
Carta encíclica
Lumen Fidei
Contexto histórico
Momento histórico
Ao anunciar sua renúncia, Bento XVI descreveu o mundo como “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé”. Segundo estimativas do Pew Research Center, entre 1910 e 2010 a população mundial quase quadruplicou, enquanto a da América Latina se multiplicou por mais de sete. A Europa, que em 1910 abrigava 65% dos católicos do mundo, tinha em 2010 apenas 24% deles; a América Latina e o Caribe passaram de 24% para 39% e se tornaram a região com mais católicos, cerca de 425 milhões.
Na Europa, a crise do euro ainda pesava. Segundo o Pew, em 2013 o desemprego oficial chegava a 27,2% na Grécia e a 26,7% na Espanha, e uma mediana de 78% dos entrevistados em oito países considerava a falta de emprego um problema muito grave.
A Igreja naquele momento
Em 11 de fevereiro de 2013, em consistório, Bento XVI anunciou a renúncia ao ministério petrino, alegando a “idade avançada”, e declarou a sé de Roma vacante a partir de 28 de fevereiro, às 20 horas. O conclave escolheu o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, que tomou posse como Francisco em 19 de março, o primeiro papa vindo da América Latina.
A Igreja vivia o Ano da Fé, proclamado por Bento XVI e iniciado no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, que terminaria em novembro de 2013. Para esse ano, Bento XVI vinha preparando uma encíclica sobre a fé, que se somaria às suas encíclicas sobre a caridade e sobre a esperança. Segundo o arcebispo Rino Fisichella, ele hesitara em escrevê-la, mas cedeu à insistência de muitos. A renúncia deixou o texto, quase pronto, nas mãos do sucessor.
O documento
A encíclica foi assinada em 29 de junho de 2013, solenidade de São Pedro e São Paulo, e apresentada à imprensa em 5 de julho. O próprio Francisco declara a origem do texto: Bento XVI “já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé”, e o novo papa diz ter assumido esse trabalho, acrescentando-lhe contribuições suas. Por isso o próprio Francisco a descreveu como escrita “a quatro mãos”, embora ela traga só a sua assinatura.
O ponto de partida é a objeção moderna de que a fé seria uma luz ilusória, própria de sociedades antigas e contrária à busca da verdade, ilustrada com o jovem Nietzsche. Contra ela, a encíclica propõe recuperar o caráter de luz próprio da fé, que “nasce no encontro com o Deus vivo”. O primeiro capítulo percorre a fé de Abraão, de Israel e a plenitude cristã; o segundo trata da relação entre fé, verdade e amor e do diálogo entre fé e razão, diante de uma cultura que tende a aceitar como verdade apenas a da tecnologia; o terceiro aborda a transmissão da fé na Igreja, pelos sacramentos, pela oração e pelo Decálogo; o quarto mostra a fé a serviço do bem comum, da família, da vida social e do cuidado com a natureza, e como força consoladora no sofrimento. Termina com uma oração a Maria.
Recepção
Na apresentação, o arcebispo Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, falou da feliz coincidência de um texto escrito pelas mãos de dois papas e destacou a continuidade substancial entre os dois, apesar das diferenças de estilo. O cardeal Marc Ouellet viu na encíclica o pilar que faltava à trilogia de Bento XVI sobre as virtudes teologais.
Os comentadores católicos discutiram sobretudo quem escreveu o quê. Na revista America, o jesuíta Drew Christiansen reconheceu sobretudo o pensamento de Bento XVI e lamentou que a eclesiologia do texto fosse mais a de uma Igreja que guarda a fé contra o erro do que a da Igreja servidora pregada por Francisco. Robert Imbelli disse que ela poderia ser chamada tanto de testamento de Bento quanto de discurso inaugural de Francisco, e Christiana Peppard criticou a afirmação da unidade sem atenção à diversidade constitutiva da Igreja. James Martin julgou inútil separar os autores e esperou que a encíclica tivesse maior influência justamente por ser obra de dois papas. Dois anos depois, Francisco recorreu a ela numa nota da Laudato Si’ (n. 199), ao lembrar que a fé convida o cientista a permanecer aberto à realidade.
Fontes
- Bento XVI, Declaratio (declaração de renúncia ao ministério petrino), Santa Sé, 2013. https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2013/february/documents/hf_ben-xvi_spe_20130211_declaratio.html
- Benjamin Wormald, Latin America’s Catholics in the Spotlight as Pope Francis is Installed, Pew Research Center, 2013. https://www.pewresearch.org/religion/2013/03/18/latin-americas-catholics-in-the-spotlight-as-pope-francis-is-installed/
- Pew Research Center, The New Sick Man of Europe: the European Union, Pew Research Center, 2013. https://www.pewresearch.org/global/2013/05/13/the-new-sick-man-of-europe-the-european-union/
- Francisco, Laudato Si’ (carta encíclica sobre o cuidado da casa comum), Santa Sé, 2015. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
- Cindy Wooden, ‘Lumen Fidei’: Encyclical illustrates continuity of two papacies, officials say, Catholic News Service (The Catholic Sun), 2013. https://www.catholicsun.org/?p=9329
- Drew Christiansen, Robert P. Imbelli, James Martin, Peter Folan e Christiana Zenner, Francis on the ‘Light of Faith’: First responses to ‘an encylical written with four hands’, America Magazine, 2013. https://www.americamagazine.org/faith/2013/07/04/light-faith/
CARTA ENCÍCLICA
LUMEN FIDEI
DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A FÉ
1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46)a. E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: “das trevas brilhe a luz”, foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6)b. No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».1 Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos raios dão a vida ».2 A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40)c. Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso.
João 12, 46
Matos Soares: 46 Eu vim ao mundo como uma luz, para que todo o que crê em mim não fique nas trevas.
Bíblia Portuguesa Mundial: 46 Eu vim como luz ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.
2 Coríntios 4, 6
Matos Soares: 6 porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, ele mesmo iluminou nossos corações, para que neles brilhe o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face do Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 pois foi Deus quem disse: “Das trevas brilhará a luz”, e ele brilhou em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
João 11, 40
Matos Soares: 40 Jesus disse-lhe: “Não te disse eu que, se tu creres, verás a glória de Deus?”
Bíblia Portuguesa Mundial: 40 Jesus lhe disse: “Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?”
Uma luz ilusória?
2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ». 3 O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã.
3. Por este caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço para a fé abria-se onde a razão não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas. Deste modo, a fé foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como luz objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz da razão autónoma não consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas, permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direcção.
Uma luz a redescobrir
4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila ». 4 É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz.
5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça » (Lc 22, 32)d. Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela acção do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».5 Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.
Lucas 22, 32
Matos Soares: 32 mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, conforta os teus irmãos.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 32 mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado, fortaleça os seus irmãos.”
6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé, 6 por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões.
7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal 7 — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho.
Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?
CAPÍTULO I
ACREDITÁMOS NO AMOR
(cf. 1 Jo 4, 16)e
1 João 4, 16
Matos Soares: 16 Reconhecemos a caridade que Deus tem por nós e cremos nela. Deus é caridade; quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.
Abraão, nosso pai na fé
8. A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes, com os primeiros testemunhos já no Antigo Testamento. Um posto singular ocupa Abraão, nosso pai na fé. Na sua vida, acontece um facto impressionante: Deus dirige-lhe a Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um carácter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contacto com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.
9. Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a fé vai proporcionar a Abraão, estará sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a fé « vê » na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra contém ainda uma promessa: a tua descendência será numerosa, serás pai de um grande povo (cf. Gn 13, 16; 15, 5; 22, 17)f. É verdade que a fé de Abraão, enquanto resposta a uma Palavra que a precede, será sempre um acto de memória; contudo esta memória não o fixa no passado, porque, sendo memória de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho. Assim se vê como a fé, enquanto memória do futuro, está intimamente ligada com a esperança.
Gênesis 13, 16
Matos Soares: 16 Multiplicarei a tua descendência como o pó da terra; se algum dos homens pode contar o pó da terra, poderá também contar o número dos teus descendentes.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Farei a sua descendência como o pó da terra, de modo que, se um homem puder contar o pó da terra, então a sua descendência também poderá ser contada.
Gênesis 15, 5
Matos Soares: 5 Depois conduziu-o fora, e disse-lhe: olha para o céu e conta, se podes, as estrelas. Depois acrescentou: assim será a tua descendência.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 O SENHOR o levou para fora e disse: “Olhe agora para o céu e conte as estrelas, se é que você pode contá-las.” E disse a Abrão: “Assim será a sua descendência.”
Gênesis 22, 17
Matos Soares: 17 eu te abençoarei e multiplicarei a tua estirpe como as estrelas do céu, e como a areia das praias: a tua descendência possuirá as portas de seus inimigos,
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 que eu o abençoarei grandemente, e multiplicarei grandemente a sua descendência como as estrelas dos céus, e como a areia que está na praia do mar. A sua descendência possuirá a porta dos seus inimigos.
10. A Abraão pede-se para se confiar a esta Palavra. A fé compreende que a palavra — uma realidade aparentemente efémera e passageira —, quando é pronunciada pelo Deus fiel, torna-se no que de mais seguro e inabalável possa haver, possibilitando a continuidade do nosso caminho no tempo. A fé acolhe esta Palavra como rocha segura, sobre a qual se pode construir com alicerces firmes. Por isso, na Bíblia hebraica, a fé é indicada pela palavra ‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto pode significar a fidelidade de Deus como a fé do homem. O homem fiel recebe a sua força do confiar-se nas mãos do Deus fiel. Jogando com dois significados da palavra — presentes tanto no termo grego pistós como no correspondente latino fidelis –, São Cirilo de Jerusalém exaltará a dignidade do cristão, que recebe o mesmo nome de Deus: ambos são chamados « fiéis ».8 E Santo Agostinho explica-o assim: « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem ».9
11. Há ainda um aspecto da história de Abraão que é importante para se compreender a sua fé. A Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, não é de forma alguma alheia à experiência do Patriarca. Na voz que se lhe dirige, Abraão reconhece um apelo profundo, desde sempre inscrito no mais íntimo do seu ser. Deus associa a sua promessa com aquele « ponto » onde desde sempre a existência do homem se mostra promissora, ou seja, a paternidade, a geração duma nova vida: « Sara, tua mulher, dar-te-á um filho, a quem hás-de chamar Isaac » (Gn 17, 19)g. O mesmo Deus que pede a Abraão para se confiar totalmente a Ele, revela-Se como a fonte donde provém toda a vida. Desta forma, a fé une-se com a Paternidade de Deus, da qual brota a criação: o Deus que chama Abraão é o Deus criador, aquele que « chama à existência o que não existe » (Rm 4, 17)h, aquele que, « antes da fundação do mundo, (…) nos predestinou para sermos adoptados como seus filhos » (Ef 1, 4-5)i. No caso de Abraão, a fé em Deus ilumina as raízes mais profundas do seu ser: permite-lhe reconhecer a fonte de bondade que está na origem de todas as coisas, e confirmar que a sua vida não deriva do nada nem do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoais. O Deus misterioso que o chamou não é um Deus estranho, mas a origem de tudo e que tudo sustenta. A grande prova da fé de Abraão, o sacrifício do filho Isaac, manifestará até que ponto este amor originador é capaz de garantir a vida mesmo para além da morte. A Palavra que foi capaz de suscitar um filho no seu corpo « já sem vida (…), como sem vida estava o seio » de Sara estéril (Rm 4, 19)j, também será capaz de garantir a promessa de um futuro para além de qualquer ameaça ou perigo (cf. Heb 11, 19; Rm 4, 21)k.
Gênesis 17, 19
Matos Soares: 19 Deus respondeu a Abraão: Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Isaac, e farei o meu pacto com ele e com a sua descendência, depois dele, por uma aliança eterna.
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Deus disse: “Não, mas Sara, sua esposa, lhe dará um filho. Você o chamará pelo nome de Isaque. Estabelecerei a minha aliança com ele como uma aliança perpétua para a sua descendência depois dele.
Romanos 4, 17
Matos Soares: 17 segundo está escrito: Eu te constitui pai de muitas gentes (Gn. 17, 6). Ele é pai, diante de Deus, em quem acreditou, o qual dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Como está escrito: “Eu o constituí pai de muitas nações.” Ele é nosso pai diante daquele em quem creu: Deus, que dá vida aos mortos e chama as coisas que não são como se já fossem.
