magno, na sua Regra, não via contradição entre a vida de oração e recolhimento dos monges e a ação em favor dos pobres. Para ele, a hospitalidade e o cuidado com os necessitados eram parte integrante da espiritualidade monástica, e os monges, mesmo depois de terem deixado tudo para abraçar a pobreza, deveriam ajudar os mais pobres com o seu trabalho, pois «para se ter com que socorrer aos necessitados, evidencia-se que devemos trabalhar com diligência […] este modo de viver é proveitoso não só para subjugar o corpo, mas ainda por causa da caridade para com o próximo, a fim de que, por nosso intermédio, Deus forneça o bastante aos irmãos mais fracos». 42
54. Construiu em Cesareia, onde era bispo, um lugar conhecido como Basilíades, que incluía alojamentos, hospitais e escolas para os pobres e doentes. O monge, portanto, não era apenas um asceta, mas um servidor. Basílio demonstrava assim que para estar perto de Deus é preciso estar próximo dos pobres. O amor concreto era critério de santidade. Orar e cuidar, contemplar e curar, escrever e acolher — tudo era expressão do mesmo amor a Cristo.
55. No Ocidente, São Bento de Núrsia elaborou uma Regra que se tornaria a espinha dorsal da espiritualidade monástica europeia. Nela, o acolhimento dos pobres e dos peregrinos ocupa lugar de honra: «Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido». 43 Não se tratava apenas de palavras: os mosteiros beneditinos foram, por séculos, lugares de refúgio para viúvas, crianças abandonadas, peregrinos e mendigos. Para Bento, a vida comunitária era uma escola de caridade. O trabalho manual não tinha apenas função prática, mas formava o coração para o serviço. A partilha entre os monges, a atenção aos doentes, a escuta dos mais frágeis preparavam para acolher Cristo que chega na pessoa do pobre e do estrangeiro. A hospitalidade monástica beneditina permanece até hoje sinal de uma Igreja que abre portas, que acolhe sem interrogar, que cura sem cobrar.
56. Os mosteiros beneditinos, com o tempo, tornaram-se lugares que contrastavam a cultura da exclusão. Os monges cultivavam a terra, produziam alimentos, preparavam remédios e ofereciam-nos, com simplicidade, aos mais necessitados. O seu trabalho silencioso foi fermento de uma nova civilização, onde os pobres não eram um problema a resolver, mas irmãos e irmãs a acolher. A regra da partilha, do trabalho comum e da assistência aos vulneráveis estruturava uma economia solidária, em contraste com a lógica da acumulação. O testemunho dos monges mostrava que a pobreza voluntária, longe de ser miséria, é caminho de liberdade e comunhão. Eles não apenas ajudavam os pobres: tornavam-se próximos deles, irmãos no mesmo Senhor. Nas celas e nos claustros, formava-se uma mística da presença de Deus nos pequenos.
57. Além da assistência material, os mosteiros desempenharam um papel fundamental na formação cultural e espiritual dos mais humildes. Em tempos de peste, guerra e fome, eram lugares onde o necessitado encontrava pão e remédio, mas também dignidade e palavra. Era ali que os órfãos eram educados, os aprendizes recebiam formação, e os camponeses eram instruídos em técnicas de agricultura e leitura. O saber era partilhado como dom e responsabilidade. O abade era ao mesmo tempo mestre e pai, e a escola monástica lugar de libertação pela verdade. Pois, como escreve João Cassiano, o monge deve caracterizar-se pela «humildade de coração […], que conduz não à ciência que incha, mas àquela que ilumina por meio da plenitude da caridade». 44 Ao formar consciências e transmitir sabedoria, os monges contribuíram para uma pedagogia cristã da inclusão. A cultura, marcada pela fé, era partilhada com simplicidade. O saber, quando iluminado pela caridade, torna-se serviço. Assim, a vida monástica revelava-se estilo de santidade e forma concreta de transformação da sociedade.
58. A tradição monástica ensina, portanto, que oração e caridade, silêncio e serviço, celas e hospitais, formam um único tecido espiritual. O mosteiro é lugar de escuta e de ação, de adoração e de partilha. São Bernardo de Claraval, grande reformador do Cister, «recordou com decisão a necessidade de uma vida sóbria e comedida, tanto à mesa como no vestuário e nos edifícios monásticos, recomendando o sustento e a atenção aos pobres». 45 Para ele, a compaixão não era uma escolha acessória, mas a estrada real do seguimento de Cristo. A vida monástica, portanto, quando fiel à sua vocação original, mostra que a Igreja só será plenamente esposa do Senhor quando for também irmã dos pobres. O claustro não é apenas refúgio do mundo, mas escola na qual se aprende a servi-lo melhor. Onde os monges abriram as suas portas aos pobres, a Igreja revelou com humildade e firmeza que a contemplação não exclui a misericórdia, mas exige-a como seu fruto mais puro.
Libertar os cativos
59. Desde os tempos apostólicos, a Igreja viu na libertação dos oprimidos um sinal do Reino de Deus. O próprio Jesus, ao iniciar a sua missão pública, proclamou: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos» (Lc 4, 18)be. Os primeiros cristãos, mesmo em condições precárias, rezavam e assistiam os irmãos presos, como testemunham os Atos dos Apóstolos (cf. 12, 5; 24, 23) e diversos escritos dos Padres. Essa missão libertadora prolongou-se ao longo dos séculos por meio de ações concretas, especialmente quando o drama da escravidão e do cativeiro marcou sociedades inteiras.
Lucas 4, 18
Matos Soares: 18 O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; me enviou a sarar os contritos do coração.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele me enviou para curar os quebrantados de coração, para proclamar libertação aos cativos, recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos,
60. Entre o final do século XII e os inícios do século XIII, quando muitos cristãos eram capturados no Mediterrâneo ou escravizados em guerras, surgiram duas ordens religiosas: a Ordem da Santíssima Trindade para a Redenção dos Cativos (Trinitários), fundada por São João de Matha e São Félix de Valois, e a Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria das Mercês (Mercedários), fundada por São Pedro Nolasco com o apoio de São Raimundo de Penhaforte, dominicano. Essas comunidades de consagrados nasceram com o carisma específico de libertar os cristãos escravizados, colocando os seus bens à disposição 46 e, muitas vezes, oferecendo a própria vida em troca. Os Trinitários, com o lema Gloria Tibi Trinitas et captivis libertas (Glória a Ti, Trindade, e aos cativos liberdade), e os Mercedários, que acrescentam um quarto voto 47 aos votos religiosos de pobreza, obediência e castidade, testemunharam que a caridade pode ser heroica. A libertação dos cativos era expressão do amor trinitário: um Deus que liberta não só da escravidão espiritual, mas também da opressão concreta. O gesto de resgatar da escravidão e do cárcere é visto como prolongamento do sacrifício redentor de Cristo, cujo sangue é o preço do nosso resgate (cf. 1Cor 6, 20)bf.
1 Coríntios 6, 20
Matos Soares: 20 Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 pois vocês foram comprados por um preço. Portanto, glorifiquem a Deus no seu corpo e no seu espírito, os quais são de Deus.
61. A espiritualidade original destas Ordens estava profundamente enraizada na contemplação da Cruz. Cristo é por excelência o Redentor dos cativos, e a Igreja, seu Corpo, prolonga esse mistério no tempo. 48 Os religiosos não viam no resgate uma ação política ou económica, mas um ato quase litúrgico, a oferenda sacramental de si mesmos. Muitos entregaram os seus próprios corpos para substituir prisioneiros, cumprindo literalmente o mandamento: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» ( Jo 15, 13)bg. A tradição destas Ordens não cessou. Pelo contrário, inspirou novas formas de ação diante das escravidões modernas: o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a exploração sexual, as diversas formas de dependência. 49 A caridade cristã, quando encarnada, torna-se libertadora. E a missão da Igreja, quando fiel ao seu Senhor, é sempre proclamar a libertação. Ainda em nossos dias, nos quais «milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura», 50 esta herança é continuada por estas Ordens e por outras instituições e congregações que atuam em periferias urbanas, zonas de conflito e corredores de migração. Quando a Igreja se inclina para quebrar as novas correntes que prendem os pobres, ela torna-se sinal da Páscoa.
João 15, 13
Matos Soares: 13 Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Ninguém tem maior amor do que este: dar a própria vida pelos seus amigos.
62. Não se pode concluir esta reflexão sobre os privados de liberdade sem fazer menção aos encarcerados nos diversos centros penitenciários e de detenção. A esse respeito, recordam-se as palavras que o Papa Francisco dirigiu a um grupo deles: «Para mim, entrar em uma penitenciária é sempre um momento importante, porque o presídio é um lugar de grande humanidade […]. De uma humanidade provada, às vezes exausta pelas dificuldades, sentimentos de culpa, julgamentos, incompreensões e sofrimento, mas ao mesmo tempo repleta de força, de desejo de perdão, de vontade de redenção». 51 Esta vontade que, entre outras, foi assumida também pelas Ordens redentoras como um serviço preferencial à Igreja. Como proclamava São Paulo: «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» ( Gl 5, 1)bh. E esta liberdade não é apenas interior: ela manifesta-se na história como amor que cuida e liberta de todas as amarras.
Gálatas 5, 1
Matos Soares: 1 Foi para gozarmos desta liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão (da lei antiga).
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Permaneçam firmes, portanto, na liberdade que Cristo nos concedeu, e não se deixem prender novamente a um jugo de escravidão.
