Mensagem em Vídeo do Papa Francisco aos Juízes da África e da América

Mensagem em vídeo

Mensagem em Vídeo do Papa Francisco aos Juízes da África e da América

Francisco · 30 de novembro de 2020

Contexto histórico

Momento histórico

Em novembro de 2020, o mundo vivia o primeiro ano da pandemia de Covid-19. Em julho, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, havia alertado que a América Latina se tornara uma zona crítica da pandemia, com o maior número de casos do mundo, e que se previa que 45 milhões de pessoas caíssem na pobreza naquele mesmo ano. Guterres lembrava ainda que se tratava de uma das regiões mais desiguais do mundo e que a pandemia só agravaria o problema. Na África subsaariana, segundo o Banco Mundial, a pandemia levaria a economia à primeira recessão em 25 anos e poderia lançar até 40 milhões de pessoas na pobreza extrema.

Foi nesse quadro que juízes de dezoito países da África e da América, entre eles os Estados Unidos, se reuniram por via virtual, durante dois dias, num encontro dedicado à construção de uma nova justiça social.

A Igreja naquele momento

Menos de dois meses antes, em 3 de outubro de 2020, Francisco havia assinado em Assis a encíclica Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social, escrita sob o impacto da pandemia e que dedicava uma seção a repropor a função social da propriedade.

O encontro ligava-se a uma iniciativa patrocinada pelo próprio Papa. Segundo o quirógrafo que ele assinaria em 15 de agosto de 2023, o Comitê Pan-Americano de Juízes pelos Direitos Sociais e pela Doutrina Franciscana teve as suas primeiras origens na cidade de Buenos Aires, difundiu-se pela Argentina a partir de 2017, realizou o seu primeiro encontro regional em junho de 2018 e foi criado no Vaticano, por desejo do próprio Papa, em junho de 2019, numa reunião de 120 magistrados das três Américas na Casina Pio IV, sede da Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

Os juízes reunidos em 2020 pertenciam ao recém-formado Comitê para os Direitos Sociais da África e da América, que, segundo a Catholic News Agency, juntava o comitê pan-americano e um congênere pan-africano e se dedicava a promover os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais das pessoas vulneráveis, inspirando-se no ensino de Francisco.

O documento

Esta é a mais breve das duas mensagens em vídeo enviadas aos participantes, uma saudação “antes do início da boa obra” a que eles se tinham proposto. Francisco os felicita pela iniciativa de “pensar, decifrar e construir uma “nova” justiça social” e chama o encontro de “bálsamo reparador” diante de uma sociedade que desconfia de quem decide o que é justo.

O centro do texto é a retomada de uma imagem que o Papa havia usado quando os juízes se reuniram na Casina Pio IV: a de que eles, como os movimentos sociais, também são poetas. Assim como o poeta precisa contemplar a realidade e moldá-la em palavras, o juiz tem em cada sentença a oportunidade de fazer uma poesia que “cure as feridas dos pobres”, que integre o planeta e que proteja a mãe terra. Francisco afirma que nenhuma sentença pode ser justa, nem nenhuma lei legítima, se o que produz é mais desigualdade, perda de direitos, indignidade ou violência. A mensagem termina com o aviso de que uma poesia que não transforma é “somente um punhado de palavras mortas”.

Recepção

A saudação foi divulgada junto com uma segunda mensagem, mais longa, sobre os fundamentos da nova justiça social. Ao noticiar as duas, a Catholic News Agency destacou a mais longa, com as suas afirmações sobre o povo de Deus e a propriedade privada, e reservou à saudação os parágrafos finais, nos quais citou a comparação entre o juiz e o poeta e a frase segundo a qual nenhuma sentença é justa se produz mais desigualdade.

O quirógrafo de 2023 registra encontros em Iguazú, na Argentina, em 2021, no México em 2022, e em Assunção e em Roma em 2023. Por esse documento, Francisco aprovou a transformação do comitê pan-americano em associação privada de fiéis de caráter internacional, voltada para a proteção e a promoção dos direitos sociais a partir da magistratura, com ênfase especial nos setores sociais descartados, e aprovou a criação do Instituto para a Pesquisa e a Promoção dos Direitos Sociais Frei Bartolomeu de las Casas, a ser mantido, dirigido e administrado pelo comitê e a funcionar sob os auspícios da Pontifícia Academia das Ciências Sociais.

Fontes

  • Francisco, Quirógrafo do Santo Padre para instituir o Comitê Pan-Americano de Juízes pelos Direitos Sociais e pela Doutrina Franciscana, Santa Sé (vatican.va), 2023. https://www.vatican.va/content/francesco/en/letters/2023/documents/20230815-chirografo-copaju.html
  • Catholic News Agency, Pope Francis: Be God’s people, not God’s elite, Catholic World Report, 2020. https://www.catholicworldreport.com/2020/12/01/pope-francis-be-gods-people-not-gods-elite/
  • Francisco, Fratelli tutti, Santa Sé (vatican.va), 2020. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html
  • Nações Unidas no Uruguai, El impacto del COVID-19 en América Latina, ONU, 2020. https://uruguay.un.org/en/node/52491
  • Banco Mundial, World Bank Confirms Economic Downturn in Sub-Saharan Africa, Outlines Key Polices Needed for Recovery, World Bank, 2020. https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2020/10/08/world-bank-confirms-economic-downturn-in-sub-saharan-africa-outlines-key-polices-needed-for-recovery

MENSAGEM EM VÍDEO DO PAPA FRANCISCO
AOS JUÍZES DA ÁFRICA E DA AMÉRICA


 

Bom dia, prezados juízes e juízas da África e da América!

É-me grato poder dirigir-vos estas palavras antes do início da boa obra que vos propusestes. Felicito-vos por esta iniciativa de pensar, decifrar e construir uma “nova” justiça social.

Que bom que podeis fazer uma pausa no vosso trabalho normal para pensar e meditar. Estou certo de que esta prática vos ajudará a adquirir uma dimensão mais completa da vossa missão e responsabilidade social.

Este evento é um bálsamo reparador, perante uma sociedade que hoje olha com uma certa desconfiança e suspeita para quantos têm o poder de decidir o que é justo.

Há algum tempo, quando vos reunistes na Casina Pio IV, eu disse-vos que, tal como os movimentos sociais, também vós sois poetas. Gostaria de retomar esta ideia.

O poeta tem necessidade de contemplar, pensar, compreender a música das realidades e moldá-la com palavras. Quanto a vós, em cada decisão, em cada sentença, estais diante da feliz oportunidade de fazer poesia: uma poesia que cure as feridas dos pobres, que integre o planeta, que tutele a mãe terra e toda a sua descendência. Um poema que repare, redima e alimente!

Juízes, não renuncieis a esta possibilidade. Assumi, com determinação e coragem, a graça da qual sois titulares. Sede cientes de que é muito importante tudo o que podeis oferecer com a vossa retidão e compromisso.

E, por favor, lembrai-vos sempre que quando a justiça é realmente justa, tal justiça torna felizes os países e dignos os seus habitantes. Nenhuma sentença pode ser justa, nenhuma lei, legítima, se o que gera é maior desigualdade, se o que gera é maior perda de direitos, indignidade ou violência.

Irmãos e irmãs, fazei da vossa poesia uma prática e sereis poetas melhores e juízes melhores. E nunca vos esqueçais que uma poesia que não transforma é somente um punhado de palavras mortas. Que o vosso encontro tenha bom êxito!