Efésios 1, 4-5
Matos Soares: 4 escolhendo-nos nele, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados, a seus olhos, 5 o qual (também) nos predestinou, no seu amor, para sermos seus filhos adotivos por (meio de) Jesus Cristo, por sua livre vontade,
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor, 5 tendo-nos predestinado para a adoção como filhos por meio de Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o bom propósito da sua vontade,
Romanos 4, 19
Matos Soares: 19 E, sem vacilar na fé, não considerou nem o seu corpo amortecido, sendo já de quase cem anos, nem o seio de Sara, já sem vida (para conceber).
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 Sem se enfraquecer na fé, ele não considerou o seu próprio corpo, já sem vigor (tendo ele cerca de cem anos de idade), e a esterilidade do ventre de Sara.
Hebreus 11, 19
Matos Soares: 19 Todavia (Abraão) considerava que Deus é poderoso até para ressuscitar os mortos; por isso o recuperou. E isto é para nós um símbolo. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 19 concluindo que Deus é poderoso para ressuscitar até mesmo dentre os mortos. Figurativamente falando, ele também o recebeu de volta dentre os mortos.
Romanos 4, 21
Matos Soares: 21 plenamente convencido de que é poderoso para cumprir tudo o que prometeu.
Bíblia Portuguesa Mundial: 21 plenamente convicto de que Deus também tinha poder para cumprir o que havia prometido.
A fé de Israel
12. A história do povo de Israel, no livro do Êxodo, continua na esteira da fé de Abraão. De novo, a fé nasce de um dom originador: Israel abre-se à acção de Deus, que quer libertá-lo da sua miséria. A fé é chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar uma terra prometida. O amor divino possui os traços de um pai que conduz seu filho pelo caminho (cf. Dt 1, 31)l. A confissão de fé de Israel desenrola-se como uma narração dos benefícios de Deus, da sua acção para libertar e conduzir o povo (cf. Dt 26, 5-11)m; narração esta, que o povo transmite de geração em geração. A luz de Deus brilha para Israel, através da comemoração dos factos realizados pelo Senhor, recordados e confessados no culto, transmitidos pelos pais aos filhos. Deste modo aprendemos que a luz trazida pela fé está ligada com a narração concreta da vida, com a grata lembrança dos benefícios de Deus e com o progressivo cumprimento das suas promessas. A arquitectura gótica exprimiu-o muito bem: nas grandes catedrais, a luz chega do céu através dos vitrais onde está representada a história sagrada. A luz de Deus vem-nos através da narração da sua revelação e, assim, é capaz de iluminar o nosso caminho no tempo, recordando os benefícios divinos e mostrando como se cumprem as suas promessas.
Deuteronômio 1, 31
Matos Soares: 31 No deserto (tu mesmo o viste) o Senhor teu Deus te levou por todo o caminho, por onde andaste, como um homem costuma levar o seu filhinho, até que chegásseis a este lugar.
Bíblia Portuguesa Mundial: 31 e no deserto, onde vocês viram como o SENHOR, seu Deus, os carregou, como um homem carrega o seu filho, por todo o caminho que percorreram, até chegarem a este lugar.”
Deuteronômio 26, 5-11
Matos Soares: 5 Então dirás na presença do Senhor teu Deus: Meu pai era um Arameu prestes a morrer, que desceu ao Egipto, e lá esteve como forasteiro, tendo pouquíssimas pessoas consigo; aí tornou-se um povo grande, forte, e numeroso. 6 Os Egípcios nos afligiram e nos perseguiram, impondo-nos cargas pesadíssimas. 7 Então clamámos ao Senhor Deus de nossos pais, o qual nos ouviu, olhou para a nossa humilhação, trabalho e angústia, 8 e nos tirou do Egipto com mão forte e braço estendido, em meio de grande pavor, com sinais e portentos. 9 Introduziu-nos neste lugar, e deu-nos esta terra que mana Ieite e mel. 10 Por isso eu ofereço agora as primícias dos frutos da terra que o Senhor me deu. (Depois de tais palavras) deixarás (as ofertas) diante do Senhor teu Deus e adorarás o Senhor teu Deus. 11 Depois darás largas à tua alegria, por todos os bens que o Senhor teu Deus te tiver dado a ti e à tua casa, tu e o Levita, e o estrangeiro que está contigo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Você responderá e dirá diante do SENHOR, o seu Deus: “Meu pai era um arameu prestes a perecer. Ele desceu ao Egito e viveu lá, sendo poucos em número. Lá ele se tornou uma nação grande, poderosa e populosa. 6 Os egípcios nos maltrataram, nos afligiram e nos impuseram trabalho duro. 7 Então clamamos ao SENHOR, o Deus de nossos pais. O SENHOR ouviu a nossa voz e viu a nossa aflição, o nosso trabalho árduo e a nossa opressão. 8 O SENHOR nos tirou do Egito com mão poderosa, com braço estendido, com grande terror, com sinais e com maravilhas; 9 e ele nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, uma terra que mana leite e mel. 10 Agora, eis que trouxe as primícias dos frutos da terra que tu, ó SENHOR, me deste.” Você as colocará diante do SENHOR, o seu Deus, e adorará diante do SENHOR, o seu Deus. 11 Você se alegrará por todo o bem que o SENHOR, o seu Deus, tem dado a você e à sua casa, você, o levita e o estrangeiro que está no meio de você.
13. A história de Israel mostra-nos ainda a tentação da incredulidade, em que o povo caiu várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idolatria. Enquanto Moisés fala com Deus no Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera. Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta definição da idolatria, dada pelo rabino de Kock: há idolatria, « quando um rosto se dirige reverente a um rosto que não é rosto ».10 Em vez da fé em Deus, prefere-se adorar o ídolo, cujo rosto se pode fixar e cuja origem é conhecida, porque foi feito por nós. Diante do ídolo, não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos « têm boca, mas não falam » (Sal 115, 5)n. Compreende-se assim que o ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. Perdida a orientação fundamental que dá unidade à sua existência, o homem dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua história. Por isso, a idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. Quem não quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos ídolos que lhe gritam: « Confia-te a mim! » A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.
Salmos 115, 5
Matos Soares (Salmos 113, 13): 13 Têm boca, e não falam; têm olhos, e não vêem. (115,5)
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Têm boca, mas não falam. Têm olhos, mas não veem.
14. Na fé de Israel, sobressai também a figura de Moisés, o mediador. O povo não pode ver o rosto de Deus; é Moisés que fala com Jahvé na montanha e comunica a todos a vontade do Senhor. Com esta presença do mediador, Israel aprendeu a caminhar unido. O acto de fé do indivíduo insere-se numa comunidade, no « nós » comum do povo, que, na fé, é como um só homem: « o meu filho primogénito », assim Deus designará todo o Israel (cf. Ex 4, 22)o. Aqui a mediação não se torna um obstáculo, mas uma abertura: no encontro com os outros, o olhar abre-se para uma verdade maior que nós mesmos. Jean Jacques Rousseau lamentava-se por não poder ver Deus pessoalmente: « Quantos homens entre mim e Deus! » 11 « Será assim tão simples e natural que Deus tenha ido ter com Moisés para falar a Jean Jacques Rousseau? » 12 A partir de uma concepção individualista e limitada do conhecimento é impossível compreender o sentido da mediação: esta capacidade de participar na visão do outro, saber compartilhado que é o conhecimento próprio do amor. A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a história da salvação.
Êxodo 4, 22
Matos Soares: 22 Tu lhe dirás: Isto diz o Senhor: Israel é meu filho, meu filho primogênito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 22 Você dirá ao Faraó: ‘Assim diz o SENHOR: Israel é meu filho, meu primogênito,
A plenitude da fé cristã
15. « Abraão (…) exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz » ( Jo 8, 56)p. De acordo com estas palavras de Jesus, a fé de Abraão estava orientada para Ele, de certo modo era visão antecipada do seu mistério. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os Patriarcas se salvaram pela fé; não fé em Cristo já chegado, mas fé em Cristo que havia de vir, fé proclive para o evento futuro de Jesus. 13 A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Rm 10, 9)q. Todas as linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o « sim » definitivo a todas as promessas, fundamento último do nosso « Amen » a Deus (cf. 2 Cor 1, 20)r. A história de Jesus é a manifestação plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de amor de Deus, que formavam o centro da sua confissão e abriam o horizonte da sua fé, agora a vida de Jesus aparece como o lugar da intervenção definitiva de Deus, a suprema manifestação do seu amor por nós. A palavra que Deus nos dirige em Jesus já não é uma entre muitas outras, mas a sua Palavra eterna (cf. Heb 1, 1-2)s. Não há nenhuma garantia maior que Deus possa dar para nos certificar do seu amor, como nos lembra São Paulo (cf. Rm 8, 31-39)t. Portanto, a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. « Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele » (1 Jo 4, 16)u. A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último.
João 8, 56
Matos Soares: 56 Abraão, vosso pai, regozijou-se com a esperança de ver o meu dia; viu-o (por meio da, revelação), e ficou cheio de gozo.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 56 O pai de vocês, Abraão, exultou por ver o meu dia. Ele o viu e se alegrou.”
Romanos 10, 9
Matos Soares: 9 Porque, se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 que, se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo.
2 Coríntios 1, 20
Matos Soares: 20 Com efeito, todas as promessas de Deus encontraram o seu sim nele e, por isso é também por ele que dizemos o nosso Amen para glória de Deus. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Pois, por mais numerosas que sejam as promessas de Deus, nele está o “Sim”. Por isso, também por meio dele vem o “Amém”, para a glória de Deus por nosso intermédio.
Hebreus 1, 1-2
Matos Soares: 1 Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, (ver nota) 2 nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou o mundo,
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Deus, tendo falado no passado aos pais por meio dos profetas, muitas vezes e de várias maneiras, 2 nestes últimos dias nos falou pelo seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, por meio de quem também fez o universo.
Romanos 8, 31-39
Matos Soares: 31 Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 O que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou ( à morte), como não nos dará também com ele todas as coisas? 33 Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus é que justifica. 34 Quem os condenará? Jesus Cristo é o que morreu, e ainda mais o que ressuscitou, o que está à direita de Deus, o que também intercede por nós. 35 Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? (Será) a tribulação? a angústia? a perseguição? a fome? a nudez? o perigo? a espada? 36 Segundo está escrito: Por ti somos entregues à morte todos os dias, somos reputados como ovelhas para o matadouro (Ps. 43, 23). 37 Mas de todas estas coisas saímos mais que vencedores por aquele que nos amou. 38 Porque eu estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as virtudes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor que Deus nos manifesta em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Bíblia Portuguesa Mundial: 31 O que diremos, então, diante destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele, graciosamente, todas as coisas? 33 Quem trará alguma acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. 34 Quem é aquele que condena? É Cristo quem morreu, ou melhor, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e que também intercede por nós. 35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? 36 Como está escrito: “Por amor de ti somos mortos o dia todo. Fomos considerados como ovelhas para o matadouro.” 37 Não, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Pois estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as coisas futuras, nem os poderes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra coisa criada poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
1 João 4, 16
Matos Soares: 16 Reconhecemos a caridade que Deus tem por nós e cremos nela. Deus é caridade; quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.
16. A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se dar a vida pelos amigos é a maior prova de amor (cf. Jo 15, 13)v, Jesus ofereceu a sua vida por todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para transformar o coração. É por isso que os evangelistas situam, na hora da Cruz, o momento culminante do olhar de fé: naquela hora resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. São João colocará aqui o seu testemunho solene, quando, juntamente com a Mãe de Jesus, contemplou Aquele que trespassaram (cf. Jo 19, 37)w: « Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também » (Jo 19, 35)x. Na sua obra O Idiota, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski faz o protagonista — o príncipe Myskin — dizer, à vista do quadro de Cristo morto no sepulcro, pintado por Hans Holbein o Jovem: « Aquele quadro poderia mesmo fazer perder a fé a alguém »;14 de facto, o quadro representa, de forma muito crua, os efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo. E todavia é precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz fulgurante, é quando ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós, que é capaz de penetrar na morte para nos salvar. Neste amor que não se subtraiu à morte para manifestar quanto me ama, é possível crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite confiar-nos plenamente a Cristo.
João 15, 13
Matos Soares: 13 Não há maior amor do que dar a própria vida pelos seus amigos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Ninguém tem maior amor do que este: dar a própria vida pelos seus amigos.
João 19, 37
Matos Soares: 37 E também diz outro lugar da Escritura: Lançarão o olhar para aquele a quem traspassaram (Zc. 12, 10).
Bíblia Portuguesa Mundial: 37 E novamente outra Escritura diz: “Olharão para aquele a quem traspassaram.”
João 19, 35
Matos Soares: 35 O que foi testemunha deste facto o atesta e o seu testemunho é digno de fé e ele sabe que diz a verdade para que também vós acrediteis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 35 Aquele que viu deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que vocês creiam.
17. Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus à luz da sua ressurreição. Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf. Ap 1, 5; Heb 2, 17)y, apoio firme para a nossa fé. « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé », afirma São Paulo (1 Cor 15, 17)z. Se o amor do Pai não tivesse feito Jesus ressurgir dos mortos, se não tivesse podido restituir a vida ao seu corpo, não seria um amor plenamente fiável, capaz de iluminar também as trevas da morte. Quando São Paulo fala da sua nova vida em Cristo, refere que a vive « na fé do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim » (Gl 2, 20)aa. Esta « fé do Filho de Deus » é certamente a fé do Apóstolo dos gentios em Jesus, mas supõe também a fiabilidade de Jesus, que se funda, sem dúvida, no seu amor até à morte, mas também no facto de Ele ser Filho de Deus. Precisamente porque é o Filho, porque está radicado de modo absoluto no Pai, Jesus pôde vencer a morte e fazer resplandecer em plenitude a vida. A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua acção no mundo; pensamos que Deus Se encontra só no além, noutro nível de realidade, separado das nossas relações concretas. Mas, se fosse assim, isto é, se Deus fosse incapaz de agir no mundo, o seu amor não seria verdadeiramente poderoso, verdadeiramente real e, por conseguinte, não seria sequer verdadeiro amor, capaz de cumprir a felicidade que promete. E, então, seria completamente indiferente crer ou não crer n’Ele. Ao contrário, os cristãos confessam o amor concreto e poderoso de Deus, que actua verdadeiramente na história e determina o seu destino final; um amor que se fez passível de encontro, que se revelou em plenitude na paixão, morte e ressurreição de Cristo.
Apocalipse 1, 5
Matos Soares: 5 e da parte de Jesus Cristo, que é a testemunha fiel, o primogênito (o primeiro que ressuscitou) dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A’quele que nos ama e nos livrou dos nossos pecados pelo seu sangue,
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 e da parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel, o primogênito dentre os mortos e o soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos lavou dos nossos pecados —
Hebreus 2, 17
Matos Soares: 17 Daí vem que ele deveu em tudo ser semelhante a seus irmãos, a fim de ser diante de Deus um pontífice misericordioso e fiel (no seu ministério), para expiar os pecados do povo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Portanto, ele devia tornar-se semelhante aos seus irmãos em todas as coisas, para que se tornasse um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas referentes a Deus, para fazer propiciação pelos pecados do povo.
1 Coríntios 15, 17
Matos Soares: 17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, porque ainda permaneceis nos vossos pecados. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 E se Cristo não ressuscitou, a fé de vocês é vã; vocês ainda estão nos seus pecados.
Gálatas 2, 20
Matos Soares: 20 vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. A vida (sobrenatural) com que vivo agora na carne, vivo-a da fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
18. A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Em muitos âmbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que nós: temos confiança no arquitecto que constrói a nossa casa, no farmacêutico que nos fornece o remédio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos também de alguém que seja fiável e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele que nos explica Deus (cf. Jo 1, 18)ab. A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver totalmente em relação com Ele abre um espaço novo à experiência humana, e nós podemos entrar nele. São João exprimiu a importância que a relação pessoal com Jesus tem para a nossa fé, através de vários usos do verbo crer. Juntamente com o « crer que » é verdade o que Jesus nos diz (cf. Jo 14, 10; 20, 31)ac, João usa mais duas expressões: « crer a (sinónimo de dar crédito a) » Jesus e « crer em » Jesus. « Cremos a » Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6, 30)ad. « Cremos em » Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44)ae.
João 1, 18
Matos Soares: 18 Ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Ninguém jamais viu a Deus. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, o revelou.
João 14, 10
Matos Soares: 10 Não credes que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo de mim mesmo. O Pai, que está em mim, esse é que faz as obras.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Você não crê que eu estou no Pai, e o Pai em mim? As palavras que eu digo a vocês, não as falo por mim mesmo; mas o Pai, que vive em mim, faz as suas obras.
João 20, 31
Matos Soares: 31 Estes, porém, foram escritos a fim de que acrediteis que Jesus é o Cristo, Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
Bíblia Portuguesa Mundial: 31 mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome.
João 6, 30
Matos Soares: 30 Mas eles disseram-lhe: “Que milagre fazes tu, para que o vejamos e acreditemos em ti? Que fazes tu?
Bíblia Portuguesa Mundial: 30 Disseram-lhe, pois: “Que sinal, então, tu fazes, para que possamos ver e crer em ti? Que obra tu fazes?
João 2, 11
Matos Soares: 11 Tal foi o primeiro milagre de Jesus; fê-lo em Caná da Galileia. Assim manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Jesus fez este primeiro de seus sinais em Caná da Galileia e revelou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.
João 6, 47
Matos Soares: 47 Em verdade, em verdade, vos digo: O que crê em mim, tem a vida eterna.
Bíblia Portuguesa Mundial: 47 Em verdade, em verdade lhes digo: aquele que crê em mim tem a vida eterna.
João 12, 44
Matos Soares: 44 Jesus levantou a voz e disse: “O que crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou.
Bíblia Portuguesa Mundial: 44 Jesus clamou e disse: “Quem crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou.
Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.
A salvação pela fé
19. A partir desta participação no modo de ver de Jesus, o apóstolo Paulo deixou-nos, nos seus escritos, uma descrição da existência crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: « Abbá, Pai » é a palavra mais característica da experiência de Jesus, que se torna centro da experiência cristã (cf. Rm 8, 15)af. A vida na fé, enquanto existência filial, é reconhecer o dom originário e radical que está na base da existência do homem, podendo resumir-se nesta frase de São Paulo aos Coríntios: « Que tens tu que não tenhas recebido? » ( 1 Cor 4, 7)ag. É precisamente aqui que se situa o cerne da polémica do Apóstolo com os fariseus: a discussão sobre a salvação pela fé ou pelas obras da lei. Aquilo que São Paulo rejeita é a atitude de quem se quer justificar a si mesmo diante de Deus através das próprias obras; esta pessoa, mesmo quando obedece aos mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si própria no centro e não reconhece que a origem do bem é Deus. Quem actua assim, quem quer ser fonte da sua própria justiça, depressa a vê exaurir-se e descobre que não pode sequer aguentar-se na fidelidade à lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos outros, e, por isso, a sua vida torna-se vã, as suas obras estéreis, como árvore longe da água. Assim se exprime Santo Agostinho com a sua linguagem concisa e eficaz: « Não te afastes d’Aquele que te fez, nem mesmo para te encontrares a ti ». 15 Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-á a si mesmo, a sua existência fracassa (cf. Lc 15, 11-24)ah. O início da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário que sustenta a vida e a guarda na existência. Só abrindo-nos a esta origem e reconhecendo-a é que podemos ser transformados, deixando que a salvação actue em nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » ( Ef 2, 8)ai.
Romanos 8, 15
Matos Soares: 15 Com efeito, não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adopção (de filhos), mercê do qual clamamos: “Abba, Pai.” (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Porque vocês não receberam um espírito de escravidão que os leve novamente ao medo, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba! Pai!”
1 Coríntios 4, 7
Matos Soares: 7 Porque, quem é que te distingue (declarando-te superior aos outros)? Que tens tu, que não recebesses? E, se o recebeste, porque te glorias, como se o não tiveras recebido?
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Pois quem faz você diferente dos outros? E o que você tem que não tenha recebido? Mas, se você recebeu, por que se gloria como se não o tivesse recebido?
Lucas 15, 11-24
Matos Soares (Lucas 15, 11-23): 11 Disse mais: “Um homem tinha dois filhos, (ver nota) 12 o mais novo disse a seu pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. O pai repartiu entre eles os bens. 13 Passados poucos dias, juntando tudo o que era seu, o filho mais novo partiu para uma terra distante, e lá dissipou os seus bens, vivendo dissolutamente. 14 Depois de ter consumido tudo, houve naquele país uma grande fome, e ele começou a sentir necessidade. (ver nota) 15 Foi pôr-se ao serviço de um habitante daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. (ver nota) 16 Desejava encher o seu ventre das landes que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. 17 Tendo entrado em si, disse: Quantos jornaleiros há em casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! 18 Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti; 19 já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. 20 Levantando-se, foi para seu pai. Quando ele estava ainda longe, seu pai viu-o, ficou movido de compaixão, e, correndo, lançou-lhe os braços ao pescoço, e beijou-o. (ver nota) 21 O filho disse-lhe: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. 22 Porém o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o vestido mais precioso, vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e os sapatos nos pés. […]
Bíblia Portuguesa Mundial (Lucas 15, 11-23): 11 Ele disse: “Certo homem tinha dois filhos. 12 O mais jovem deles disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe.’ Então ele dividiu os seus bens entre eles. 13 Poucos dias depois, o filho mais jovem juntou tudo o que era seu e viajou para um país distante. Lá ele desperdiçou os seus bens vivendo de forma desregrada. 14 Depois de ter gasto tudo, houve uma grande fome naquele país, e ele começou a passar necessidade. 15 Então ele se pôs a serviço de um dos cidadãos daquele país, que o mandou para os seus campos para apascentar porcos. 16 Ele desejava encher o estômago com as vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. 17 Mas, quando caiu em si, disse: ‘Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morrendo de fome! 18 Eu me levantarei, irei para meu pai e lhe direi: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti. 19 Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados.”’ 20 “Ele se levantou e foi para seu pai. Mas, estando ele ainda longe, seu pai o viu e, movido de compaixão, correu, lançou-se ao seu pescoço e o beijou. 21 O filho lhe disse: ‘Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho.’ 22 “Mas o pai disse aos seus servos: ‘Tragam a melhor veste e vistam-no com ela. Coloquem um anel em sua mão e sandálias em seus pés. […]
Efésios 2, 8
Matos Soares: 8 Porque pela graça fostes salvos, mediante a fé, e isto não (vem) de vós, porque é um dom de Deus;
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 pois pela graça vocês foram salvos por meio da fé, e isso não vem de vocês; é dom de Deus,
20. A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e connosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos gentios faz de um texto do Deuteronómio; uma exegese que se insere na dinâmica mais profunda do Antigo Testamento. Moisés diz ao povo que o mandamento de Deus não está demasiado alto nem demasiado longe do homem; não se deve dizer: « Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá buscar? » ou « Quem atravessará o mar e no-la irá buscar? » (cf. Dt 30, 11-14)aj. Esta proximidade da palavra de Deus é concretizada por São Paulo na presença de Jesus no cristão. « Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os mortos » (Rm 10, 6-7)ak. Cristo desceu à terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarnação e ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do homem e habita nos nossos corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus Se tornou muito próximo de nós, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em nós, e assim nos dá a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.
Deuteronômio 30, 11-14
Matos Soares: 11 Este mandamento, que eu hoje te prescrevo, não está sobre ti, nem longe de ti, 12 nem está posto no céu, de sorte que possas dizer: Qual de nós pode subir ao céu, para que no-lo traga, e o ouçamos e o ponhamos por obra? 13 Nem está da banda de além do mar, para que te desculpes, e digas: Qual de nós poderá passar o mar, e trazer-no-lo, para que possamos ouvi-lo, e cumprir o que nos é mandado? 14 Mas este mandamento está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para o cumprires.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Pois este mandamento que hoje lhe ordeno não é difícil demais para você, nem está longe demais. 12 Não está no céu, para que você diga: “Quem subirá por nós ao céu, para trazê-lo a nós e proclamá-lo a nós, para que possamos cumpri-lo?” 13 Nem está além do mar, para que você diga: “Quem atravessará o mar por nós, para trazê-lo a nós e proclamá-lo a nós, para que possamos cumpri-lo?” 14 Mas a palavra está muito perto de você, na sua boca e no seu coração, para que você possa cumpri-la.
Romanos 10, 6-7
Matos Soares: 6 Mas a justiça que vem da fé diz assim: Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu ?— e isso para fazer descer Cristo. (ver nota) 7 Ou quem descerá ao abismo? — e isso para ressuscitar Cristo dentre os mortos. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 Mas a justiça que é da fé diz assim: “Não diga em seu coração: ‘Quem subirá ao céu?’ (isto é, para fazer Cristo descer); 7 ou: ‘Quem descerá ao abismo?’ (isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos).”
21. Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » ( Gl 2, 20)al, e exortar: « Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações » ( Ef 3, 17)am. Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5)an, é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1 Cor 12, 3)ao.