Testemunhas da pobreza evangélica
63. No século XIII, diante do crescimento das cidades, da concentração de riquezas e do surgimento de novas formas de pobreza, o Espírito Santo suscitou na Igreja um novo tipo de consagração: as Ordens mendicantes. Ao contrário do modelo monástico estável, os mendicantes adotaram uma vida itinerante, sem propriedade pessoal ou comunitária, inteiramente confiada à Providência. Não apenas serviam os pobres: tornavam-se pobres com eles. Encaravam a cidade como novo deserto, e os marginalizados como novos mestres espirituais. Essas Ordens, como os Franciscanos, os Dominicanos, os Agostinianos e os Carmelitas, representaram uma revolução evangélica, na qual o estilo de vida simples e pobre se converte em sinal profético para a missão, revivendo a experiência da primeira comunidade cristã (cf. Act 4, 32)bi. O testemunho dos mendicantes desafiava tanto a opulência clerical quanto a frieza da sociedade urbana.
Atos dos Apóstolos 4, 32
Matos Soares: 32 A multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma, e nenhum dizia ser sua coisa alguma daquelas que possuía, mas tudo entre eles era comum.
Bíblia Portuguesa Mundial: 32 A multidão dos que creram era de um só coração e alma. Nenhum deles afirmava que algo do que possuía era seu, mas tinham todas as coisas em comum.
64. São Francisco de Assis tornou-se o ícone dessa primavera espiritual. Tomando por esposa a pobreza, quis imitar Cristo pobre, nu e crucificado. Em sua Regra, pede aos irmãos que «não tenham propriedade sobre coisa alguma, nem sobre casa, nem lugar, nem outra coisa qualquer; mas, como peregrinos e viandantes que neste mundo servem ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmolas com confiança; disso não se devem envergonhar, porque o Senhor se fez pobre por nós, neste mundo». 52 A sua vida foi um contínuo despojamento: do palácio ao leproso, da eloquência ao silêncio, da posse ao dom total. Francisco não fundou um serviço social, mas uma fraternidade evangélica. Entre os pobres, via irmãos e imagens vivas do Senhor. A sua missão era estar com eles, por uma solidariedade que superava as distâncias, por um amor compassivo. A sua pobreza era relacional: levava-o a fazer-se próximo, igual, na verdade, menor. A sua santidade brotava da convicção de que só se recebe verdadeiramente a Cristo na entrega generosa de si mesmo aos irmãos.
65. Santa Clara de Assis, inspirada por Francisco, fundou a Ordem das Damas Pobres, depois chamadas Clarissas. A sua luta espiritual consistiu em manter fielmente o ideal da pobreza radical. Recusou privilégios pontifícios que poderiam proporcionar segurança material ao seu mosteiro e, com firmeza, obteve do Papa Gregório IX o chamado Privilegium Paupertatis, garantindo o direito de viver sem a posse de qualquer bem material. 53 Esta opção expressava a confiança total em Deus, e a consciência de que a pobreza voluntária era forma de liberdade e profecia. Clara ensinava às suas irmãs que Cristo era a sua única herança e que nada devia obscurecer a comunhão com Ele. A sua vida orante e escondida foi um grito contra o mundanismo e uma defesa silenciosa dos pobres e esquecidos.
66. São Domingos de Gusmão, contemporâneo de Francisco, fundou a Ordem dos Pregadores com outro carisma, mas a mesma radicalidade. Desejava anunciar o Evangelho com a autoridade que brota duma vida pobre, convencido de que a Verdade precisa de testemunhas coerentes. O exemplo da pobreza de vida acompanhava a Palavra pregada. Livres do peso dos bens terrenos, os frades dominicanos podiam dedicar-se melhor à sua obra principal, ou seja, a pregação. Dirigiam-se às cidades, sobretudo àquelas universitárias, para ensinar a verdade de Deus. 54 Ao dependerem dos outros, demonstravam que a fé não se impõe, mas se oferece. E, ao viverem entre os pobres, aprendiam a verdade do Evangelho “de baixo”, como discípulos do Cristo humilhado.
67. As Ordens mendicantes foram, assim, resposta viva à exclusão e à indiferença. Não propuseram expressamente reformas sociais, mas uma conversão pessoal e comunitária à lógica do Reino. A pobreza, nelas, não era resultado da escassez de bens, mas uma escolha livre: fazer-se pequeno para acolher o pequeno. Como disse Tomás de Celano sobre Francisco: «Passou a ser o maior amigo dos pobres […] despiu-se para vestir os pobres, procurando assemelhar-se a eles». 55 Os mendicantes tornaram-se sinal de uma Igreja peregrina, humilde e fraterna, que vive entre os pobres não por estratégia proselitista, mas por identidade. Eles ensinam que a Igreja é luz quando se despoja de tudo e que a santidade passa por um coração humilde e dedicado aos pequenos.
A Igreja e a instrução dos pobres
68. Dirigindo-se a alguns educadores, o Papa Francisco recordava que a educação sempre foi uma das expressões mais altas da caridade cristã: «A vossa é uma missão cheia de obstáculos, mas também de alegrias […]. Uma missão de amor, porque não se pode ensinar sem amar». 56 Neste sentido, desde os primeiros tempos, os cristãos compreenderam que o saber liberta, dignifica e aproxima da verdade. Ensinar os pobres era, para a Igreja, um ato de justiça e fé. Inspirada no exemplo do Mestre que ensinava ao povo as verdades divinas e humanas, a Igreja assumiu como missão formar as crianças e os jovens, especialmente os mais pobres, na verdade e no amor. Essa missão ganhou corpo com a fundação de Congregações voltadas à educação popular.
69. No final do século XVI, São José de Calasanz, impressionado pela falta de instrução e formação dos jovens pobres da cidade de Roma, deu vida à primeira escola pública popular e gratuita da Europa, em algumas salas contíguas à Igreja de Santa Dorotéia, no bairro Trastevere. Era a semente da qual nasceria e se desenvolveria, não sem dificuldades, a Ordem dos Clérigos Regulares Pobres da Madre de Deus das Escolas Pias – cujos membros são mais conhecidos como Padres Escolápios –, com o objetivo de transmitir aos jovens «além da ciência profana, também a sabedoria do Evangelho, ensinando-lhes a captar, nas vicissitudes pessoais e na história, a ação amorosa de Deus Criador e Redentor». 57 Com efeito, podemos considerar este corajoso sacerdote como «o verdadeiro fundador da moderna escola católica, que visa a formação integral do homem e está aberta a todos». 58 Animado pela mesma sensibilidade, no século XVII, São João Batista de La Salle, percebendo a injustiça causada pela exclusão dos filhos dos operários e camponeses do sistema educacional da França do seu tempo, fundou os Irmãos das Escolas Cristãs, com o ideal de lhes oferecer ensino gratuito, formação sólida e ambiente fraterno. La Salle via na sala de aula um espaço de promoção humana, mas também de conversão. Os seus colégios uniam oração, método, disciplina e partilha. Cada criança era considerada um dom único de Deus, e o ato de ensinar, um serviço ao Reino de Deus.
70. Já no século XIX, também na França, São Marcelino Champagnat funda o Instituto dos Irmãos Maristas das Escolas, «sensível às necessidades espirituais e educativas da sua época, sobretudo a ignorância religiosa e as situações de abandono vividas em particular pela juventude», 59 dedicando-se com todo o afinco, num período em que o acesso à educação continuava a ser um privilégio de poucos, à missão de educar e evangelizar crianças e jovens, especialmente os mais necessitados. Com o mesmo espírito, na Itália, São João Bosco iniciou a grande obra Salesiana, fundamentada sobre os três princípios do “Método preventivo” – razão, religião e amabilidade – 60 e o Beato António Rosmini fundou o Instituto da Caridade, no qual a “caridade intelectual” – junto à “material” e tendo como ápice a “espiritual-pastoral” –, era apresentada como dimensão indispensável para qualquer ação caritativa que buscasse o bem e o desenvolvimento integral da pessoa. 61
71. Muitas Congregações femininas também foram protagonistas dessa revolução pedagógica. As Ursulinas, a Ordem da Companhia de Maria Nossa Senhora, as Mestras Pias e tantas outras, fundadas especialmente no século XVIII e XIX, ocuparam espaços onde o Estado era ausente. Criaram escolas nos pequenos vilarejos, nas zonas de periferia e nos bairros operários. A educação das meninas, em especial, tornou-se prioridade. As religiosas alfabetizavam, evangelizavam, tratavam das questões práticas da vida quotidiana, elevavam o espírito através do cultivo das artes e, sobretudo, formavam consciências. A pedagogia era simples: proximidade, paciência, doçura. Ensinavam com a vida, antes das palavras. Em tempos de analfabetismo generalizado e exclusão estrutural, essas mulheres consagradas foram faróis de esperança. A sua missão era formar o coração, ensinar a pensar, fazer florescer a dignidade. Unindo vida de piedade e dedicação ao próximo, resistiam ao abandono com a ternura de quem educa em nome de Cristo.
72. A educação dos pobres, para a fé cristã, não é um favor, mas um dever. Os pequenos têm direito à sabedoria, como exigência básica do reconhecimento da dignidade humana. Ensinar-lhes é reconhecer o seu valor, dando-lhes instrumentos para transformar a sua realidade. A tradição cristã entende que o saber é dom de Deus e responsabilidade comunitária. O ensino cristão forma não apenas profissionais, mas pessoas abertas ao bem, ao belo e à verdade. Sendo assim, a escola católica, quando fiel ao seu nome, torna-se espaço de inclusão, de formação integral e de promoção humana; conjugando fé e cultura, semeia-se futuro, honra-se a imagem de Deus e constrói-se uma sociedade melhor.
Acompanhar os migrantes
73. A experiência da migração acompanha a história do povo de Deus. Abraão parte sem saber para onde vai; Moisés conduz um povo peregrino pelo deserto; Maria e José fogem com o Menino para o Egito. O próprio Cristo, que «veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (Jo 1, 11)bj, viveu entre nós como estrangeiro. Por isso, a Igreja sempre reconheceu nos migrantes uma presença viva do Senhor que dirá, no dia do juízo, aos que estiverem à sua direita: «era peregrino e recolhestes-me» (Mt 25, 35)bk.
João 1, 11
Matos Soares: 11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mateus 25, 35
Matos Soares: 35 porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era peregrino, e recolhestes-me; (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 35 pois eu tive fome, e vocês me deram de comer. Tive sede, e vocês me deram de beber. Fui estrangeiro, e vocês me acolheram.
74. No século XIX, quando milhões de europeus emigravam em busca de melhores condições de vida, dois grandes santos se destacaram no cuidado pastoral dos migrantes: São João Batista Scalabrini e Santa Francisca Xavier Cabrini. Scalabrini, bispo de Piacenza, fundou os Missionários de São Carlos para acompanhar os migrantes nas suas comunidades de destino, oferecendo-lhes assistência espiritual, jurídica e material. Nos migrantes viu destinatários de uma nova evangelização, alertando para os riscos da exploração e da perda da fé em terra estrangeira. Correspondendo com generosidade ao carisma que o Senhor lhe tinha concedido, «Scalabrini olhava mais além, olhava lá para diante, para um mundo e uma Igreja sem barreiras, sem estrangeiros». 62 Santa Francisca Cabrini, nascida na Itália e naturalizada estadunidense, tornou-se a primeira cidadã dos Estados Unidos a ser canonizada. Para cumprir a sua missão de atender aos migrantes, cruzou o Atlântico diversas vezes, e «armada de singular audácia, partindo do nada iniciou escolas, hospitais, orfanatos para a multidão de deserdados que se aventuraram no novo mundo em busca de trabalho, desprovidos do conhecimento da língua e de meios capazes de lhes permitir uma decorosa inserção na sociedade americana, e muitas vezes vítimas de pessoas sem escrúpulos. O seu coração materno, irrequieto, ia ao encontro deles em todas as partes: nos tugúrios, nos cárceres, nas minas». 63 No Ano Santo de 1950, o Papa Pio XII proclamou-a Padroeira de todos os migrantes. 64
75. A tradição da atividade da Igreja junto aos migrantes prosseguiu e hoje esse serviço expressa-se em iniciativas como os centros de acolhimento para refugiados, as missões nas fronteiras, e os esforços de Caritas Internationalis e de outras instituições. O Magistério contemporâneo reafirma com clareza este compromisso. O Papa Francisco recordava que a missão da Igreja junto aos migrantes e refugiados era ainda mais ampla, insistindo que «a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Mas estes verbos não valem apenas para os migrantes e os refugiados; exprimem a missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados». 65 E acrescentava: «Todo ser humano é um filho de Deus! Nele está impressa a imagem de Cristo! Trata-se, então, de o vermos, nós, em primeiro lugar, e de ajudar os outros a verem no migrante e no refugiado não só um problema para lidar, mas um irmão e uma irmã a serem acolhidos, respeitados e amados; trata-se de uma oportunidade que a Providência nos oferece para contribuir na construção de uma sociedade mais justa, de uma democracia mais completa, de um país mais inclusivo, de um mundo mais fraterno e de uma comunidade cristã mais aberta, de acordo com o Evangelho». 66 A Igreja, como mãe, caminha com os que caminham. Onde o mundo vê ameaça, ela vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que o Evangelho só é crível quando se traduz em gestos de proximidade e de acolhimento; e que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade.
Ao lado dos últimos
76. A santidade cristã floresce, com frequência, nos lugares mais esquecidos e feridos da humanidade. Os mais pobres entre os pobres – que não apenas carecem de bens, mas também de voz e do reconhecimento da sua dignidade – ocupam um lugar especial no coração de Deus. São os preferidos do Evangelho, os herdeiros do Reino (cf. Lc 6, 20)bl. É neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. É neles que a Igreja reencontra o chamamento a mostrar a sua realidade mais autêntica.
Lucas 6, 20
Matos Soares: 20 Levantando os olhos para os seus discípulos, dizia: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Ele levantou os olhos para os seus discípulos e disse: “Bem-aventurados são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês.
77. Santa Teresa de Calcutá, canonizada em 2016, tornou-se ícone universal da caridade vivida até o extremo em favor dos mais indigentes, descartados pela sociedade. Fundadora das Missionárias da Caridade, dedicou a sua vida aos moribundos abandonados nas ruas da Índia. Recolhia os rejeitados, lavava as suas feridas, acompanhava-os até ao momento da morte com uma ternura que era prece. O seu amor pelos mais pobres entre os pobres fazia com que se ocupasse não somente de os atender em suas necessidades materiais, mas também de lhes anunciar a boa nova do Evangelho: «Queremos proclamar a boa nova aos pobres de que Deus os ama, de que nós os amamos, de que eles são alguém para nós, de que eles foram criados pela mesma mão amorosa de Deus, para amar e ser amados. Os nossos pobres são ótimas pessoas, pessoas muito amáveis, eles não necessitam da nossa pena ou compaixão, eles precisam do nosso amor compreensivo. Eles precisam do nosso respeito; eles precisam que os tratemos com dignidade». 67 Tudo isso nascia de uma profunda espiritualidade que via o serviço aos mais pobres como fruto da oração e do amor, gerador da verdadeira paz, como recordava o Papa João Paulo II aos peregrinos vindos a Roma para a sua beatificação: «Onde foi que Madre Teresa encontrou a força para se dedicar completamente ao serviço do próximo? Encontrou-a na oração e na contemplação silenciosa de Jesus Cristo, do seu Santo Rosto, do seu Sagrado Coração . Ela mesma o disse: “O fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço, o fruto do serviço é a paz” […] Era uma oração que enchia o seu coração com a paz de Cristo e lhe permitia irradiar essa paz aos outros». 68 Teresa não se considerava filantropa nem ativista, mas esposa de Cristo crucificado, a quem servia com amor total nos irmãos sofredores.
78. No Brasil, Santa Dulce dos Pobres – conhecida como o “anjo bom da Bahia” – encarnou o mesmo espírito evangélico com feições brasileiras. Referindo-se a ela e a outras duas religiosas canonizadas na mesma celebração, o Papa Francisco recordava o amor que professavam aos mais marginalizados da sociedade e afirmava que as novas Santas «mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo» 69. Irmã Dulce enfrentou a precariedade com criatividade, os obstáculos com ternura, a carência com fé inabalável. Começou acolhendo doentes num galinheiro, e dali fundou uma das maiores obras sociais do país. Atendia milhares de pessoas por dia, sem jamais perder a doçura. Fez-se pobre com os pobres por amor ao sumamente Pobre. Vivia com pouco, rezava com fervor e servia com alegria. A sua fé não a retirava do mundo, mas lançava-a ainda mais profundamente nas dores dos últimos.
79. Poderiam ser lembrados também São Bento Menni e as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus auxiliando as pessoas com deficiências de desenvolvimento; São Charles de Foucauld entre as comunidades do Saara; Santa Katharine Drexel junto dos grupos menos favorecidos na América do Norte; Irmã Emmanuelle com os catadores de lixo no bairro Ezbet El Nakhl na cidade do Cairo; e muitíssimos outros. Cada um, à sua maneira, descobriu que os mais pobres não são mero objeto da nossa compaixão, mas mestres do Evangelho. Não se trata de lhes “levar Deus”, mas de encontrá-Lo ali. Todos estes exemplos ensinam que servir aos pobres não é um gesto de cima para baixo, mas um encontro de igual para igual, onde Cristo é revelado e adorado. São João Paulo II recordava-nos que «há na pessoa dos pobres uma especial presença de Cristo, obrigando a Igreja a uma opção preferencial por eles». 70 A Igreja, portanto, quando se curva até ao chão para cuidar dos pobres, assume a sua postura mais elevada.
Movimentos populares
80. Ao longo dos séculos da história cristã, devemos igualmente reconhecer que a ajuda aos pobres e a luta pelos seus direitos não envolveu apenas indivíduos, algumas famílias, instituições ou comunidades religiosas. Houve, e há, vários movimentos populares, constituídos por leigos e conduzidos por líderes populares, colocados muitas vezes sob suspeita e até perseguidos. Refiro-me a um «conjunto de pessoas que não caminham como indivíduos, mas como o tecido duma comunidade de todos e para todos, que não pode permitir que os mais pobres e frágeis fiquem para trás […]. Portanto os líderes populares são aqueles que têm a capacidade de integrar a todos […]. Não lhes fazem repugnância nem metem medo os jovens chagados e crucificados». 71
81. Estes líderes populares sabem que a solidariedade consiste também em «lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destruidores do império do dinheiro […]. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem». 72 Por essa razão, quando as diferentes instituições pensam nas necessidades dos pobres, é necessário «que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum». 73 Com efeito, os movimentos populares convidam a superar «aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos». 74 Se os políticos e os profissionais não os ouvirem, «a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino». 75 O mesmo se deve dizer das instituições da Igreja.
CAPÍTULO IV
UMA HISTÓRIA QUE CONTINUA
O século da Doutrina Social da Igreja
82. A acelerada transformação tecnológica e social dos últimos dois séculos, cheia de trágicas contradições, não foi apenas sofrida pelos pobres, mas também por eles enfrentada e pensada. Os movimentos de trabalhadores, mulheres e jovens, assim como a luta contra a discriminação racial levaram a uma nova consciência da dignidade daqueles que estão à margem. Também o contributo da Doutrina Social da Igreja tem em si esta raiz popular que não se pode esquecer: seria inimaginável a releitura da Revelação cristã nas modernas circunstâncias sociais, laborais, económicas e culturais sem leigos cristãos envolvidos com os desafios do seu tempo. Ao seu lado, atuaram religiosas e religiosos, testemunhas de uma Igreja em saída dos caminhos já percorridos. A mudança de época que enfrentamos hoje torna ainda mais necessária a interação contínua entre batizados e Magistério, entre cidadãos e peritos, entre povo e instituições. Em particular, é preciso reconhecer novamente que a realidade se vê melhor a partir das periferias e que os pobres são sujeitos de uma inteligência específica, indispensável à Igreja e à humanidade.