Gálatas 2, 20
Matos Soares: 20 vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. A vida (sobrenatural) com que vivo agora na carne, vivo-a da fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Efésios 3, 17
Matos Soares: 17 e que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na caridade,
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 para que Cristo habite em seus corações por meio da fé, a fim de que vocês, estando enraizados e alicerçados no amor,
Romanos 5, 5
Matos Soares: 5 e a esperança não traz engano, porque a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 e a esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado.
1 Coríntios 12, 3
Matos Soares: 3 Portanto faço-vos saber que ninguém, que fala pelo Espírito de Deus, diz: “Maldito seja Jesus.” E ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor”, senão pelo Espírito Santo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Portanto, quero que saibam que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: “Jesus é maldito”. E ninguém pode dizer: “Jesus é Senhor”, a não ser pelo Espírito Santo.
A forma eclesial da fé
22. Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se vangloriarem, mas a avaliarem-se « de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um » ( Rm 12, 3)ap. O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Rm 12, 4-5)aq. Os cristãos sejam « todos um só » (cf. Gl 3, 28)ar, sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo — desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, « é a portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo », 16 —, a fé perca a sua « medida », já não encontre o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: « Realmente com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé » ( Rm 10, 10)as. A fé não é um facto privado, uma concepção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, « como hão-de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie? ( Rm 10, 14)at. Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5, 6)au e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.
Romanos 12, 3
Matos Soares: 3 Digo, pois, pela graça que me foi dada, a todos os que estão entre vós, que ninguém tenha de si uma estima maior do que a que deve ter, mas sentimentos modestos, segundo a medida da fé, distribuída por Deus a cada um.
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Pois, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vocês que não pense de si mesmo além do que deve pensar; pelo contrário, pense com bom senso, conforme a medida de fé que Deus repartiu a cada um.
Romanos 12, 4-5
Matos Soares: 4 Assim como num só corpo temos muitos membros, e nem todos os membros desempenham a mesma função, 5 assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e todos, membros uns dos outros.
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Pois, assim como em um só corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, 5 assim também nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo, e, individualmente, membros uns dos outros,
Gálatas 3, 28
Matos Soares: 28 Não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher: todos vós sois um só em Jesus Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 28 Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vocês são um em Cristo Jesus.
Romanos 10, 10
Matos Soares: 10 Com o coração se crê para (alcançar) a justiça, mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Pois com o coração se crê, resultando em justiça, e com a boca se confessa, resultando em salvação.
Romanos 10, 14
Matos Soares: 14 Como invocarão, pois, aquele em quem não creram (ainda)? Ou como crerão naquele, de quem não ouviram falar? E como ouvirão, sem haver quem lhes pregue?
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue?
Gálatas 5, 6
Matos Soares: 6 Porque, em Jesus Cristo, nem a circuncisão vale coisa alguma nem a incircuncisão, mas sim a fé que obra (animada) pela caridade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas sim a fé que atua pelo amor.
CAPÍTULO II
SE NÃO ACREDITARDES,
NÃO COMPREENDEREIS
(cf. Is 7, 9)av
Isaías 7, 9
Matos Soares: 9 Samaria é a capital de Efraim, e o filho de Romelia soberano de Samaria. Se não credes, não subsistireis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 A cabeça de Efraim é Samaria, e a cabeça de Samaria é o filho de Remalias. Se vocês não crerem, certamente não estarão firmes.’”
Fé e verdade
23. Se não acreditardes, não compreendereis (cf. Is 7, 9)aw: foi assim que a versão grega da Bíblia hebraica — a tradução dos Setenta, feita em Alexandria do Egipto — traduziu as palavras do profeta Isaías ao rei Acaz, fazendo aparecer como central, na fé, a questão do conhecimento da verdade. Entretanto, no texto hebraico, há uma leitura diferente; aqui o profeta diz ao rei: « Se não o acreditardes, não subsistireis ». Existe aqui um jogo de palavras com duas formas do verbo ‘amàn: « acreditardes » ( ta’aminu) e « subsistireis » ( te’amenu). Apavorado com a força dos seus inimigos, o rei busca a segurança que lhe pode vir de uma aliança com o grande império da Assíria; mas o profeta convida-o a confiar apenas na verdadeira rocha que não vacila: o Deus de Israel. Uma vez que Deus é fiável, é razoável ter fé n’Ele, construir a própria segurança sobre a sua Palavra. Este é o Deus que Isaías chamará mais adiante, por duas vezes, o Deus-Amen, o « Deus fiel » (cf. Is 65, 16)ax, fundamento inabalável de fidelidade à aliança. Poder-se-ia pensar que a versão grega da Bíblia, traduzindo « subsistir » por « compreender », tivesse realizado uma mudança profunda do texto, passando da noção bíblica de entrega a Deus à noção grega de compreensão. E no entanto esta tradução, que aceitava certamente o diálogo com a cultura helenista, não é alheia à dinâmica profunda do texto hebraico; a firmeza que Isaías promete ao rei passa, realmente, pela compreensão do agir de Deus e da unidade que Ele dá à vida do homem e à história do povo. O profeta exorta a compreender os caminhos do Senhor, encontrando na fidelidade de Deus o plano de sabedoria que governa os séculos. Esta síntese entre o « compreender » e o « subsistir » é expressa por Santo Agostinho, nas suas Confissões, quando fala da verdade em que se pode confiar para conseguirmos ficar de pé: « Estarei firme e consolidar-me-ei em Ti, (…) na tua verdade ». 17 Vendo o contexto, sabemos que este Padre da Igreja quer mostrar que esta verdade fidedigna de Deus é, como resulta da Bíblia, a sua presença fiel ao longo da história, a sua capacidade de manter unidos os tempos, recolhendo a dispersão dos dias do homem. 18
Isaías 7, 9
Matos Soares: 9 Samaria é a capital de Efraim, e o filho de Romelia soberano de Samaria. Se não credes, não subsistireis.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 A cabeça de Efraim é Samaria, e a cabeça de Samaria é o filho de Remalias. Se vocês não crerem, certamente não estarão firmes.’”
Isaías 65, 16
Matos Soares: 16 Todo o que quiser ser abençoado sobre a terra, quererá ser abençoado pelo Deus da verdade, e o que jurar sobre a terra, jurará pelo Deus da verdade, porque foram postas em esquecimento as antigas angústias, desapareceram dos meus olhos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 de modo que aquele que se abençoar na terra, se abençoará no Deus da verdade; e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade; porque as angústias passadas estão esquecidas, e porque estão escondidas dos meus olhos.
24. Lido a esta luz, o texto de Isaías faz-nos concluir: o homem precisa de conhecimento, precisa de verdade, porque sem ela não se mantém de pé, não caminha. Sem verdade, a fé não salva, não torna seguros os nossos passos. Seria uma linda fábula, a projecção dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz só na medida em que nos quisermos iludir; ou então reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permanece sujeito às nossas mudanças de ânimo, à variação dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na vida. Se a fé fosse isso, então o rei Acaz teria razão para não jogar a sua vida e a segurança do seu reino sobre uma emoção. Mas não é! Precisamente pela sua ligação intrínseca com a verdade, a fé é capaz de oferecer uma luz nova, superior aos cálculos do rei, porque vê mais longe, compreende o agir de Deus, que é fiel à sua aliança e às suas promessas.
25. Lembrar esta ligação da fé com a verdade é hoje mais necessário do que nunca, precisamente por causa da crise de verdade em que vivemos. Na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ciência; é verdadeiro porque funciona, e assim torna a vida mais cómoda e aprazível. Esta verdade parece ser, hoje, a única certa, a única partilhável com os outros, a única sobre a qual se pode conjuntamente discutir e comprometer-se; depois haveria as verdades do indivíduo, como ser autêntico face àquilo que cada um sente no seu íntimo, válidas apenas para o sujeito mas que não podem ser propostas aos outros com a pretensão de servir o bem comum. A verdade grande, aquela que explica o conjunto da vida pessoal e social, é vista com suspeita. Porventura não foi esta — perguntam-se — a verdade pretendida pelos grandes totalitarismos do século passado, uma verdade que impunha a própria concepção global para esmagar a história concreta do indivíduo? No fim, resta apenas um relativismo, no qual a questão sobre a verdade de tudo — que, no fundo, é também a questão de Deus — já não interessa. Nesta perspectiva, é lógico que se pretenda eliminar a ligação da religião com a verdade, porque esta associação estaria na raiz do fanatismo, que quer emudecer quem não partilha da crença própria. A este respeito, pode-se falar de uma grande obnubilação da memória no nosso mundo contemporâneo; de facto, a busca da verdade é uma questão de memória, de memória profunda, porque visa algo que nos precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para além do nosso « eu » pequeno e limitado; é uma questão relativa à origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e também o sentido da estrada comum.
Conhecimento da verdade e amor
26. Nesta situação, poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correcta de entender a verdade? Para termos uma resposta, é necessário reflectir sobre o tipo de conhecimento próprio da fé. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: « Acredita-se com o coração » ( Rm 10, 10)ay. Este, na Bíblia, é o centro do homem, onde se entrecruzam todas as suas dimensões: o corpo e o espírito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos outros, a inteligência, a vontade, a afectividade. O coração pode manter unidas estas dimensões, porque é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor, deixando que nos toquem e transformem profundamente. A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade.
Romanos 10, 10
Matos Soares: 10 Com o coração se crê para (alcançar) a justiça, mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Pois com o coração se crê, resultando em justiça, e com a boca se confessa, resultando em salvação.
27. É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjectivo, impossível de propor como verdade válida para todos.19 De facto, aos olhos do homem moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.
Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afectividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o « eu » para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.
Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento, 20 traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: « Como são lindos os teus olhos de pomba! » (Ct 1, 15)az. 21 Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz « entendimento de um amor iluminado ». 22
Cântico dos Cânticos 1, 15
Matos Soares: 15 Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Os teus olhos são (vivos como os) das pombas.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Eis que, você é linda, meu amor. Eis que você é linda. Seus olhos são como pombas. Amada
28. Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence à experiência primordial de cada homem, encontra uma expressão categorizada na concepção bíblica da fé. Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender a unidade do desígnio divino, desde a origem à sua realização. O conhecimento da fé, pelo facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Aliança, é conhecimento que ilumina um caminho na história. É por isso também que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas: o Deus verdadeiro é o Deus fiel, Aquele que mantém as suas promessas e permite, com o decorrer do tempo, compreender o seu desígnio. Através da experiência dos profetas, no sofrimento do exílio e na esperança de um regresso definitivo à Cidade Santa, Israel intuiu que esta verdade de Deus se estendia mais além da própria história, abraçando a história inteira do mundo a começar da criação. O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.
A fé como escuta e visão
29. Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que estabelece uma relação de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: « fides ex auditu — a fé vem da escuta » ( Rm 10, 17)ba. O conhecimento associado à palavra é sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue obedientemente. Por isso, São Paulo falou da « obediência da fé » (cf. Rm 1, 5; 16, 26)bb. 23 Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.
Romanos 10, 17
Matos Soares: 17 Logo a fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Logo, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.
Romanos 1, 5
Matos Soares: 5 pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para que obedeçam em seu nome à fé todos os gentios,
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 por meio de quem recebemos graça e apostolado para a obediência da fé entre todas as nações, por causa do seu nome;
Romanos 16, 26
Matos Soares: 26 mas agora manifestado pelos escritos dos profetas, segundo o mandamento do eterno Deus, para que, conhecido de todos os gentios, os leve a obedecer à fé;
« A Deus que revela é devida a “obediência da fé” (Rm 16, 26; cf. Rm 1, 5; 2 Cor 10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntário assentimento à sua revelação. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade. Para que a compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé mediante os seus dons » (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5).
Romanos 16, 26
Matos Soares: 26 mas agora manifestado pelos escritos dos profetas, segundo o mandamento do eterno Deus, para que, conhecido de todos os gentios, os leve a obedecer à fé;
Romanos 1, 5
Matos Soares: 5 pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para que obedeçam em seu nome à fé todos os gentios,
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 por meio de quem recebemos graça e apostolado para a obediência da fé entre todas as nações, por causa do seu nome;
2 Coríntios 10, 5-6
Matos Soares: 5 derribamos todos os projetos (que se opõem à pregação do Evangelho) e todo o poder altivo que se levanta contra o conhecimento de Deus, reduzimos à sujeição todo o pensamento para o tornar obediente a Cristo. 6 Estamos preparados, para castigar toda a desobediência, depois que for cumprida a vossa obediência.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 derrubando raciocínios e toda altivez que se exalta contra o conhecimento de Deus e levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo, 6 e estando prontos para punir toda desobediência, quando a obediência de vocês for completa.