83. O Magistério dos últimos cento e cinquenta anos oferece um verdadeiro tesouro de ensinamentos sobre os pobres. Deste modo, os Bispos de Roma fizeram-se voz de novas consciências, passadas pelo crivo do discernimento eclesial. Por exemplo, na Carta encíclica Rerum novarum (1891), Leão XIII abordou a questão do trabalho, expondo a situação intolerável de muitos operários da indústria e propondo o estabelecimento de uma ordem social justa. Nesta linha se manifestaram também outros Pontífices. Com a Encíclica Mater et Magistra (1961), São João XXIII fez-se promotor de uma justiça de dimensões mundiais: os países ricos não podiam permanecer indiferentes face aos países oprimidos pela fome e pela miséria, mas eram chamados a socorrê-los generosamente com todos os seus bens.
84. O Concílio Vaticano II representa uma etapa fundamental no discernimento eclesial sobre os pobres, à luz da Revelação. Embora nos documentos preparatórios esse tema fosse secundário, São João XXIII chamou a atenção para o mesmo na Radiomensagem de 11 de setembro de 1962, a um mês da abertura do Concílio, com palavras inesquecíveis: «A Igreja apresenta-se como é e como quer ser, como Igreja de todos e particularmente Igreja dos pobres». 76 Houve, então, o grande trabalho de Bispos, teólogos e peritos preocupados com a renovação da Igreja – com o apoio do próprio São João XXIII – que reorientou o Concílio. É fundamental a natureza cristocêntrica, isto é, doutrinal e não apenas social, de tal reflexão. Efetivamente, numerosos Padres conciliares favoreceram a consolidação da consciência, bem expressa pelo cardeal Lercaro na sua intervenção memorável de 6 de dezembro de 1962, de que «o mistério de Cristo na Igreja sempre foi e continua a ser – e hoje de modo especial – o mistério de Cristo presente nos pobres», 77 e de que «não se trata de um tema qualquer, mas, em certo sentido, é o único tema de todo o Vaticano II». 78 O Arcebispo de Bolonha, preparando o texto desta intervenção, anotava: «Esta é a hora dos pobres, dos milhões de pobres que estão em toda a terra, esta é a hora do mistério da Igreja mãe dos pobres, esta é a hora do mistério de Cristo, sobretudo no pobre». 79 Desse modo, apresentava-se a necessidade de uma nova forma eclesial, mais simples e sóbria, que envolvesse todo o povo de Deus e a sua figura histórica. Uma Igreja mais parecida com o seu Senhor do que com os poderes mundanos, propensa a estimular em toda a humanidade um compromisso concreto para a solução do grande problema da pobreza no mundo.
85. São Paulo VI, por ocasião da abertura da segunda sessão do Concílio, retomou o tema levantado pelo seu predecessor, ou seja, que a Igreja olha com particular interesse «para os pobres, para os necessitados, para os aflitos, para os famintos, os que sofrem, os encarcerados, os que têm fome; isto é, olha para toda a humanidade que sofre e chora, pois a Igreja sabe que esta lhe pertence, por direito evangélico». 80 Na Audiência Geral de 11 de novembro de 1964, ele sublinhou que «o pobre é representante de Cristo» e, associando a imagem do Senhor nos últimos à que se manifesta no Papa, afirmou: «A representação de Cristo no pobre é universal, todo o pobre reflete Cristo; a do Papa é pessoal. […] O pobre e Pedro podem coincidir, podem ser a mesma pessoa, revestida de uma dupla representação: a da pobreza e a da autoridade». 81 Deste modo, o vínculo intrínseco entre a Igreja e os pobres ficava simbolicamente expresso com uma clareza inédita.
86. Na Constituição pastoral Gaudium et spes, o Concílio, atualizando a herança dos Padres da Igreja, reafirmou com força a destinação universal dos bens da terra e a função social da propriedade que dela deriva: «Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos […] Por esta razão, quem usa desses bens, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também aos outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias. […] Aquele, porém, que se encontra em extrema necessidade, tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita. […] De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens». 82 Esta convicção é reafirmada por São Paulo VI na Encíclica Populorum progressio, onde lemos que ninguém pode considerar-se com o «direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário». 83 No seu discurso à ONU, o Papa Montini apresentou-se como o advogado dos povos pobres 84, instando a comunidade internacional a construir um mundo solidário.
87. Com São João Paulo II, consolida-se, pelo menos no âmbito doutrinário, a relação preferencial da Igreja com os pobres. Com efeito, o seu magistério reconheceu que a opção pelos pobres é uma «forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja». 85 Na Encíclica Sollicitudo rei socialis, também escreve que hoje, dada a dimensão mundial que a questão social assumiu, «este amor preferencial, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor: não se pode deixar de ter em conta a existência destas realidades. Ignorá-las significaria tornar-nos como o “rico epulão”, que fingia não conhecer o pobre Lázaro, que jazia ao seu portão (cf. Lc 16, 19-31)bm». 86 O seu ensinamento sobre o trabalho adquire especial relevância quando nos propomos pensar no papel ativo dos pobres na renovação da Igreja e da sociedade, deixando para trás o paternalismo da mera assistência às suas imediatas necessidades. Na Encíclica Laborem exercens, ele afirma que «o trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social». 87
Lucas 16, 19-31
Matos Soares: 19 Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho fino, e todos os dias se banqueteava esplêndidamente. 20 Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, 21 desejando saciar-se com as migalhas que caiam da mesa do rico… e até os cães vinham lamber-Ihe as chagas. 22 Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado. 23 Quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. 24 Então exclamou; Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama. 25 Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; por isso ele é agora consolado, e tu és atormentado. 26 Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós, não podem, nem os daí podem passar para nós. 27 O rico disse: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, 28 pois tenho cinco irmãos, para que os advirta disto, e não suceda virem também eles parar a este lugar de tormentos. 29 Abraão disse-lhe: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. 30 Ele, porém, disse: Não basta isso pai Abraão, mas, se algum dos mortos for ter com eles, farão penitência. […]
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 “Ora, havia um certo homem rico, e ele se vestia de púrpura e de linho fino, vivendo em luxo todos os dias. 20 Um certo mendigo chamado Lázaro era colocado junto ao seu portão, cheio de feridas, 21 e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do homem rico. Sim, até os cães vinham e lambiam as suas feridas. 22 O mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão. O homem rico também morreu e foi sepultado. 23 No Hades, ele ergueu os olhos, estando em tormento, e viu Abraão de longe, e Lázaro no seu seio. 24 Ele clamou e disse: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda Lázaro, para que molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua! Pois estou em angústia nesta chama.’ 25 “Mas Abraão disse: ‘Filho, lembre-se de que você, durante a sua vida, recebeu as suas coisas boas, e Lázaro, da mesma forma, coisas más. Mas agora ele está consolado aqui, e você está em angústia. 26 Além de tudo isso, entre nós e vocês há um grande abismo estabelecido, para que os que quiserem passar daqui para vocês não possam, e para que ninguém atravesse de lá para nós.’ 27 “Ele disse: ‘Eu te peço, portanto, pai, que o envies à casa do meu pai— 28 pois tenho cinco irmãos—para que ele testemunhe a eles, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.’ 29 “Mas Abraão lhe disse: ‘Eles têm Moisés e os profetas. Que os ouçam.’ 30 “Ele disse: ‘Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for até eles, eles se arrependerão.’ […]
88. Diante das múltiplas crises que assinalaram o início do terceiro milénio, a leitura de Bento XVI torna-se mais marcadamente política. Assim, na Carta encíclica Caritas in veritate, afirma que «ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dê resposta também às suas necessidades reais». 88 Além disso, observa que «a fome não depende tanto de uma escassez material, como sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante dos quais é de natureza institucional; isto é, falta um sistema de instituições económicas que seja capaz de garantir um acesso regular, e adequado do ponto de vista nutricional, à alimentação e à água e também de enfrentar as carências relacionadas com as necessidades primárias e com a emergência de reais e verdadeiras crises alimentares provocadas por causas naturais ou pela irresponsabilidade política nacional e internacional». 89
89. O Papa Francisco reconheceu como, nas últimas décadas, além do magistério dos Bispos de Roma, também se tornaram cada vez mais frequentes as tomadas de posição por parte das Conferências Episcopais nacionais e regionais sobre este tema. Ele mesmo, por exemplo, pôde testemunhar pessoalmente o empenho particular do episcopado latino-americano em repensar a relação da Igreja com os pobres. No pós-Concílio, em quase todos os países da América Latina, sentiu-se com muita força a identificação da Igreja com os pobres e a participação ativa na sua redenção. Era o próprio coração da Igreja que se movia diante de tantos pobres afligidos pelo desemprego, subemprego e salários miseráveis, obrigados a viver em condições deploráveis. O martírio de São Oscar Romero, Arcebispo de San Salvador, foi ao mesmo tempo um testemunho e uma exortação viva para a Igreja. Ele sentia como próprio o drama da grande maioria dos seus fiéis, fazendo deles o centro da sua opção pastoral. As Conferências do Episcopado Latino-Americano em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida constituem etapas significativas também para toda a Igreja. Eu mesmo, missionário no Peru durante tantos anos, devo muito a este caminho de discernimento eclesial, que o Papa Francisco com sabedoria soube unir ao de outras Igrejas particulares, especialmente do chamado Sul global. Gostaria, agora, de retomar dois temas específicos deste magistério episcopal.
Estruturas de pecado que criam pobreza e desigualdades extremas
90. Em Medellín, os Bispos pronunciaram-se a favor da opção preferencial pelos pobres: «Cristo, nosso Salvador, não só amou aos pobres, mas também, “sendo rico se fez pobre”, viveu na pobreza, centralizando sua missão no anúncio da libertação aos pobres e fundou sua Igreja como sinal dessa pobreza entre os homens. […] A pobreza de tantos irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso, esforço e superação para o cumprimento pleno da missão salvífica confiada por Cristo». 90 Os Bispos afirmaram com veemência que a Igreja, para ser plenamente fiel à sua vocação, não deve apenas compartilhar a condição dos pobres, mas colocar-se também ao lado deles e empenhar-se ativamente pela sua promoção integral. A Conferência de Puebla, diante do agravamento da miséria na América Latina, confirmou a decisão de Medellín com uma opção franca e profética a favor dos pobres e qualificou as estruturas de injustiça como “pecado social”.
91. A caridade é uma força que muda a realidade, um autêntico poder histórico de transformação. Esta é a fonte da qual deve nutrir-se todo o compromisso para «resolver as causas estruturais da pobreza» 91 e para o fazer com urgência. Espero, portanto, que «cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo», 92 porque «trata-se de ouvir o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra». 93
92. É necessário, portanto, continuar a denunciar a “ditadura de uma economia que mata” e reconhecer que «enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras». 94 Embora não faltem diversas teorias que tentam justificar o estado atual das coisas ou explicar que a racionalidade económica nos exige esperar que as forças invisíveis do mercado resolvam tudo, a dignidade de cada pessoa humana deve ser respeitada já agora, não só amanhã, e a situação de miséria de tantas pessoas, a quem é negada esta dignidade, deve ser um apelo constante à nossa consciência.
93. Na Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco recordou que o pecado social assume a forma de uma “estrutura de pecado” na sociedade, fazendo frequentemente parte de uma «mentalidade dominante que considera normal ou racional o que não passa de egoísmo e indiferença. Este fenómeno pode definir-se como alienação social». 95 Torna-se normal ignorar os pobres e viver como se eles não existissem. Apresenta-se como uma escolha razoável organizar a economia exigindo sacrifícios ao povo, para atingir certos objetivos que interessam aos poderosos. Entretanto, para os pobres restam apenas promessas de “gotas” que cairão, até que uma nova crise global os conduza de volta à situação na qual estavam anteriormente. É uma verdadeira alienação que leva a encontrar apenas desculpas teóricas e não a tentar resolver hoje os problemas concretos daqueles que sofrem. Já o dizia São João Paulo II: «Alienada é a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-humana». 96
94. Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza. É uma urgência que «não pode esperar; e não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a curar de uma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias». 97 A falta de equidade «é a raiz dos males sociais». 98 Com efeito, «muitas vezes constata-se que, realmente, os direitos humanos não são iguais para todos». 99
95. Acontece que «no modelo “do êxito” e “individualista” em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida». 100 A pergunta que reiteradamente surge é sempre a mesma: os menos dotados não são seres humanos? Os mais fracos não têm a nossa mesma dignidade? Aqueles que nasceram com menos possibilidades valem menos como seres humanos e devem limitar-se apenas a sobreviver? A resposta que damos a estas perguntas determina o valor das nossas sociedades e dela também depende o nosso futuro: ou reconquistamos a nossa dignidade moral e espiritual ou caímos numa espécie de poço de imundície. Se não pararmos a pensar as coisas a sério, continuaremos, de forma explícita ou dissimulada, a «legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo». 101
96. Entre as questões estruturais que não se pode imaginar conseguir resolver a partir de cima e que exigem ser tratadas o mais rapidamente possível, conta-se a dos lugares, espaços, casas e cidades onde os pobres vivem e caminham. Bem o sabemos: «Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo fator de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projeto arquitetónico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro!». 102 Ao mesmo tempo, «não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas». 103 Com efeito, «a deterioração do meio ambiente e a da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta». 104
97. Portanto, mesmo correndo o risco de parecer “estúpidos”, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha. As estruturas de injustiça devem ser reconhecidas e destruídas com a força do bem, através da mudança de mentalidades e também, com a ajuda da ciência e da técnica, através do desenvolvimento de políticas eficazes na transformação da sociedade. É preciso recordar sempre que a proposta do Evangelho não é apenas a de uma relação individual e íntima com o Senhor. Ela é mais ampla: «é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43)bn; trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o seu Reino». 105
Lucas 4, 43
Matos Soares: 43 Mas ele disse-lhes: “É necessário que eu anuncie também às outras cidades a boa nova do reino de Deus, pois para isso é que fui enviado.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 43 Mas ele lhes disse: “Eu devo pregar o evangelho do Reino de Deus também às outras cidades. Por esse motivo fui enviado.”
98. Por fim, um documento que inicialmente não foi bem recebido por todos, oferece-nos uma reflexão sempre atual: «É frequente dirigir aos defensores da “ortodoxia” a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações. A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza, são exigidos a todos, especialmente aos pastores e aos responsáveis. A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação de dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido, através de uma vida teologal integral». 106
Os pobres como sujeitos
99. Um dom fundamental para o caminho da Igreja universal é representado pelo discernimento da Conferência de Aparecida, na qual os Bispos latino-americanos explicitaram que a opção preferencial pelos pobres por parte da Igreja «está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza». 107 No Documento, a missão é contextualizada na atual situação de um mundo globalizado, com os seus novos e dramáticos desequilíbrios, 108 e, na Mensagem final, os Bispos escrevem: «As agudas diferenças entre ricos e pobres nos convidam a trabalhar com maior empenho para ser discípulos que sabem partilhar a mesa da vida, mesa de todos os filhos e filhas do Pai, mesa aberta, inclusiva, na qual não falte ninguém. Por isso reafirmamos nossa opção preferencial e evangélica pelos pobres». 109
100. Ao mesmo tempo, o documento, ao aprofundar um tema já presente nas Conferências anteriores do Episcopado da América Latina, insiste na necessidade de considerar as comunidades marginalizadas como sujeitos capazes de criar cultura própria, mais do que como objetos de beneficência. Isso implica que tais comunidades têm o direito de viver o Evangelho, celebrar e comunicar a fé de acordo com os valores presentes nas suas culturas. A experiência da pobreza dá-lhes a capacidade de reconhecer aspectos da realidade que outros não conseguem ver e, por isso, a sociedade precisa de as ouvir. O mesmo vale para a Igreja, que deve avaliar positivamente a maneira “popular” delas viverem a fé. Um bonito trecho do documento final de Aparecida ajuda-nos a refletir sobre este ponto, a fim de encontrar a atitude correta: «Só a proximidade que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores dos pobres de hoje, seus legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. […] Dia a dia os pobres se fazem sujeitos da evangelização e da promoção humana integral: educam seus filhos na fé, vivem constante solidariedade entre parentes e vizinhos, procuram constantemente a Deus e dão vida ao peregrinar da Igreja. À luz do Evangelho reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de Cristo, pobre como eles e excluído como eles. A partir dessa experiência cristã, compartilhamos com eles a defesa de seus direitos». 110
101. Tudo isto pressupõe a presença de um aspecto na opção pelos pobres que devemos recordar constantemente: com efeito, tal opção exige de nós «uma atenção prestada ao outro […]. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo procurar efetivamente o seu bem. Isto implica apreciar o pobre na sua bondade própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a fé. O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência […]. Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação». 111 Por esta razão, dirijo um sincero agradecimento a todos aqueles que escolheram viver entre os pobres: àqueles que não só vão visitá-los de vez em quando, mas que vivem com eles e como eles. Esta é uma opção que deve encontrar lugar entre as formas mais elevadas da vida evangélica.
102. Nesta perspectiva, torna-se clara a necessidade de «que todos nos deixemos evangelizar» 112 pelos pobres e reconheçamos «a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles». 113 Crescidos em extrema precariedade, aprendendo a sobreviver nas condições mais adversas, confiando em Deus com a certeza de que mais ninguém os leva a sério, ajudando-se mutuamente nos momentos mais sombrios, os pobres aprenderam muitas coisas que guardam no mistério dos seus corações. Aqueles de entre nós que não fizeram experiências semelhantes, de viver à margem, certamente têm muito a receber da fonte de sabedoria que é a experiência dos pobres. Só comparando as nossas queixas com os seus sofrimentos e privações é possível receber uma repreensão que nos convida a simplificar a vida.
CAPÍTULO V
UM PERMANENTE DESAFIO
103. Escolhi recordar esta história bimilenária de atenção eclesial aos pobres e com os pobres para mostrar que ela é parte essencial do caminho ininterrupto da Igreja. O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos. Portanto, devemos sentir a urgência de convidar todos a entrar neste rio de luz e vida que provém do reconhecimento de Cristo no rosto dos necessitados e dos sofredores. O amor pelos pobres é um elemento essencial da história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades, como de cada um individualmente. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria “carne” a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por isso, o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus. Efetivamente, toda a renovação eclesial sempre teve entre as suas prioridades esta atenção preferencial pelos pobres, que se diferencia, tanto nas motivações como no estilo, da atividade de qualquer outra organização humanitária.