A propósito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta à visão, a qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contemplação da totalidade a que o homem sempre aspirou, por outro, parece não deixar espaço à liberdade, pois desce do céu e chega directamente à vista, sem lhe pedir que responda. Além disso, parece convidar a uma contemplação estática, separada do tempo concreto em que o homem goza e sofre. Segundo esta concepção, haveria oposição entre a abordagem bíblica do conhecimento e a grega, a qual, na sua busca duma compreensão completa da realidade, teria associado o conhecimento com a visão.
Mas tal suposta oposição não é corroborada de forma alguma pelos dados bíblicos: o Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou possível entabular diálogo com a cultura helenista, um diálogo que pertence ao coração da Escritura. O ouvido atesta não só a chamada pessoal e a obediência, mas também que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a visão plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal visão, disporíamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.
30. A conexão entre o ver e o ouvir, como órgãos do conhecimento da fé, aparece com a máxima clareza no Evangelho de João, onde acreditar é simultaneamente ouvir e ver. A escuta da fé verifica-se segundo a forma de conhecimento própria do amor: é uma escuta pessoal, que distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf. Jo 10, 3-5)bc; uma escuta que requer o seguimento, como acontece com os primeiros discípulos que, « ouvindo [João Baptista] falar desta maneira, seguiram Jesus » ( Jo 1, 37)bd. Por outro lado, a fé está ligada também com a visão: umas vezes, a visão dos sinais de Jesus precede a fé, como sucede com os judeus que, depois da ressurreição de Lázaro, « ao verem o que Jesus fez, creram n’Ele » ( Jo 11, 45)be; outras vezes, é a fé que leva a uma visão mais profunda: « Se acreditares, verás a glória de Deus » ( Jo 11, 40)bf. Por fim, acreditar e ver cruzam-se: « Quem crê em Mim (…) crê n’Aquele que Me enviou; e quem Me vê a Mim, vê Aquele que me enviou » ( Jo 12, 44-45)bg. O ver, graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manhã de Páscoa, de João — que, ainda na escuridão perante o túmulo vazio, « viu e começou a crer » ( Jo 20, 8)bh — passa-se a Maria Madalena — que já vê Jesus (cf. Jo 20, 14)bi e quer retê-Lo, mas é convidada a contemplá-Lo no seu caminho para o Pai — até à plena confissão da própria Madalena diante dos discípulos: « Vi o Senhor! » ( Jo 20, 18)bj.
João 10, 3-5
Matos Soares: 3 A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, ele as chama pelo seu nome, e as tira para fora. 4 Quando as tirou todas para fora, vai adiante delas, e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. 5 Mas não seguem o estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 O porteiro abre a porta para ele, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas próprias ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 Quando ele traz para fora as suas próprias ovelhas, vai adiante delas; e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. 5 Jamais seguirão um estranho, mas fugirão dele; porque não conhecem a voz dos estranhos.”
João 1, 37
Matos Soares: 37 Ouvindo as suas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 37 Os dois discípulos o ouviram falar e seguiram a Jesus.
João 11, 45
Matos Soares: 45 Então muitos dos Judeus que tinham ido visitar Maria e Marta, vendo o que Jesus fizera, creram nele.
Bíblia Portuguesa Mundial: 45 Portanto, muitos dos judeus que vieram a Maria e viram o que Jesus fez creram nele.
João 11, 40
Matos Soares: 40 Jesus disse-lhe: “Não te disse eu que, se tu creres, verás a glória de Deus?”
Bíblia Portuguesa Mundial: 40 Jesus lhe disse: “Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?”
João 12, 44-45
Matos Soares: 44 Jesus levantou a voz e disse: “O que crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou. 45 Quem me vê a mim, vê aquele que me enviou.
Bíblia Portuguesa Mundial: 44 Jesus clamou e disse: “Quem crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou. 45 Quem me vê, vê aquele que me enviou.
João 20, 8
Matos Soares: 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu.
Bíblia Portuguesa Mundial: 8 Então o outro discípulo, que havia chegado primeiro ao sepulcro, também entrou, viu e creu.
João 20, 14
Matos Soares: 14 Ditas estas palavras, voltou-se para trás, e viu Jesus de pé, mas não sabia que era Jesus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Depois de dizer isso, ela se virou e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus.
João 20, 18
Matos Soares: 18 Foi Maria Madalena dar a nova aos discípulos: “Vi o Senhor, e ele disse-me estas coisas.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que tinha visto o Senhor, e que ele lhe tinha dito estas coisas.
Como se chega a esta síntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que Se vê e escuta. Ele é a Palavra que Se fez carne e cuja glória contemplámos (cf. Jo 1, 14)bk. A luz da fé é a luz de um Rosto, no qual se vê o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade que a fé apreende é a manifestação do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas; verdade essa, que se pode definir como a « vida luminosa » de Jesus.24 Isto significa que o conhecimento da fé não nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida, na percepção da sua presença. Neste sentido e a propósito da visão corpórea do Ressuscitado, São Tomás de Aquino fala de oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos:25 viram Jesus ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto é, puderam penetrar na profundidade daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado à direita do Pai.
João 1, 14
Matos Soares: 14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória como de Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 O Verbo se fez carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
31. Só assim, através da encarnação, através da partilha da nossa humanidade, podia chegar à plenitude o conhecimento próprio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no coração, recebendo assim, em nós, a presença interior do amado, que nos permite reconhecer o seu mistério. Compreendemos agora por que motivo, para João, a fé seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: « O que ouvimos, o que vimos (…) e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida… » ( 1 Jo 1, 1)bl. Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos — e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46)bm, afirma: « Tocar com o coração, isto é crer ». 26 A multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.
1 João 1, 1
Matos Soares: 1 O que era desde o principio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, o que apalparam as nossas mãos relativamente ao Verbo da vida,
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram, a respeito do Verbo da vida
Lucas 8, 45-46
Matos Soares: 45 Jesus perguntou: “Quem me tocou?” Negando todos, disse Pedro (e os que com ele estavam) : “Mestre, as multidões apertam-te e oprimem-te.” 46 Mas Jesus disse: “Alguém me tocou, porque conheci que saiu de mim uma virtude.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 45 Jesus disse: “Quem me tocou?” Como todos negassem, Pedro e os que estavam com ele disseram: “Mestre, as multidões te apertam e te empurram, e tu dizes: ‘Quem me tocou?’ ” 46 Mas Jesus disse: “Alguém me tocou, pois eu percebi que de mim saiu poder.”
O diálogo entre fé e razão
32. A fé cristã, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a força deste amor, chega ao centro mais profundo da experiência de cada homem, que vem à luz graças ao amor e é chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este mesmo amor, os primeiros cristãos encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um parceiro idóneo para o diálogo. O encontro da mensagem evangélica com o pensamento filosófico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre fé e razão, que se foi desenvolvendo no decurso dos séculos até aos nossos dias. O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente. 27 Depois de ter encontrado a luz plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo à plenitude da doação total do Filho de Deus por nós. Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.
33. Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam reflectir a bondade de Deus, o Bem; assim se libertou do maniqueísmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos claros. O facto de ter compreendido que Deus é luz deu à sua existência uma nova orientação, a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.
Mas, por outro lado, na experiência concreta de Agostinho, que ele próprio narra nas suas Confissões, o momento decisivo no seu caminho de fé não foi uma visão de Deus para além deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: « Toma e lê »; ele pegou no tomo com as Cartas de São Paulo, detendo-se no capítulo décimo terceiro da Carta aos Romanos.28 Temos aqui o Deus pessoal da Bíblia, capaz de falar ao homem, descer para viver com ele e acompanhar o seu caminho na história, manifestando-Se no tempo da escuta e da resposta.
Mas, este encontro com o Deus da Palavra não levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a visão, mas integrou ambas as perspectivas, guiado sempre pela revelação do amor de Deus em Jesus. Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que reúne em si a reciprocidade própria da palavra e abre um espaço à liberdade própria do olhar para a luz: tal como à palavra corresponde uma resposta livre, assim também a luz encontra como resposta uma imagem que a reflecte. Deste modo, associando escuta e visão, Santo Agostinho pôde referir-se à « palavra que resplandece no interior do homem ».29 A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque é a luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer reflectir-se no nosso rosto para resplandecer a partir do nosso íntimo. Por outro lado, o desejo da visão do todo, e não apenas dos fragmentos da história, continua presente e cumprir-se-á no fim, quando o homem — como diz o Santo de Hipona — poderá ver e amar;30 e isto, não por ser capaz de possuir a luz toda, já que esta será sempre inexaurível, mas por entrar, todo inteiro, na luz.
34. A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjectiva do indivíduo, válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos; mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada homem; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.
Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.
A fé e a busca de Deus
35. A luz da fé em Jesus ilumina também o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e oferece a contribuição própria do cristianismo para o diálogo com os seguidores das diferentes religiões. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que « tinha agradado a Deus », sendo isso impossível sem a fé, porque « quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram » ( Heb 11, 5.6)bn. Deste modo, é possível compreender que o caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Heb 11, 4)bo. O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero.
Hebreus 11, 5.6
Matos Soares (Hebreus 11, 5-6): 5 Pela fé foi arrebatado Henoch (deste mundo) para que não visse a morte, e não foi encontrado, visto que Deus o tinha arrebatado (Gn. 5, 24). Antes desta trasladação, recebeu o testemunho de ter agradado a Deus. 6 Sem fé é impossível agradar-lhe: de fato, é necessário que o que se aproxima de Deus, creia que ele existe e que é remunerador dos que o buscam.
Bíblia Portuguesa Mundial (Hebreus 11, 5-6): 5 Pela fé Enoque foi levado, para que não visse a morte, e não foi encontrado, porque Deus o levou. Pois antes de ser levado, ele recebeu o testemunho de que havia agradado a Deus. 6 Sem fé é impossível agradar a Deus, pois aquele que se aproxima dele deve crer que ele existe e que recompensa os que o buscam.
Hebreus 11, 4
Matos Soares: 4 (Animado) pela fé, ofereceu Abel a Deus um sacrifício melhor que o de Caim; por ela foi declarado justo, tendo Deus aprovado os seus dons; e por ela fala ainda depois de morto (por meio dos seus exemplos).
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício mais excelente do que Caim. Por meio desse sacrifício recebeu o testemunho de que era justo, pois Deus testemunhou a respeito de suas ofertas; e, por meio disso, mesmo morto, ele ainda fala.
Imagem desta busca são os Magos, guiados pela estrela até Belém (cf. Mt 2, 1-12)bp. A luz de Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a descobrir. Deste modo, a estrela fala da paciência de Deus com os nossos olhos, que devem habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o homem religioso deve estar pronto a deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que não cessa de nos surpreender. Este respeito de Deus pelos olhos do homem mostra-nos que, quando o homem se aproxima d’Ele, a luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus, como se fosse um estrela absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo gerador, como um espelho que reflecte o resplendor. A confissão de Jesus, único Salvador, afirma que toda a luz de Deus se concentrou n’Ele, na sua « vida luminosa », em que se revela a origem e a consumação da história.31 Não há nenhuma experiência humana, nenhum itinerário do homem para Deus que não possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz. Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de compreender e acompanhar o caminho de cada homem para Deus.
Mateus 2, 1-12
Matos Soares: 1 Tendo pois nascido Jesus em Belém de Judá, tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, 2 dizendo; “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo.” 3 Ao ouvir isto, o rei Herodes turbou-se, e toda (a cidade de) Jerusalém com ele. 4 E, convocando todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Messias. 5 Eles disseram-lhe: “Em Belém de Judá, porque assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais (cidades) de Judá, porque de ti sairá um chefe, que apascentará Israel, meu povo (Mic. 5, 2).” 7 Então Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles cuidadosamente acerca do tempo em que lhes tinha aparecido a estrela; 8 depois, enviando-os a Belém, disse; “Ide, informai-vos bem acerca do menino, e, quando o encontrardes, comunicai-mo, a fim de que também eu o vá adorar.” 9 Eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando sobre (o lugar) onde estava o menino, parou. 10 Vendo (novamente) a estrela, ficaram possuídos de grandíssima alegria. 11 Entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofereceram presentes de ouro, incenso e mirra. (ver nota) 12 Em seguida, avisados por Deus em sonhos para não tornarem a Herodes, voltaram por outro caminho para a sua terra.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, eis que magos do oriente chegaram a Jerusalém, dizendo: 2 “Onde está aquele que nasceu Rei dos judeus? Pois vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.” 3 Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e toda Jerusalém com ele. 4 Reunindo todos os principais sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde o Cristo haveria de nascer. 5 Eles lhe disseram: “Em Belém da Judeia, pois assim está escrito por meio do profeta: 6 ‘E você, Belém, terra de Judá, de modo nenhum é a menor entre os príncipes de Judá; pois de você sairá um governador que pastoreará o meu povo, Israel.’” 7 Então Herodes chamou os magos em segredo e procurou saber deles exatamente quando a estrela havia aparecido. 8 Ele os enviou a Belém e disse: “Vão e procurem diligentemente pelo menino. Quando o encontrarem, tragam-me notícias, para que eu também possa ir e adorá-lo.” 9 Depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no oriente ia adiante deles, até que chegou e parou sobre o lugar onde o menino estava. 10 Ao verem a estrela, alegraram-se imensamente. 11 Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12 Sendo avisados em um sonho para não voltarem a Herodes, regressaram para a sua terra por outro caminho.