104. O cristão não pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma “questão familiar”. Pertencem “aos nossos”. A relação com eles não pode ser reduzida a uma atividade ou departamento da Igreja. Como ensina a Conferência de Aparecida, «solicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossa vida, e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação. Não podemos esquecer que o próprio Jesus propôs isso com seu modo de agir e com suas palavras». 114
Novamente o bom samaritano
105. A cultura dominante do início deste milénio impele-nos a abandonar os pobres ao seu próprio destino, a não os considerar dignos de atenção e muito menos de apreço. Na Encíclica Fratelli tutti, o Papa Francisco convida-nos a refletir sobre a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37)bo, precisamente para aprofundar este ponto. Na parábola, vemos que, diante daquele homem ferido e abandonado à beira do caminho, os que passam têm atitudes diferentes. Apenas o bom samaritano cuida dele. Então, volta a pergunta que interpela cada um de nós: «Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima». 115
Lucas 10, 25-37
Matos Soares: 25 Eis que se levantou um doutor da lei, e lhe disse para o tentar: “Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?” 26 Jesus respondeu-lhe: “O que é que está escrito na lei? Como lês tu?” 27 Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo.” 28 Jesus disse-lhe: “Respondeste bem ; faz isso, e viverás (Lv. 18, 5).” 29 Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30 Jesus, retomando a palavra, disse; “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões, que o despojaram, e, tendo-lhe feito feridas, retiraram-se, deixando-o meio morto. 31 Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote, o qual, quando o viu, passou de largo. 32 Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar, e vendo-o, passou adiante. 33 Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto dele, e, quando o viu, moveu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, lançando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem, e teve cuidado dele. 35 No dia seguinte tirou dois dinheiros, deu-os ao estalajadeiro, e disse-lhe: Tem cuidado dele; quanto gastares a mais, eu to satisferei quando voltar. 36 Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” […]
Bíblia Portuguesa Mundial: 25 Eis que um certo intérprete da lei se levantou e o testou, dizendo: “Mestre, o que farei para herdar a vida eterna?” 26 Ele lhe disse: “O que está escrito na lei? Como você lê?” 27 Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e ao teu próximo como a ti mesmo.” 28 Ele lhe disse: “Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá.” 29 Mas ele, desejando justificar a si mesmo, perguntou a Jesus: “E quem é o meu próximo?” 30 Jesus respondeu: “Um certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e o espancaram, e se retiraram, deixando-o quase morto. 31 Por acaso, um certo sacerdote descia por aquele caminho. Quando o viu, passou pelo outro lado. 32 Do mesmo modo, também um levita, quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. 33 Mas um certo samaritano, estando de viagem, chegou onde ele estava. Quando o viu, moveu-se de compaixão, 34 aproximou-se dele e atou-lhe as feridas, derramando nelas óleo e vinho. Ele o colocou sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. 35 No dia seguinte, ao partir, ele tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e lhe disse: ‘Cuide dele. O que gastar além disso, eu lhe pagarei quando voltar.’ 36 Qual destes três, pois, lhe parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” […]
106. Faz-nos muito bem descobrir que a história do bom samaritano se repete também hoje. Recordemos uma situação dos nossos dias: «Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á porventura entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano?». 116 O que fez o bom samaritano?
107. A pergunta torna-se urgente porque nos ajuda a perceber uma grave lacuna nas nossas sociedades e também nas nossas comunidades cristãs. A verdade é que muitas formas de indiferença que encontramos hoje em dia «são sinais dum estilo de vida generalizado, que se manifesta de várias maneiras, porventura mais subtis. Além disso, como estamos todos muito concentrados nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento. É melhor não cair nesta miséria. Fixemos o modelo do bom samaritano». 117 As palavras finais da parábola evangélica – «Vai e faz tu também o mesmo» ( Lc 10, 37)bp – são um mandato que um cristão deve ouvir ressoar todos os dias no seu coração.
Lucas 10, 37
Matos Soares: 37 Ele respondeu: “O que usou com ele de misericórdia.” Então Jesus disse-lhe: “Vai, e faz tu o mesmo.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 37 Ele disse: “Aquele que teve misericórdia dele.” Então Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo.”
Um desafio inadiável para a Igreja de hoje
108. Numa época particularmente difícil para a Igreja de Roma, quando as instituições imperiais estavam a ruir sob a pressão dos bárbaros, o Papa São Gregório Magno advertiu assim os seus fiéis: «Todos os dias podemos encontrar Lázaro, se o procuramos, e todos os dias nos deparamos com ele, mesmo sem o procurar. Eis que os pobres que se apresentam de forma insistente, a fazer-nos pedidos, poderão um dia interceder por nós. […] Não desperdiceis, portanto, as oportunidades de agir com misericórdia e não negligencieis os remédios que recebestes». 118 Ele desafiava corajosamente os preconceitos disseminados contra os pobres, como aquele que os considerava responsáveis pela sua própria miséria: «Quando virdes os pobres a fazer algo repreensível, não os desprezeis nem desconfieis deles, pois a frágua da pobreza talvez esteja a purificar o que eles fazem contraindo culpas, mesmo que muito leves». 119 Com frequência, o bem-estar torna-nos cegos, a ponto de pensarmos que a nossa felicidade só pode ser alcançada se conseguirmos viver sem os outros. Nesse sentido, os pobres podem ser para nós como mestres silenciosos, reconduzindo o nosso orgulho e a nossa arrogância a uma conveniente humildade.
109. Se é verdade que os pobres são sustentados por aqueles que têm meios económicos, certamente também é possível afirmar o contrário. Esta é uma experiência surpreendente, testemunhada pela tradição cristã, e que se torna uma verdadeira reviravolta na nossa vida pessoal, quando percebemos que são precisamente os pobres que nos evangelizam. De que modo? No silêncio da sua condição, eles colocam-nos diante da nossa fraqueza. O idoso, por exemplo, com a fragilidade do seu corpo, lembra-nos a nossa vulnerabilidade, ainda que a tentemos esconder por trás do bem-estar ou das aparências. Além disso, os pobres fazem-nos refletir sobre a inconsistência daquele orgulho agressivo com que muitas vezes enfrentamos as dificuldades da vida. Em suma, eles revelam a nossa precariedade e o vazio de uma vida aparentemente protegida e segura. A este respeito, ouçamos novamente São Gregório Magno: «Ninguém, portanto, se sinta seguro dizendo: “eu não roubo os outros, mas usufruo apenas dos bens recebidos licitamente”, pois o rico epulão não foi punido porque quis para si os bens alheios, mas por se ter descuidado de si mesmo depois de ter recebido tantas riquezas. A sua condenação ao inferno foi determinada porque, na felicidade, não conservou o sentimento do temor, tornou-se arrogante pelos dons recebidos e não teve qualquer sentimento de compaixão». 120
110. Para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé. A opção preferencial pelos pobres, ou seja, o amor que a Igreja tem por eles, como ensinava São João Paulo II, «é decisivo e pertence à sua constante tradição, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso técnico-económico, a pobreza ameaça assumir formas gigantescas». 121 A realidade é que, para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo. Com efeito, não basta limitar-se a enunciar de modo genérico a doutrina da encarnação de Deus. Para entrar verdadeiramente neste mistério, é preciso especificar que o Senhor se faz carne que tem fome e sede, que está doente e na prisão. «A Igreja pobre para os pobres começa pelo dirigir-se à carne de Cristo. Se nos fixarmos na carne de Cristo, começamos a compreender qualquer coisa, a compreender o que é esta pobreza, a pobreza do Senhor. E isso não é fácil!». 122
111. O coração da Igreja, por sua própria natureza, é solidário com os pobres, excluídos e marginalizados, com todos aqueles que são considerados “descartáveis” pela sociedade. Os pobres ocupam um lugar central na Igreja, porque «deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade». 123 No coração de cada fiel encontra-se «a exigência de ouvir este clamor [que] deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a alguns». 124
112. Por vezes, em alguns movimentos ou grupos cristãos, nota-se a falta ou mesmo a ausência de compromisso pelo bem comum da sociedade e, em particular, pela defesa e promoção dos mais fracos e desfavorecidos. A este respeito, é preciso recordar que a religião, especialmente a cristã, não pode ser confinada à esfera privada, como se os fiéis não devessem interessar-se também pelos problemas relacionados com a sociedade civil e pelos acontecimentos que dizem respeito aos cidadãos. 125
113. Na realidade, «qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios». 126
114. Não estamos a falar apenas da assistência e do necessário compromisso com a justiça. Os fiéis devem responder também por uma outra forma de incoerência em relação aos pobres. Na verdade, «a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual […]. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária». 127 Todavia, tal atenção espiritual aos pobres é posta em causa por certos preconceitos, mesmo por parte de cristãos, porque nos sentimos mais à vontade sem os pobres. Há quem continue a dizer: “O nosso dever é rezar e ensinar a verdadeira doutrina”. Mas, desvinculando este aspecto religioso da promoção integral, acrescentam que só o Governo deveria cuidar deles, ou que seria melhor deixá-los na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar. Além disso, assumem-se, às vezes, critérios pseudocientíficos para dizer que a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza. Ou ainda, opta-se por uma pastoral das ditas elites, defendendo-se que, em vez de perder tempo com os pobres, é melhor cuidar dos ricos, dos poderosos e dos profissionais, para que, através deles, seja possível alcançar soluções mais eficazes. É fácil perceber a mundanidade que se esconde por trás destas opiniões: elas levam-nos a olhar para a realidade com critérios superficiais e desprovidos de qualquer luz sobrenatural, privilegiando relações que nos tranquilizam e buscando privilégios que nos favorecem.
Doar ainda hoje
115. Convém dizer uma última palavra sobre a esmola, que hoje não goza de boa fama, frequentemente nem mesmo entre os cristãos. Não só é raramente praticada, como às vezes é até desprezada. Por um lado, reafirmo que o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho, para que possa ter uma vida mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal. O certo é que «a falta de trabalho é muito mais do que a falta de uma fonte de renda para poder viver. O trabalho é isto, mas é também muito mais. Ao trabalhar tornamo-nos mais pessoas, a nossa humanidade floresce, os jovens só se tornam adultos quando trabalham. A Doutrina Social da Igreja considera o trabalho humano como participação na criação que continua todos os dias, inclusive graças às mãos, à mente e ao coração dos trabalhadores». 128 Por outro lado, se ainda não existe essa possibilidade concreta, não devemos correr o risco de deixar uma pessoa abandonada à própria sorte, sem o indispensável para viver dignamente. Assim, a esmola continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro.
116. Para quem ama verdadeiramente, é evidente que a esmola não isenta as autoridades competentes das suas responsabilidades, nem elimina o empenho organizativo das instituições, muito menos substitui a legítima luta pela justiça. Ela convida, porém, a parar e a olhar nos olhos a pessoa pobre, tocando-a e partilhando com ela algo do que se tem. Em todo o caso, a esmola, mesmo que pequena, infunde pietas numa vida social em que todos se preocupam com o seu próprio interesse pessoal. Diz o livro dos Provérbios: «O homem de olhar generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre» (Pr 22, 9)bq.