Configurando-se como caminho, a fé tem a ver também com a vida dos homens que, apesar de não acreditar, desejam-no fazer e não cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem — sem o saber — no caminho para a fé: procuram agir como se Deus existisse, seja porque reconhecem a sua importância para encontrar directrizes firmes na vida comum, seja porque sentem o desejo de luz no meio da escuridão, seja ainda porque, notando como é grande e bela a vida, intuem que a presença de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Lião refere que Abraão, antes de ouvir a voz de Deus, já O procurava « com o desejo ardente do seu coração » e « percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus », até que « Deus teve piedade daquele que, sozinho, O procurava no silêncio ».32 Quem se põe a caminho para praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.
Fé e teologia
36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objecto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé recta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e teólogos medievais declararam que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Por isso, a teologia não é apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo, acolhimento e busca de uma compreensão mais profunda da palavra que Deus nos dirige: palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque é um diálogo eterno de comunhão, no âmbito do qual é admitido o homem. 33 Assim, é própria da teologia a humildade, que se deixa « tocar » por Deus, reconhece os seus limites face ao Mistério e se encoraja a explorar, com a disciplina própria da razão, as riquezas insondáveis deste Mistério.
Além disso, a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.
CAPÍTULO III
TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI
(cf. 1 Cor 15, 3)bq
1 Coríntios 15, 3
Matos Soares: 3 Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo aprendi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Pois eu lhes entreguei em primeiro lugar o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras,
A Igreja, mãe da nossa fé
37. Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: « Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos » ( 2 Cor 4, 13)br; a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: « E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem » ( 2 Cor 3, 18)bs; é uma luz que se reflecte de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto reflectia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: « [Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo » ( 2 Cor 4, 6)bt. A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e reflectir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.
2 Coríntios 4, 13
Matos Soares: 13 Mas, tendo o mesmo espírito de fé, segundo está escrito: Eu cri, por isso falei (Ps. 114, 1), também nós cremos, e por isso também é que falamos,
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Mas, tendo o mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: “Eu cri, por isso falei”. Nós também cremos, e por isso também falamos,
2 Coríntios 3, 18
Matos Soares: 18 Todos nós, pois, vendo de cara descoberta como num espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, pela ação do Senhor que é Espírito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 18 Mas todos nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor como em um espelho, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória; e essa transformação vem do Senhor, o Espírito.
2 Coríntios 4, 6
Matos Soares: 6 porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, ele mesmo iluminou nossos corações, para que neles brilhe o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face do Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 pois foi Deus quem disse: “Das trevas brilhará a luz”, e ele brilhou em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
38. A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no « verdadeiro Jesus » através dos séculos? Se o homem fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do « eu » individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o homem conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à acção do Espírito Santo que, como diz Jesus, « há-de recordar-vos tudo » (Jo 14, 26)bu. O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.
João 14, 26
Matos Soares: 26 Mas o Paráclito, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito.
Bíblia Portuguesa Mundial: 26 Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e fará vocês se lembrarem de tudo o que eu disse.
39. É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia baptismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder « creio » em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também « cremos ». Esta abertura ao « nós » eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre « eu » e « tu », mas, no Espírito, é também um « nós », uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio « eu » se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido numa nova família « depois do banho do novo nascimento », é acolhido na casa da Mãe para erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso.34
Os sacramentos e a transmissão da fé
40. Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o Concílio Ecuménico Vaticano II, « abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ». 35
De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé,36 há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do homem e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.
41. A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Baptismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um acto pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: « Pelo Baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova » ( Rm 6, 4)bv; nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adoptivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma « forma de ensino » ( typos didachés), a que obedece de coração (cf. Rm 6, 17)bw: no Baptismo, o homem recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Baptismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um acto que o homem possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se baptiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos baptizados.
Romanos 6, 4
Matos Soares: 4 Fomos, pois, sepultados com ele, a fim de morrer (para o pecado) pelo baptismo, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Fomos, portanto, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova.
Romanos 6, 17
Matos Soares: 17 Porém, graças a Deus, que fostes escravos do pecado, mas obedecestes do coração àquela regra de doutrina, sob a qual fostes formados.
Bíblia Portuguesa Mundial: 17 Mas graças a Deus porque, embora vocês fossem escravos do pecado, tornaram-se obedientes de coração ao padrão de ensino ao qual foram entregues.
42. Quais são os elementos baptismais que nos introduzem nesta nova « forma de ensino »? Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à pessoa baptizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na água que se realiza no Baptismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos convida a passar pela conversão do « eu » tendo em vista a sua abertura a um « Eu » maior, e símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste modo, através da imersão na água, o Baptismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A acção de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adoptivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Baptismo ajuda-nos a perceber a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs, onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento baptismal — se reveste de singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Baptismo, para a transformação da vida inteira em Cristo.
Para compreender a ligação entre o Baptismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto do profeta Isaías, que já aparece associado com o Baptismo na literatura cristã antiga: « Terá o seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância » (Is 33, 16)bx.37 Resgatado da morte pela água, o baptizado pode manter-se de pé sobre « rochas elevadas », porque encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de vida. O texto grego descrevia-a como água pistòs, água « fiel »: a água do Baptismo é fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de segurança para o nosso caminho na vida.
Isaías 33, 16
Matos Soares: 16 esse habitará nas alturas (inacessíveis aos seus inimigos); as altas rochas fortificadas serão o seu abrigo; ser-lhe-á dado pão (em abundância), e a água nunca lhe faltará.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 este habitará nas alturas. O seu refúgio será a fortaleza de rochas. O seu pão lhe será fornecido. As suas águas serão garantidas.
43. A estrutura do Baptismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Baptismo das crianças. Uma criança não é capaz de um acto livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num « nós » comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia baptismal. Esta estrutura do Baptismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Baptismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé. 38 Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo.
44. A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é acto de memória, actualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu hodie, o « hoje » dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.
45. Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstractas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a história do homem, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.
Fé, oração e Decálogo
46. Há mais dois elementos que são essenciais na transmissão fiel da memória da Igreja. O primeiro é a Oração do Senhor, o Pai Nosso; nela, o cristão aprende a partilhar a própria experiência espiritual de Cristo e começa a ver com os olhos d’Ele. A partir d’Aquele que é Luz da Luz, do Filho Unigénito do Pai, também nós conhecemos a Deus e podemos inflamar outros no desejo de se aproximarem d’Ele.
Igualmente importante é ainda a ligação entre a fé e o Decálogo. Dissemos já que a fé se apresenta como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo; por isso, à luz da fé, da entrega total ao Deus que salva, o Decálogo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: « Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto » (Ex 20, 2)by. O Decálogo não é um conjunto de preceitos negativos, mas de indicações concretas para sair do deserto do « eu » auto-referencial, fechado em si mesmo, e entrar em diálogo com Deus, deixando-se abraçar pela sua misericórdia a fim de a irradiar. Deste modo, a fé confessa o amor de Deus, origem e sustentáculo de tudo, deixa-se mover por este amor para caminhar rumo à plenitude da comunhão com Deus. O Decálogo aparece como o caminho da gratidão, da resposta de amor, que é possível porque, na fé, nos abrimos à experiência do amor de Deus que nos transforma. E este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Sermão da Montanha (cf. Mt 5 - 7).
Êxodo 20, 2
Matos Soares: 2 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão.
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 “Eu sou o SENHOR, o seu Deus, que o tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.
Toquei assim os quatro elementos que resumem o tesouro de memória que a Igreja transmite: a confissão de fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do Decálogo, a oração. À volta deles se estruturou tradicionalmente a catequese da Igreja, como se pode ver no Catecismo da Igreja Católica, instrumento fundamental para aquele acto com que a Igreja comunica o conteúdo inteiro da fé, « tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».39
A unidade e a integridade da fé
47. A unidade da Igreja, no tempo e no espaço, está ligada com a unidade da fé: « Há um só Corpo e um só Espírito, (…) uma só fé » ( Ef 4, 4-5)bz. Hoje poderá parecer realizável a união dos homens com base num compromisso comum, na amizade, na partilha da mesma sorte com uma meta comum; mas sentimos muita dificuldade em conceber uma unidade na mesma verdade; parece-nos que uma união do género se oporia à liberdade do pensamento e à autonomia do sujeito. Pelo contrário, a experiência do amor diz-nos que é possível termos uma visão comum precisamente no amor: neste, aprendemos a ver a realidade com os olhos do outro e isto, longe de nos empobrecer, enriquece o nosso olhar. O amor verdadeiro, à medida do amor divino, exige a verdade e, no olhar comum da verdade que é Jesus Cristo, torna-se firme e profundo. Esta é também a alegria da fé: a unidade de visão num só corpo e num só espírito. Neste sentido, São Leão Magno podia afirmar: « Se a fé não é una, não é fé ». 40
Efésios 4, 4-5
Matos Soares: 4 Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. (ver nota) 5 Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Há um só corpo e um só Espírito, assim como vocês também foram chamados em uma só esperança da sua vocação; 5 um só Senhor, uma só fé, um só batismo;
Qual é o segredo desta unidade? A fé é una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus conhecido e confessado. Todos os artigos de fé se referem a Ele, são caminhos para conhecer o seu ser e o seu agir; por isso, possuem uma unidade superior a tudo quanto possamos construir com o nosso pensamento, possuem a unidade que nos enriquece, porque se comunica a nós e nos torna um.
Depois, a fé é una, porque se dirige ao único Senhor, à vida de Jesus, à história concreta que Ele partilha connosco. Santo Ireneu de Lião deixou isto claro, contrapondo-o aos hereges gnósticos. Estes sustentavam a existência de dois tipos de fé: uma fé rude, a fé dos simples, imperfeita, que se mantinha ao nível da carne de Cristo e da contemplação dos seus mistérios; e outro tipo de fé mais profunda e perfeita, a fé verdadeira reservada para um círculo restrito de iniciados, que se elevava com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da divindade desconhecida. Contra esta pretensão, que ainda em nossos dias continua a ter o seu encanto e os seus seguidores, Santo Ireneu reafirma que a fé é uma só, porque passa sempre pelo ponto concreto da encarnação, sem nunca superar a carne e a história de Cristo, dado que Deus Se quis revelar plenamente nela. É por isso que não há diferença, na fé, entre « aquele que é capaz de falar dela mais tempo » e « aquele que fala pouco », entre aquele que é mais dotado e quem se mostra menos capaz: nem o primeiro pode ampliar a fé, nem o segundo diminuí-la.41
Por último, a fé é una, porque é partilhada por toda a Igreja, que é um só corpo e um só Espírito: na comunhão do único sujeito que é a Igreja, recebemos um olhar comum. Confessando a mesma fé, apoiamo-nos sobre a mesma rocha, somos transformados pelo mesmo Espírito de amor, irradiamos uma única luz e temos um único olhar para penetrar na realidade.
48. Dado que a fé é uma só, deve-se confessar em toda a sua pureza e integridade. Precisamente porque todos os artigos da fé estão unitariamente ligados, negar um deles — mesmo dos que possam parecer menos importantes — equivale a danificar o todo. Cada época pode encontrar pontos da fé mais fáceis ou mais difíceis de aceitar; por isso, é importante vigiar para que se transmita todo o depósito da fé (cf. 1 Tm 6, 20)ca e para que se insista oportunamente sobre todos os aspectos da confissão de fé. De facto, visto que a unidade da fé é a unidade da Igreja, tirar algo à fé é fazê-lo à verdade da comunhão. Os Padres descreveram a fé como um corpo, o corpo da verdade, com diversos membros, analogamente ao que se passa no corpo de Cristo com o seu prolongamento na Igreja. 42 A integridade da fé foi associada também com a imagem da Igreja virgem, com o seu amor esponsal fiel a Cristo: danificar a fé significa danificar a comunhão com o Senhor. 43 A unidade da fé é, por conseguinte, a de um organismo vivo, como bem evidenciou o Beato John Henry Newman, quando enumera, entre as notas características para distinguir a continuidade da doutrina no tempo, o seu poder de assimilar em si tudo o que encontra, nos diversos âmbitos em que se torna presente, nas diversas culturas que encontra, 44 tudo purificando e levando à sua melhor expressão. É assim que a fé se mostra universal, católica, porque a sua luz cresce para iluminar todo o universo, toda a história.