Provérbios 22, 9
Matos Soares: 9 Aquele que é propenso à misericórdia, será abençoado, porque deu dos seus pães ao pobre.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Quem tem os olhos generosos será abençoado, pois reparte o seu pão com o pobre.
117. Tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm verdadeiros hinos à esmola: «Todavia, sê generoso para com o miserável, e não o faças esperar pela esmola. […] Encerra a tua esmola nos teus celeiros, e ela te livrará de todo o mal» (Sir 29, 8.12)br. E Jesus retoma este ensinamento: «Vendei os vossos bens e dai-os de esmola. Arranjai bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável no Céu» (Lc 12, 33)bs.
Eclesiástico 29, 8.12
Matos Soares: 8 Se não (podem pagar), privam o credor do seu dinheiro, e, sem causa alguma, o ficarão tendo por inimigo; […] 12 Por causa do mandamento acode ao pobre, e não o deixes ir com as mãos vazias na sua indigência.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 Contudo, seja paciente com o pobre e não o faça esperar por sua esmola. […] 12 Armazene esmolas em seus depósitos, e elas o livrarão de toda aflição.
Lucas 12, 33
Matos Soares: 33 Vendei o que possuis, e dai esmola; provei-vos de bolsas que não envelhecem, de um tesouro inexaurível no céu, onde não chega o ladrão, nem a traça rói.
Bíblia Portuguesa Mundial: 33 Vendam o que têm e deem esmolas aos necessitados. Façam para vocês bolsas que não envelhecem, um tesouro nos céus que não falha, onde nenhum ladrão se aproxima e nenhuma traça destrói.
118. A São João Crisóstomo atribuía-se a seguinte exortação: «A esmola é a asa da oração. Se não acrescentares uma asa à tua oração, ela mal poderá voar». 129 E São Gregório de Nazianzo concluía uma das suas famosas orações com estas palavras: «Se, portanto, me ouvirdes enquanto é tempo, ó servos de Cristo, irmãos e coerdeiros, visitemos Cristo, cuidemos de Cristo, alimentemos Cristo, vistamos Cristo, acolhamos Cristo, honremos Cristo: não apenas com uma refeição, como alguns; não apenas com perfumes, como Maria; não apenas com um túmulo, como José de Arimatéia; não apenas com os ritos para a sepultura, como Nicodemos, que amava Cristo apenas pela metade; não apenas com ouro, incenso e mirra, como os Magos; mas, visto que o Senhor quer misericórdia e não sacrifício […] ofereçamos esta aos pobres, para que, quando partirmos deste mundo, sejamos acolhidos por eles nos templos eternos». 130
119. O amor e as convicções mais profundas devem ser alimentados, e isso faz-se com gestos. Permanecer no mundo das ideias e das discussões, sem gestos pessoais, frequentes e sinceros, será a ruína dos nossos sonhos mais preciosos. Por esta simples razão, como cristãos, não renunciamos à esmola. Um gesto que pode ser feito de várias maneiras, e podemos tentar fazer de forma mais eficaz, mas que deve ser feito. E será sempre melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Em todo o caso, tocar-nos-á o coração. Não será a solução para a pobreza no mundo, que deve ser procurada com inteligência, tenacidade e compromisso social. Mas precisamos de praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres.
120. O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna familiares os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis, entra nos meandros mais recônditos da sociedade. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de a viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa.
121. Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: «Eu te amei» (Ap 3, 9)bt.
Apocalipse 3, 9
Matos Soares: 9 Eis que te vou dar da sinagoga de Satanás os que dizem que são Judeus, e não o são mentirosos! eis que farei com que eles venham e se prostrem a teus pés e reconheçam que te amei.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Eis que farei com que alguns da sinagoga de Satanás, daqueles que se dizem judeus e não são, mas mentem — eis que farei com que venham e se prostrem aos seus pés, e saibam que eu amei você.
Dado em Roma, junto de São Pedro, a 4 de outubro – Memória litúrgica de São Francisco de Assis – do ano 2025, primeiro do meu Pontificado.
LEÃO PP. XIV
Notas
- 1 Francisco, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 170: AAS 116 (2024), 1422.
- 2 Ibid., 171: AAS 116 (2024), 1422-1423.
- 3 Idem, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), 96: AAS 110 (2018), 1137.
- 4 Francisco, Encontro com os representantes dos meios de comunicação social (16 de março de 2013): AAS 105 (2013), 381.
- 5 J. Bergoglio – A. Skorka, Sobre el cielo y la tierra (Buenos Aires 2013), 214
- 6 São Paulo VI, Homilia na Missa por ocasião da última Sessão Pública do Concílio Ecuménico Vaticano II (7 de dezembro de 1965): AAS 58 (1966), 55-56.
- 7 Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 187: AAS 105 (2013), 1098.
- 8 Ibid., 212: AAS 105 (2013), 1108.
- 9 Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 23: AAS 112 (2020), 977.
- 10 Ibid, 21: AAS 112 (2020), 976.
- 11 Conselho das Comunidades Europeias, Decisão (85/8/CEE) relativa a uma ação comunitária específica de luta contra a pobreza (19 de dezembro de 1984), art. 1, § 2: Jornal Oficial das Comunidades Europeias, Nº L 2/24.
- 12 Cf. São João Paulo II, Catequese na Audiência Geral (27 de outubro de 1999): L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 30 de outubro de 1999), 24.
- 13 Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 197: AAS 105 (2013), 1102.
- 14 Cf. Idem, Mensagem para o V Dia Mundial dos Pobres (13 de junho de 2021), 3: AAS 113 (2021), 691: «Jesus não só está do lado dos pobres, mas partilha com eles a mesma sorte. Isto constitui um forte ensinamento também para os seus discípulos de todos os tempos».
- 15 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 186: AAS 105 (2013), 1098.
- 16 Idem, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), 95: AAS 110 (2018), 1137.
- 17 Ibid., 97: AAS 110 (2018), 1137.
- 18 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 194: AAS 105 (2013), 1101.
- 19 Francisco, Encontro com os representantes dos meios de comunicação social (16 de março de 2013): AAS 105 (2013), 381.
- 20 Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/sick/documents/20211210_30-giornata-malato.html, 8.
- 21 Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 48: AAS 105 (2013), 1040.
- 22 Neste capítulo proporemos alguns destes exemplos de santidade, que não pretendem ser exaustivos, mas ser uma representação do cuidado com os pobres que sempre marcou a presença da Igreja no mundo. Uma detalhada reflexão sobre a história desta atenção eclesial aos mais pobres encontra-se no livro de V. Paglia, Storia della povertà (Milão 2014).
- 23 Cf. Santo Ambrósio, De officiis ministrorum I, cap. 41, 205-206: CCSL 15 (Turnhout 2000), 76-77; II, cap. 28, 140-143: CCSL 15, 148-149.
- 24 Ibid. II, cap. 28, 140: CCSL 15, 148.
- 25 Ibidem.
- 26 Ibid. II, cap. 28, 142: CCSL 15, 148.
- 27 Santo Inácio de Antioquia, Epistula ad Smyrnaeos, 6, 2: SCh 10bis (Paris 2007), 136-138.
- 28 São Policarpo, Epistula ad Philippenses, 6, 1: SCh 10bis, 186.
- 29 São Justino, Apologia prima, 67, 6-7: SCh 507 (Paris 2006), 310.
- 30 São João Crisóstomo, Homiliae in Matthaeum, 50, 3: PG 58 (Paris 1862), 508.
- 31 Ibid., 50, 4: PG 58, 509.
- 32 Idem, Homiliae in Epistula ad Hebraeos, 11, 3: PG 63 (Paris 1862), 94.
- 33 Idem, Homilia II De Lazaro, 6: PG 48 (Paris 1862), 992.
- 34 Santo Ambrósio, De Nabuthae, 12, 53: CSEL 32/2 (Praga-Viena-Leipzig 1897), 498.
- 35 Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 125, 12: CSEL 95/3 (Viena 2001), 181.
- 36 Idem, Sermo LXXXVI, 5: CCSL 41Ab (Tournhout 2019), 411-412.
- 37 Pseudoagostinho, Sermo CCCLXXXVIII, 2: PL 39 (Paris 1862), 1700.
- 38 São Cipriano, De mortalitate, 16: CCSL 3A (Turnhout 1976), 25.
- 39 Francisco, Mensagem para o XXX Dia Mundial do Doente (10 de dezembro de 2021), 3: AAS 114 (2022), 51.
- 40 São Camilo de Lélis, Regras da Companhia dos Servos dos Enfermos, 27: M. Vanti (ed.), Scritti di San Camillo de Lellis (Milão 1965), 67.
- 41 Santa Luísa de Marillac, Carta às Irmãs Claude Carré e Marie Gaudoin (28 de novembro de 1657): É. Charpy (ed.), Sainte Louise de Marillac, Écrits (Paris 1983), 576.
- 42 São Basílio Magno, Regulae fusius tractatae, 37, 1: PG 31 (Paris 1857), 1009 c-d.
- 43 Regula Benedicti, 53, 15: SCh 182 (Paris 1972), 614.
- 44 São João Cassiano, Collationes XIV, 10: CSEL 13 (Viena 2004), 410.
- 45 Bento XVI, Catequese na Audiência Geral (21 de outubro de 2009): L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 24 de outubro de 2009), 32.
- 46 Cf. Inocêncio III, Bula Operante divinæ dispositionis – Regra primitiva dos Trinitários (17 de dezembro de 1198), 2: J. L. Aurrecoechea – A. Moldón (eds.), Fuentes históricas de la Orden Trinitaria - s. XII -XV (Córdoba 2003), 6: «Todos os bens, de onde quer que licitamente provenham, os dividam em três partes iguais; e enquanto duas partes serão suficientes, realizem com elas obras de misericórdia, junto a um moderado sustento de si mesmo e dos domésticos, que por necessidade estão a seu serviço. Porém, a terceira parte seja reservada para a redenção dos cativos por causa de sua fé em Cristo».