1 Timóteo 6, 20
Matos Soares: 20 Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as disputas vãs e ímpias e as contradições de uma ciência de falso nome,
Bíblia Portuguesa Mundial: 20 Timóteo, guarde o que lhe foi confiado, afastando-se das conversas vazias e das contradições daquilo que falsamente se chama conhecimento,
49. Como serviço à unidade da fé e à sua transmissão íntegra, o Senhor deu à Igreja o dom da sucessão apostólica. Por seu intermédio, fica garantida a continuidade da memória da Igreja, e é possível beber, com certeza, na fonte pura donde surge a fé; assim a garantia da ligação com a origem é-nos dada por pessoas vivas, o que equivale à fé viva que a Igreja transmite. Esta fé viva assenta sobre a fidelidade das testemunhas que foram escolhidas pelo Senhor para tal tarefa; por isso, o magistério fala sempre em obediência à Palavra originária, sobre a qual se baseia a fé, e é fiável porque se entrega à Palavra que escuta, guarda e expõe.45 No discurso de despedida aos anciãos de Éfeso, em Mileto, referido por São Lucas nos Actos dos Apóstolos, São Paulo atesta que cumpriu o encargo, que lhe foi confiado pelo Senhor, de lhes anunciar toda a vontade de Deus (cf. Act 20, 27)cb; é graças ao magistério da Igreja que nos pode chegar, íntegra, esta vontade e, com ela, a alegria de a podermos cumprir plenamente.
Atos dos Apóstolos 20, 27
Matos Soares: 27 porque não me esquivei a anunciar-vos todas as disposições de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 27 pois não deixei de declarar a vocês todo o propósito de Deus.
CAPÍTULO IV
DEUS PREPARA
PARA ELES UMA CIDADE
(cf. Heb 11, 16)cc
Hebreus 11, 16
Matos Soares: 16 mas é uma pátria melhor, isto é, a (pátria) celeste que eles desejam. Por isso Deus não se dedigna de se chamar seu Deus, porque lhes preparou uma cidade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Mas agora eles desejam uma pátria melhor, isto é, uma celestial. Portanto, Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou uma cidade para eles.
A fé e o bem comum
50. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros. O primeiro construtor é Noé, que, na arca, consegue salvar a sua família (cf. Heb 11, 7)cd. Depois aparece Abraão, de quem se diz que, pela fé, habitara em tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf. Heb 11, 9-10)ce. Vemos assim surgir, relacionada com a fé, uma nova fiabilidade, uma nova solidez, que só Deus pode dar. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf. Is 65, 16)cf, tornando-se assim firme ele mesmo, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.
Hebreus 11, 7
Matos Soares: 7 Foi pela fé que Noé, avisado por Deus de coisas que ainda se não viam, com piedoso temor foi aparelhando uma arca para salvar a sua família; pela fé condenou o mundo e tornou-se herdeiro da justiça, que se obtêm pela fé.
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Pela fé Noé, sendo avisado sobre coisas que ainda não se viam, movido por santo temor, preparou uma arca para a salvação de sua família, por meio da qual ele condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem segundo a fé.
Hebreus 11, 9-10
Matos Soares: 9 Pela fé estabeleceu-se na terra prometida, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaac e Jacob, herdeiros com ele da mesma promessa, 10 porque esperava ( o céu, que é) aquela cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 9 Pela fé ele viveu como estrangeiro na terra da promessa, como em uma terra que não era sua, habitando em tendas com Isaque e Jacó, coerdeiros com ele da mesma promessa. 10 Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e construtor é Deus.
Isaías 65, 16
Matos Soares: 16 Todo o que quiser ser abençoado sobre a terra, quererá ser abençoado pelo Deus da verdade, e o que jurar sobre a terra, jurará pelo Deus da verdade, porque foram postas em esquecimento as antigas angústias, desapareceram dos meus olhos.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 de modo que aquele que se abençoar na terra, se abençoará no Deus da verdade; e aquele que jurar na terra, jurará pelo Deus da verdade; porque as angústias passadas estão esquecidas, e porque estão escondidas dos meus olhos.
51. Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6)cg, a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. A fé faz compreender a arquitectura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao nomear entre os homens de fé Samuel e David, a quem a fé permitiu « exercerem a justiça » (11, 33). A expressão refere-se aqui à sua justiça no governar, àquela sabedoria que traz a paz ao povo (cf. 1 Sm 12, 3-5; 2 Sm 8, 15)ch. As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus.
Gálatas 5, 6
Matos Soares: 6 Porque, em Jesus Cristo, nem a circuncisão vale coisa alguma nem a incircuncisão, mas sim a fé que obra (animada) pela caridade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 6 Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas sim a fé que atua pelo amor.
1 Samuel 12, 3-5
Matos Soares: 3 Dai testemunho de mim, diante do Senhor e diante de (Saul que é o) seu ungido: Tomei o boi ou o jumento de alguém? Oprimi ou prejudiquei alguém? Aceitei presentes da mão de alguém, para fechar os olhos ao seu proceder? Entregar-vo-los-ei. 4 Eles disseram: Tu não nos prejudicaste, nem oprimiste, nem recebeste coisa alguma da mão de ninguém. 5 (Samuel) disse-lhes: O Senhor é testemunha hoje contra vós, e também o seu ungido é hoje testemunha de que vós não encontrastes na minha mão coisa alguma. Responderam: É testemunha.
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 Aqui estou eu. Testemunhem contra mim perante o SENHOR e perante o seu ungido. De quem tomei um boi? De quem tomei um jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? De quem aceitei suborno para fazer vista grossa? E eu o restituirei a vocês.” 4 Eles responderam: “Você não nos defraudou, nem nos oprimiu, nem tomou coisa alguma da mão de ninguém.” 5 Ele lhes disse: “O SENHOR é testemunha contra vocês, e o seu ungido é testemunha hoje, de que nada encontraram nas minhas mãos.” E eles disseram: “Ele é testemunha.”
2 Samuel 8, 15
Matos Soares: 15 Reinou Davide sobre todo o Israel, e julgava também e administrava justiça a todo o seu povo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Davi reinou sobre todo o Israel; e Davi administrava a justiça e a retidão para todo o seu povo.
A fé e a família
52. No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24)ci e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11)cj.
Gênesis 2, 24
Matos Soares: 24 Por isso deixará o homem seu pai e a sua mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne.
Bíblia Portuguesa Mundial: 24 Portanto, um homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne.
Hebreus 11, 11
Matos Soares: 11 Pela fé, até a mesma Sara estéril recebeu a virtude de conceber, apesar da sua idade avançada, porque creu que era fiel aquele que lho tinha prometido.
Bíblia Portuguesa Mundial: 11 Pela fé a própria Sara recebeu poder para conceber, e deu à luz um filho quando já havia passado da idade, pois considerou fiel aquele que havia prometido.
53. Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.
Uma luz para a vida em sociedade
54. Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações sociais. Como experiência da paternidade e da misericórdia de Deus, dilata-se depois em caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento último, não consegue subsistir; por isso, é necessário voltar à verdadeira raiz da fraternidade. Desde o seu início, a história de fé foi uma história de fraternidade, embora não desprovida de conflitos. Deus chama Abraão para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma única e grande nação, um grande povo, sobre o qual repousa a Bênção divina (cf. Gn 12, 1-3)ck. À medida que a história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.
Gênesis 12, 1-3
Matos Soares: 1 Ora o Senhor disse a Abrão: saí da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrar. 2 Farei (sair) de ti um grande povo, e te abençoarei, engrandecerei o teu nome e serás bendito. 3 Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as nações da terra.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Ora, o SENHOR disse a Abrão: “Saia da sua terra, dos seus parentes e da casa do seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. 2 Farei de você uma grande nação. Eu o abençoarei e engrandecerei o seu nome. Você será uma bênção. 3 Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei aquele que o tratar com desprezo. Todas as famílias da terra serão abençoadas por meio de você.”
Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum! Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no vértice do universo inteiro. « Porquê pretender que [a verdura] cresça para os homens, em vez de crescer para os mais selvagens dos animais sem razão? »46 « Se olhássemos a terra do alto do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das abelhas? »47 No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.
55. Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum. A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a unidade.
Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: « Precisais porventura que se vos diga que até aqueles modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado? »48 Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada. Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser chamado o “seu Deus”, porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16)cl. A expressão « não se envergonha » tem conotado um reconhecimento público: pretende-se afirmar que Deus, com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presença entre nós, o seu desejo de tornar firmes as relações entre os homens. Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus « o nosso Deus »? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-Lo como tal na nossa vida pública, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna possível? A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama.
Hebreus 11, 16
Matos Soares: 16 mas é uma pátria melhor, isto é, a (pátria) celeste que eles desejam. Por isso Deus não se dedigna de se chamar seu Deus, porque lhes preparou uma cidade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Mas agora eles desejam uma pátria melhor, isto é, uma celestial. Portanto, Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou uma cidade para eles.
Uma força consoladora no sofrimento
56. São Paulo, falando aos cristãos de Corinto das suas tribulações e sofrimentos, coloca a sua fé em relação com a pregação do Evangelho. De facto, diz que nele se cumpre esta passagem da Escritura: « Acreditei e por isso falei » ( 2 Cor 4, 13)cm. O Apóstolo refere-se a uma frase do Salmo 116, onde o salmista exclama: « Eu tinha confiança, mesmo quando disse: “A minha aflição é muito grande!” » (v. 10). Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O próprio Apóstolo se encontra numa situação de morte que redunda em vida para os cristãos (cf. 2 Cor 4, 7-12)cn. Na hora da prova, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como « não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor » ( 2 Cor 4, 5)co. O capítulo 11 da Carta aos Hebreus termina com a referência a quantos sofreram pela fé, entre os quais ocupa um lugar particular Moisés que tomou sobre si a humilhação de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se acto de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. Contemplando a união de Cristo com o Pai, mesmo no momento de maior sofrimento na cruz (cf. Mc 15, 34)cp, o cristão aprende a participar no olhar próprio de Jesus; até a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a última chamada da fé, o último « Sai da tua terra » (cf. Gn 12, 1)cq, o último « Vem! » pronunciado pelo Pai, a quem nos entregamos com a confiança de que Ele nos tornará firmes também na passagem definitiva.
2 Coríntios 4, 13
Matos Soares: 13 Mas, tendo o mesmo espírito de fé, segundo está escrito: Eu cri, por isso falei (Ps. 114, 1), também nós cremos, e por isso também é que falamos,
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Mas, tendo o mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: “Eu cri, por isso falei”. Nós também cremos, e por isso também falamos,
2 Coríntios 4, 7-12
Matos Soares: 7 Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja bem que esse extraordinário poder vem de Deus e não de nós. 8 Em tudo sofremos tribulação, mas não somos oprimidos; somos cercados de dificuldades, mas não desesperamos; 9 somos perseguidos, mas não desamparados; somos abatidos, mas não perecemos, 10 trazendo sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste nos nossos corpos. 11 Efetivamente, nós, que vivemos, somos continuamente entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste na nossa carne mortal. 12 A morte, pois, opera em nós, e a vida em vós.
Bíblia Portuguesa Mundial: 7 Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a suprema grandeza do poder seja de Deus e não de nós mesmos. 8 Somos pressionados de todos os lados, mas não esmagados; perplexos, mas não desesperados; 9 perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; 10 levando sempre no corpo a morte do Senhor Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. 11 Pois nós, que vivemos, estamos sempre sendo entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nossa carne mortal. 12 De modo que a morte opera em nós, mas a vida em vocês.
2 Coríntios 4, 5
Matos Soares: 5 Em verdade, não nos pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, que é Senhor. Nós, pois, consideramo-nos vossos servos, por Jesus,
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 Pois não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor, e a nós mesmos como servos de vocês por causa de Jesus,
Marcos 15, 34
Matos Soares: 34 E, à hora nona, exclamou Jesus em alta voz: “Eloí, Eloí, lamma sabachtani?” que quer dizer: “Deus meu. Deus meu, porque me desamparaste?”
Bíblia Portuguesa Mundial: 34 À nona hora, Jesus clamou em alta voz, dizendo: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?” que significa: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Gênesis 12, 1
Matos Soares: 1 Ora o Senhor disse a Abrão: saí da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrar.