- 47 Cf. Constituições da Ordem dos Mercedários, n. 14: Orden de la Bienaventurada Virgen María de las Mercedes, Regla y Constituciones (Roma 2014), 53: «Para cumprir essa missão, animados pela caridade, nos consagramos a Deus com um voto peculiar, chamado de Redenção, em virtude do qual prometemos dar a vida como Cristo a entregou por nós, se for necessário, para salvar os cristãos que se encontram em extremo perigo de perder sua fé, nas novas formas de cativeiro».
- 48 Cf. São João Batista da Conceição, La regla de la Orden de la Santísima Trinidad, XX, 1: BAC Maior 60 (Madri 1999), 90: «Nisto os pobres e cativos são semelhantes a Cristo, em quem são depositadas as penas do mundo […]. A eles, esta santa Ordem da Santíssima Trindade convoca e convida a que venham beber da água do Salvador, o que quer dizer que, se Cristo suspenso na cruz foi redenção e salvação para os homens, a Ordem tomou esta redenção e a quer distribuir aos pobres e salvar e libertar aos cativos».
- 49 Cf. Idem , El recogimiento interior, XL, 4: BAC Maior 48 (Madri 1995), 689: «O livre arbítrio faz do homem livre e senhor entre todas as criaturas, mas, valha-me Deus!, quantos são os que, por esse caminho, tornam-se escravos e cativos do demónio, presos e acorrentados por suas paixões e concupiscências».
- 50 Francisco, Mensagem para o XLVIII Dia Mundial da Paz (8 de dezembro de 2014), 3: AAS 107 (2015), 69.
- 51 Idem, Encontro com os agentes penitenciários, detentos e voluntários (Verona, 18 de maio de 2024): AAS 116 (2024), 766.
- 52 Honório III, Bula Solet annuere – Regula bullata (29 de novembro de 1223), cap. VI: SCh 285 (Paris 1981), 192.
- 53 Cf. Gregório IX, Bula Sicut manifestum est (17 de setembro de 1228), 7: SCh, 325 (Paris 1985), 200: «Sicut igitur supplicastis, altissimae paupertatis propositum vestrum favore apostolico roboramus, auctoritate vobis praesentium indulgentes, ut recipere possessiones a nullo compelli possitis».
- 54 Cf. S. Tugwell (ed.), Early Dominicans. Selected Writings (Mahwah 1982), 16-19.
- 55 Tomás de Celano, Vita Secunda – pars prima, cap. IV, 8: AnalFranc 10 (Florença 1941), 135.
- 56 Francisco, Discurso após a visita à tumba do Pe. Lorenzo Milani (Barbiana, 20 de junho de 2017), 2: AAS 109 (2017), 745.
- 57 São João Paulo II, Discurso aos participantes no Capítulo Geral dos Clérigos Regulares Pobres da Madre de Deus das Escolas Pias (5 de junho de 1997), 2: L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 19 de junho de 1997), 5.
- 58 Ibidem.
- 59 Idem, Homilia na Missa de Canonização (18 de abril de 1999): AAS 91 (1999), 930.
- 60 Cf. Idem, Carta Iuvenum Patris (31 de janeiro de 1988), 9: AAS 80 (1988), 976.
- 61 Cf. Francisco, Discurso aos participantes no Capítulo Geral do Instituto da Caridade (1º de outubro de 2018): L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 6 de novembro de 2018), 11.
- 62 Idem, Homilia na Missa de Canonização (9 de outubro de 2022): AAS 114 (2022), 1338.
- 63 São João Paulo II, Mensagem à Congregação das Missionárias do Sagrado Coração (31 de maio de 2000), 3: L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 29 de julho de 2000), 2.
- 64 Cf. Pio XII, Breve ap. Superiore iam ætate (8 de setembro de 1950): AAS 43 (1951), 455-456.
- 65 Francisco, Mensagem para o CV Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (27 de maio de 2019): AAS 111 (2019), 911.
- 66 Idem, Mensagem para o C Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (5 de agosto de 2013): AAS 105 (2013), 930.
- 67 Santa Teresa de Calcutá, Discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz (Oslo, 10 de dezembro de 1979): Idem, Aimer jusqu’à en avoir mal (Lião 2017), 19-20.
- 68 São João Paulo II, Discurso aos peregrinos vindos a Roma para a Beatificação de Madre Teresa de Calcutá (20 de outubro de 2003), 3: L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 25 de outubro de 2003), 4.
- 69 Francisco, Homilia na Missa de Canonização (13 de outubro de 2019): AAS 111 (2019), 1712.
- 70 São João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), 49: AAS 93 (2001), 302.
- 71 Francisco, Exort. ap. Christus vivit (25 de março de 2019), 231: AAS 111 (2019), 458.
- 72 Idem, Discurso aos participantes do Encontro mundial dos movimentos populares (28 de outubro de 2014): AAS 106 (2014), 851-852.
- 73 Ibid.: AAS 106 (2014), 859.
- 74 Idem, Discurso aos participantes do Encontro mundial dos movimentos populares (5 de novembro de 2016): L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 10 de novembro de 2016), 12.
- 75 Ibidem.
- 76 São João XXIII, Radiomensagem a todos os fiéis do mundo a um mês da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II (11 de setembro de 1962): AAS 54 (1962), 682.
- 77 G. Lercaro, Intervenção na XXXV Congregação Geral do Concílio Ecuménico Vaticano II (6 de dezembro de 1962), 2: AS I/IV, 327-328.
- 78 Ibid., 4: AS I/IV, 329.
- 79 Istituto per le Scienze Religiose (ed.), Per la forza dello Spirito. Discorsi conciliari del Card. Giacomo Lercaro (Bolonha 1984), 115.
- 80 São Paulo VI, Alocução na solene inauguração da II sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II (29 de setembro de 1963): AAS 55 (1963), 857.
- 81 Idem, Catequese na Audiência Geral (11 de novembro de 1964): Insegnamenti di Paolo VI, II (1964), 984.
- 82 Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 69.71.
- 83 São Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de março de 1967), 23: AAS 59 (1967), 269.
- 84 Cf. ibid., 4: AAS 59 (1967), 259.
- 85 São João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572.
- 86 Ibid.: AAS 80 (1988), 573.
- 87 Idem, Carta enc. Laborem exercens (14 de setembro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 584.
- 88 Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 7: AAS 101 (2009), 645.
- 89 Ibid., 27: AAS 101 (2009), 661.
- 90 II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Medellín (24 de outubro de 1968), 14, n. 7: CELAM, Medellín – Conclusiones (Lima 2005), 131-132.
- 91 Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 202: AAS 105 (2013), 1105.
- 92 Ibid., 205: AAS 105 (2013), 1106.
- 93 Ibid., 190: AAS 105 (2013), 1099.
- 94 Ibid., 56: AAS 105 (2013), 1043.
- 95 Idem, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 183: AAS 116 (2024), 1427.
- 96 São João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1º de maio de 1991), 41: AAS 83 (1991), 844-845.
- 97 Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 202: AAS 105 (2013), 1105.
- 98 Ibidem.
- 99 Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 22: AAS 112 (2020), 976.
- 100 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 209: AAS 105 (2013), 1107.
- 101 Idem, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 50: AAS 107 (2015), 866.
- 102 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 210: AAS 105 (2013), 1107.
- 103 Idem, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 43: AAS 107 (2015), 863.
- 104 Ibid., 48: AAS 107 (2015), 865.
- 105 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 180: AAS 105 (2013), 1095.
- 106 Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da “Teologia da libertação” (6 de agosto de 1984), XI, 18: AAS 76 (1984), 907-908.
- 107 V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), n. 392 (São Paulo 2007), p. 177. Cf. Bento XVI, Discurso na sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (13 de maio de 2007), 3: AAS 99 (2007), 450.
- 108 Cf. V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), nn. 43-87, pp. 31-47.
- 109 Idem, Mensagem final (29 de maio de 2007), n. 4 (São Paulo 2007), p. 271.
- 110 Idem, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), n. 398, p. 180.
- 111 Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 199: AAS 105 (2013), 1103-1104.
- 112 Ibid., 198: AAS 105 (2013), 1103.
- 113 Ibidem.
- 114 V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de junho de 2007), n. 397, p. 179.
- 115 Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 64: AAS 112 (2020), 992.
- 116 Idem, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), 98: AAS 110 (2018), 1137.
- 117 Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 65-66: AAS 112 (2020), 992.
- 118 São Gregório Magno, Homilia 40, 10: SCh 522 (Paris 2008), 552.554.
- 119 Ibid., 6: SCh 522, 546.
- 120 Ibid., 3: SCh 522, 536.
- 121 São João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1º de maio de 1991), 57: AAS 83 (1991), 862-863.
- 122 Francisco, Vigília de Pentecostes com os movimentos eclesiais (18 de maio de 2013): L’Osservatore Romano (ed. semanal em português de 26 de maio de 2013), 11.
- 123 Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 186: AAS 105 (2013), 1098.
- 124 Ibid., 188: AAS 105 (2013), 1099.
- 125 Cf. ibid., 182-183: AAS 105 (2013), 1096-1097.
- 126 Ibid., 207: AAS 105 (2013), 1107.
- 127 Ibid., 200: AAS 105 (2013), 1104.
- 128 Idem, Discurso por ocasião do encontro com o mundo do trabalho na fábrica ILVA de Génova (27 de maio de 2017): AAS 109 (2017), 613.
- 129 Pseudocrisóstomo, Homilia de jejunio et eleemosyna: PG 48, 1060.
- 130 São Gregório Nazianzeno, Oratio XIV, 40: PG 35 (Paris 1886), 910.