Bíblia Portuguesa Mundial: 1 Ora, o SENHOR disse a Abrão: “Saia da sua terra, dos seus parentes e da casa do seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei.
57. A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou « autor e consumador da fé » (Heb 12, 2)cr.
Hebreus 12, 2
Matos Soares: 2 pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, tendo-lhe sido proposto gozo, sofreu a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 2 olhando para Jesus, o autor e consumador da fé, o qual, por causa da alegria que estava diante dele, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.
O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros. Neste sentido, a fé está unida à esperança, porque, embora a nossa morada aqui na terra se vá destruindo, há uma habitação eterna que Deus já inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf. 2 Cor 4, 16 — 5, 5)cs. Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13)ct faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, « cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus » (Heb 11, 10)cu, porque « a esperança não engana » (Rm 5, 5)cv.
2 Coríntios 4, 16
Matos Soares: 16 E’ por isto que não desfalecemos; antes, pelo contrário, embora se destrua em nós o homem exterior, todavia o (homem) interior vai-se renovando de dia para dia.
Bíblia Portuguesa Mundial: 16 Portanto, não desanimamos. Ainda que exteriormente estejamos nos desgastando, interiormente somos renovados dia após dia.
1 Tessalonicenses 1, 3
Matos Soares: 3 lembrando-nos, diante de Deus, nosso Pai, da obra da vossa fé, do trabalho da vossa caridade e da constância da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Bíblia Portuguesa Mundial: 3 lembrando-nos sem cessar da sua obra de fé, do trabalho de amor e da perseverança da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante do nosso Deus e Pai.
1 Coríntios 13, 13
Matos Soares: 13 Agora permanecem (como necessárias para todos) estas três coisas: a fé, a esperança, a caridade; porém, a maior delas é a caridade.
Bíblia Portuguesa Mundial: 13 Mas agora permanecem a fé, a esperança e o amor—estes três. O maior destes é o amor.
Hebreus 11, 10
Matos Soares: 10 porque esperava ( o céu, que é) aquela cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus.
Bíblia Portuguesa Mundial: 10 Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e construtor é Deus.
Romanos 5, 5
Matos Soares: 5 e a esperança não traz engano, porque a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado.
Bíblia Portuguesa Mundial: 5 e a esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado.
Unida à fé e à caridade, a esperança projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que « fragmentam » o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperança.
FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU
(cf. Lc 1, 45)cw
Lucas 1, 45
Matos Soares: 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que da parte do Senhor foram ditas.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 45 Bem-aventurada é aquela que creu, pois haverá o cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!”
58. Na parábola do semeador, São Lucas refere estas palavras com que o Senhor explica o significado da « terra boa »: « São aqueles que, tendo ouvido a palavra com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança » (Lc 8, 15)cx. No contexto do Evangelho de Lucas, a menção do coração bom e virtuoso, em referência à Palavra ouvida e conservada, pode constituir um retrato implícito da fé da Virgem Maria; o próprio evangelista nos fala da memória de Maria, dizendo que conservava no coração tudo aquilo que ouvia e via, de modo que a Palavra produzisse fruto na sua vida. A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé, como dirá Santa Isabel: « Feliz de ti que acreditaste » (Lc 1, 45)cy.
Lucas 8, 15
Matos Soares: 15 Enfim, a que caiu em boa terra, representa aqueles que, ouvindo a palavra com coração recto e bom, a retêm e dão fruto por sua perseverança.
Bíblia Portuguesa Mundial: 15 Mas a que caiu em boa terra, estes são os que, com um coração honesto e bom, tendo ouvido a palavra, a retêm firmemente, e produzem fruto com perseverança.
Lucas 1, 45
Matos Soares: 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que da parte do Senhor foram ditas.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 45 Bem-aventurada é aquela que creu, pois haverá o cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!”
Em Maria, Filha de Sião, tem cumprimento a longa história de fé do Antigo Testamento, com a narração de tantas mulheres fiéis a começar por Sara; mulheres que eram, juntamente com os Patriarcas, o lugar onde a promessa de Deus se cumpria e a vida nova desabrochava. Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus dirigiu-se a Maria, e Ela acolheu-a com todo o seu ser, no seu coração, para que n’Ela tomasse carne e nascesse como luz para os homens. O mártir São Justino, na obra Diálogo com Trifão, tem uma expressão significativa ao dizer que Maria, quando aceitou a mensagem do Anjo, concebeu « fé e alegria ».49 De facto, na Mãe de Jesus, a fé mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual dá fruto, enchemo-nos de alegria, que é o sinal mais claro da grandeza da fé. Na sua vida, Maria realizou a peregrinação da fé seguindo o seu Filho.50 Assim, em Maria, o caminho de fé do Antigo Testamento foi assumido no seguimento de Jesus e deixa-se transformar por Ele, entrando no olhar próprio do Filho de Deus encarnado.
59. Podemos dizer que, na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti anteriormente, isto é, que o crente se envolve todo na sua confissão de fé. Pelo seu vínculo com Jesus, Maria está intimamente associada com aquilo que acreditamos. Na concepção virginal de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no Pai — Ele é o Filho em sentido total e único — e por isso nasce, no tempo, sem intervenção do homem. Sendo Filho, Jesus pode trazer ao mundo um novo início e uma nova luz, a plenitude do amor fiel de Deus que Se entrega aos homens. Por outro lado, a verdadeira maternidade de Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, uma verdadeira carne na qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos. Maria acompanhá-Lo-á até à cruz (cf. Jo 19, 25)cz, donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19, 26-27)da. Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. Act 1, 14)db. O movimento de amor entre o Pai e o Filho no Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf. Jo 12, 32)dc. No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adoptiva (cf. Gl 4, 4-6)dd.
João 19, 25
Matos Soares: 25 Junto à cruz de Jesus estavam sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Bíblia Portuguesa Mundial: 25 Mas, junto à cruz de Jesus, estavam em pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.
João 19, 26-27
Matos Soares: 26 Jesus, vendo sua Mãe, e, junto dela, o discípulo que amava, disse a sua Mãe: “Mulher, eis o teu filho.” 27 Depois disse ao discípulo: “Eis a tua Mãe.” E, desta hora por diante, a levou o discípulo para sua casa.
Bíblia Portuguesa Mundial: 26 Quando Jesus, pois, viu sua mãe e o discípulo a quem ele amava em pé ali, disse a sua mãe: “Mulher, eis aí o seu filho!” 27 Depois disse ao discípulo: “Eis aí a sua mãe!” E daquela hora em diante, o discípulo a levou para a sua própria casa.
Atos dos Apóstolos 1, 14
Matos Soares: 14 Todos estes perseveravam unânimemente em oração, com as mulheres e com Maria, Mãe de Jesus, e com os irmãos dele. (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 14 Todos estes perseveravam unânimes em oração e súplica, juntamente com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele.
João 12, 32
Matos Soares: 32 E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim.”
Bíblia Portuguesa Mundial: 32 E eu, se for levantado da terra, atrairei todos a mim.”
Gálatas 4, 4-6
Matos Soares: 4 Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, feito da mulher, feito sob a lei, 5 a fim de que remisse aqueles que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos. 6 E, porque vós sois filhos, Deus mandou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Abba, Pai! (ver nota)
Bíblia Portuguesa Mundial: 4 Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, 5 para resgatar os que estavam debaixo da lei, a fim de que recebêssemos a adoção como filhos. 6 E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, clamando: “Aba, Pai!”
60. A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:
Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.
Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada.
Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.
Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé.
Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer.
Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado.
Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho.
Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado.
FRANCISCUS
Notas
- 1 Dialogus cum Tryphone Iudaeo, 121, 2: PG 6, 758.
- 2 Clemente de Alexandria, Protrepticus, IX: PG 8, 195.
- 3 « Brief an Elisabeth Nietzsche (11 de Junho de 1865) », in: Werke in drei Bänden (Munique 1954), 953-954.
- 4 Divina Comédia, Paraíso, XXIV, 145-147.
- 5 Acta Sanctorum, Iunii, I, 21.
- 6 « Embora o Concílio não trate expressamente da fé, todavia fala dela em cada página, reconhece o seu carácter vital e sobrenatural, supõe-na íntegra e forte e constrói sobre ela os seus ensinamentos. Bastaria lembrar as declarações conciliares (…) para nos darmos conta da importância essencial que o Concílio, coerente com a tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé, à verdadeira fé, aquela que tem Cristo como fonte e, como canal, o magistério da Igreja » [Paulo VI, Audiência Geral (8 de Março de 1967): Insegnamenti V (1967), 705].
- 7 Cf., por exemplo, Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008-3020; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5; Catecismo da Igreja Católica, 153-165.
- 8 Cf. Catechesis, V, 1: PG 33, 505A.
- 9 Enarratio in Psalmum, 32, II, s. I, 9: PL 36, 284.
- 10 Martin Buber, Die Erzählungen der Chassidim (Zurique 1949), 793.
- 11 Émile (Paris 1966), 387.
- 12 Lettrè à Christophe de Beaumont (Lausanne 1993), 110.
- 13 Cf. In evangelium Johannis tractatus, 45, 9: PL 35, 1722- 1723.
- 14 Parte II, IV.
- 15 De continentia, 4, 11: PL 40, 356 (« ab eo qui fecit te noli deficere nec ad te »).
- 16 « Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923) », in: Unterscheidung des Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963 (Mainz 1963), 24.
- 17 Confessiones, XI, 30, 40: PL 32, 825.
- 18 Cf. ibid.: o. c., 825-826.
- 19 Cf. G. H. von Wright (coord.), Vermischte Bemerkungen / Culture and Value (Oxford 1991), 32-33 e 61-64.
- 20 Cf. Homiliae in Evangelia, II, 27, 4: PL 76, 1207 (« amor ipse notitia est »).
- 21 Cf. Expositio super Cantica Canticorum, XVIII, 88: CCL, Continuatio Mediaevalis, 87, 67.
- 22 Ibid., XIX, 90: o. c., 87, 69.
- 24 Cf. Heinrich Schlier, « Meditationen über den Johanneischen Begriff der Wahrheit », in: Besinnung auf das Neue Testament. Exegetische Aufsätze und Vorträge 2 (Friburgo, Basel, Viena 1959), 272.
- 25 Cf. Summa theologiae, III, q. 55, a. 2, ad 1.
- 26 Sermo 229/L, 2: PLS 2, 576 (« Tangere autem corde, hoc est credere »).
- 27 Cf. n.º 73: AAS (1999), 61-62.
- 28 Cf. Confessiones, VIII, 12, 29: PL 32, 762.
- 29 De Trinitate, XV, 11, 20: PL 42, 1071.
- 30 Cf. De civitate Dei, XXII, 30, 5: PL 41, 804.
- 31 Cf. Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 15: AAS 92 (2000), 756.
- 32 Demonstratio apostolicae praedicationis, 24: SC 406, 117.
- 33 Cf. Boaventura, Breviloquium, Prol.: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), 201; In I librum sententiarum, Proem., q. 1, resp.: Opera Omnia, I (Quaracchi 1891), 7; Tomásde Aquino, Summa theologiae, I, q. 1.
- 34 Cf. De Baptismo, 20, 5: CCL 1, 295.
- 35 Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8.
- 36 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 59.
- 37 Cf. Epistula Barnabae, 11, 5: SC 172, 162.
- 38 Cf. De nuptiis et concupiscentia, I, 4, 5: PL 44, 413 (« Habent quippe intentionem generandi regenerandos, ut qui ex eis saeculi filii nascuntur in Dei filios renascantur »).
- 39 Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8.
- 40 In nativitate Domini sermo, 4, 6: SC 22, 110.
- 41 Cf. Ireneu, Adversus haereses, I, 10, 2: SC 264, 160.
- 42 Cf. ibid., II, 27, 1: o. c., 294, 264.
- 43 Cf. Agostinho, De sancta virginitate, 48, 48: PL 40, 424- 425 (« Servatur et in fide inviolata quaedam castitas virginalis, qua Ecclesia uni viro virgo casta cooptatur »).
- 44 Cf. An Essay on the Development of Christian Doctrine (Uniform Edition: Longmans, Green and Company, Londres 1868-1881), 185-189.
- 45 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 10.
- 46 Orígenes, Contra Celsum, IV, 75: SC 136, 372.
- 47 Ibid., 85: o. c., 136, 394.
- 48 « Choruses from The Rock », in: The Collected Poems and Plays 1909-1950 (Nova Iorque 1980), 106.
- 49 Cf. Dialogus cum Tryphone Iudaeo, 100, 5: PG 6, 710.
- 50 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 58.